Snowden: blockchain é “faca de dois gumes” que pode garantir e ferir privacidade

Por Felipe Demartini | 23 de Agosto de 2018 às 18h02
Divulgação

O antigo analista da NSA e delator Edward Snowden mostrou objeções quanto ao uso das blockchains, afirmando que a utilização de sistemas desse tipo para identificação e validação de transações pode servir para proteger, mas também ferir, a privacidade dos usuários. Para ele, tecnologia funciona como uma “faca de dois gumes”, cuja aplicação precisa ser avaliada com bastante cuidado.

Falando no 1º Fórum de Segurança da Informação, que aconteceu nesta quarta (22) em São Paulo, Snowden citou o direito a ser esquecido como o principal motivo para explicar essa necessidade de cautela. Para ele, falando em uma transmissão ao vivo diretamente de Moscou, na Rússia, a existência de registros desse tipo atrelados a uma identificação pessoal, por exemplo, pode reservar um futuro sombrio justamente pelo fato de atos e transações acabarem armazenados para a eternidade.

Ele concorda que, caso exista privacidade e, principalmente, sigilo, o uso da blockchain com um caráter desse tipo pode ser “fabuloso”. Do contrário, a perspectiva “não é emocionante”, mas sim, “perturbadora”. “Há algumas coisas na vida que a gente deve ter o direito de esquecer para poder seguir adiante”, completa.

Em sua fala, Snowden voltou a apontar a espionagem e a vigilância extrema sobre os cidadãos como uma das maiores ameaças atuais à democracia. Ele rebate o argumento de que atos desse tipo são necessários para proteger as pessoas do terrorismo com os indícios que ele próprio apresentou, indicando que as informações obtidas estavam sendo utilizadas, também, para fins políticos e aumento da influência econômica.

São, para o delator, utilizações extremamente danosas que só se tornaram um problema depois que as revelações detonadas por ele vieram à público. Para ele, os defensores de atitudes desse tipo deixam de lado o direito à privacidade e individualidade em prol de uma suposta proteção à segurança nacional, que acaba entrando no caminho, também, das liberdades de cada um e desenha um “futuro hostil” — que, felizmente, veio à tona por conta dos arquivos que vazou para o mundo.

Snowden está exilado na Rússia desde 2013, quando entregou para a imprensa internacional uma série de documentos confidenciais da NSA que revelaram as campanhas de espionagem realizadas pela agência. Ele permanece sob a proteção do Kremlin devido às acusações de traição e roubo de propriedade governamental que pairam sobre ele caso retorne aos Estados Unidos. O delator tem sua presença garantida no país, pelo menos, até 2020.

Na visão dele, entretanto, tudo valeu a pena pelas reformas e mudanças que vieram depois. Ele ainda vê com péssimos olhos os extensos e complicados termos de uso aplicados pelas empresas de tecnologia, voltados, justamente, para levar ao consentimento sem que o usuário saiba exatamente com o que está concordando, mas enxerga que alterações drásticas de postura estão no horizonte. Por isso, pede que a população continue alerta e preparada.

“Se a minha história pode dizer qualquer coisa, é que você não pode salvar o mundo, mas uma voz pode mudar tudo. Então, olhe ao seu redor e deixe que a próxima a ser ouvida seja a sua”, afirmou no discurso transmitido ao vivo para a plateia do evento. Os desafios, aponta ele, são maiores que os que flagrou na época em que trabalhava na NSA, mas a população, em sua visão, também está muito melhor preparada para enfrentá-los.

Fonte: IDG

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