Análise: Dishonored

Por Caio Carvalho

Está cada vez mais difícil se aventurar no mundo dos games, sem correr riscos. As próprias séries mais antigas, que já estão há mais de quatro, cinco anos no mercado, provam que é complicado inovar em cima do mesmo assunto sem perder sua identidade - como foi o caso de Resident Evil 6, que caiu no marasmo e deixou a franquia ainda mais conufsa.

Por outro lado, há gratas surpresas de quem aceitou o desafio de trazer algo inédito ao jogador, sem abandonar a tradicionalidade vista nos títulos mais recentes. Uma delas é a Bethesda, que lançou este ano Dishonored. O game vem com uma proposta interessante e intuitiva: ambientado na cidade de Dunwall, você assume o papel de Corvo Attano, um guarda-costas acusado de assassinar a imperatriz que rege a metrópole. A partir daí, é preciso escapar da prisão e buscar vingança contra os verdadeiros culpados, que também sequestraram a filha da monarca.

Universo único

O primeiro ponto a destacar é a ambientação vista em Dunwall, que mais parece uma releitura de BioShock. A textura dos gráficos são de cores frias, mas têm um ar de cartunismo, remetendo a uma pintura clássica e moderna ao mesmo tempo. Apesar da semelhança, Dishonored consegue ter uma visão peculiar do que estamos acostumados, dando ao jogo identidade própria.

As ruas da cidade retratam o período vitoriano do Reino Unido, em uma pegada steampunk: as pessoas convivem num cenário pós-revolução industrial, ainda com mecanismos antigos e técnicas ultrapassadas, mas também presenciam o desenvolvimento de tecnologias que estão à frente daquele tempo. É uma sensação estranha perceber que você caminha por avenidas enfestadas de ratos e corpos, prédios destruídos e muita sujeira, mas que dividem espaço com edifícios mais luxuosos, soldados bem fardados e robôs sentinelas gigantes. Para completar o pacote, uma praga desconhecida se prolifera pelos cidadãos de Dunwall, transformando-os em criaturas hostis.

Em meio a tudo isso, o game ainda conta com excelentes efeitos sonoros, dando a impressão que estamos em um baile de máscaras macabro. Além disso, o trabalho de dublagem dos personagens é impecável, e conta com nomes conhecidos da indústria do entretenimento, como Michael Madsen (o Budd, de "Kill Bill"), Chloë Grace Moretz (a Hit Girl, de "Quebrando Tudo"), Lena Headey (a Cersei Lannister, de "Game of Thrones") e Carrie Fisher (a Princesa Léia, de "Star Wars").

A nova era do FPS

Dishonored é um exemplo que mostra qual deve ser a mecânica adotada pelos próximos jogos de ação em primeira pessoa, caso não queiram cair na mesmice. É claro que o título pega muitas influências dos consagrados Deus EX: Human Revolution, BioShock e Half-Life 2, mas seu sistema de evolução de habilidades se diferencia de outros títulos do gênero. Cabe ao jogador escolher qual o melhor recurso para concluir as missões.

Corvo pode fazer uso de armas como uma besta, com três tipos de dardos diferentes - um deles contendo sonífero -, uma pistola e uma espada, esta capaz de bloquear ataques e revidar com um golpe final. Há também minas de proximidade que podem ser implantadas em ratos e usadas para eliminar os adversários com pequenas explosões. Sem contar as granadas, perfeitas para destruir inimigos mais resistentes.

Além do equipamento balístico, o personagem também é dotado de poderes sobrenaturais que podem tirá-lo de várias enrascadas. O "Blend Time", por exemplo, diminui o tempo ao redor de Corvo, permitindo que ele fuja ou aniquile os vilões rapidamente; já o "Blink" possibilita se teletransportar em curtas distâncias, enquanto o "Possession" dá a chance de possuir o corpo de animais e pessoas.

Vale lembrar que todos os poderes são recarregados por elixirs e melhorados por amuletos mágicos espalhados pelos cenários, assim como o armamento de Corvo, que também pode receber melhorias compradas por dinheiro.

Jogue de novo, no seu estilo

Assim como em games das séries Hitman e Splinter Cell, uma das principais características de Dishonored é a mistura de ação com stealth; quem decide qual será o tipo de combate do momento é o jogador. Isso significa que você pode optar em utilizar armas de fogo para passar as fases, ou se esgueirar por entre os inimigos e não ser detectado.

Durante o caminho, suas escolhas influenciam em todo o ambiente e podem ou não chamar a atenção dos outros personagens. O mínimo ruído ou descuido é capaz de despertar o interesse dos sentinelas em verificar o que aconteceu, e quanto menos notado você for e menos gente você eliminar - a não ser os alvos principais e secundários -, maior será sua pontuação final.

Por isso é tão prazeroso jogar mais de uma vez e explorar cada objetivo oferecido pelo título: é como se Corvo construísse uma dinâmica própria dentro de uma história linear. A campanha principal dura cerca de seis horas, mas é legal voltar desde o começo de cada capítulo para saber o que cada tipo de decisão pode causar, como também procurar por livros, pequenos tesouros e itens secretos, que exigem mais paciência para serem coletados.

Um fraco protagonista num enredo de pontas soltas

Corvo é um personagem que cativa pela história e técnicas de combate, mas que não consegue se impor durante toda a trama como aquele que irá salvar a filha da imperatriz das mãos dos verdadeiros assassinos. Ele simplesmente recebe missões, alvos para assassinar e ponto, e mesmo sendo mudo, não tenta se comunicar com as outras pessoas. Essa característica faz com que o herói não tenha personalidade própria e acabe por ser menos importante que os outros personagens.

Outra questão que ficou a desejar é a origem dos poderes de Corvo. A única coisa que sabemos é que são dados a ele por um misterioso homem que aparece em alguns momentos no jogo, quando uma runa mágica especial é encontrada. E é só isso. Apesar de não prejudicar o desenvolvimento da história, esses buracos deixam dúvidas que podem ser essenciais para compreender o universo do game.

Conclusão

Dishonored é uma aventura que talvez não agrade gregos e troianos fãs da ação frenética dos shooters com visão em primeira pessoa, mas é um título que merece sua atenção. Em meio a um tipo de game tão saturado que é o FPS, o novo jogo da Bethesda, produzido pela Arkane Studios, mostra que é possível fazer algo novo e de qualidade, sem abandonar as raízes do gênero. Mesmo sem personagens muito marcantes, é um verdadeiro presente para aqueles que buscavam a medida certa entre combates corpo a corpo e ações mais silenciosas.