Empresa oferece a governos acesso total a smartphones de todo o mundo

Por Redação | 03 de Setembro de 2016 às 10h00

Muito se diz sobre ficarmos refém de um monitoramento digital sem ao menos estarmos cientes disso. Recentemente, uma foto do Mark Zuckerberg com sua câmera coberta reacendeu essa discussão, afinal, se até ele se preocupa, é porque alguma verdade deve haver nisso. É o que confirma uma empresa israelense: a NSO Group oferece a seus clientes a possibilidade de vigiar smartphones de terceiros, registrando todas as atividades deles, incluindo locação, contatos e histórico, e fazer gravações pela câmera e microfone. Os valores, no entanto, não são nada módicos, US$ 650 mil para dez aparelhos com uma taxa extra de instalação de US$ 500 mil.

Fundada há seis anos, a NSO é uma empresa de vigilância que se manteve silenciosa no mercado. Em agosto, ela chamou a atenção da mídia por ter sido apontada como responsável pelo acesso ao smartphone de um ativista de direitos humanos nos Emirados Árabes e de um jornalista mexicano que investigava casos de corrupção no governo do México.

Apesar da furtividade no mercado, típica e essencial para o ramo de atuação, a empresa oferece seus serviços a governos e órgãos legais do mundo todo. Segundo eles, a espionagem é necessária para identificar terroristas, sequestradores e traficantes, tornando o mundo um lugar mais seguro.

Em entrevista ao NYT, pessoas ligadas à empresa informaram que a NSO tem políticas severas para determinar para quem vender seus serviços, o que inclui um comitê de ética composto por funcionários e consultores externos que teria como principal objetivo vetar negociações com clientes ligados aos direitos humanos e outras ONGs globais.

Para especialistas, isso se torna impossível de ser controlado. "Uma vez que o programa seja vendido, governos podem usá-los como bem entenderem. A NSO pode se defender dizendo que quer fazer o mundo mais seguro, mas também fazem dele um lugar mais vigiado", afirma o membro da Escola de Relações Globais da Universidade de Toronto Bill Marczak.

As operações da NSO operam em âmbitos legais pouco claros, deixando para os clientes decidirem até que ponto querem espionar pessoas e, por consequência, deixando para os governos decidirem como irão proceder com as informações.

O porta-voz da Embaixada do México em Washington afirmou por email que os sistemas de inteligência estão de acordo com a legislação mexicana e que não são utilizados em jornalistas e ativistas.

Já o porta-voz da NSO Zamir Dahbash disse que o sistema foi disponibilizado para governos com a única função de investigar criminosos e terroristas e se recusou a informar os planos futuros da empresa para o México após o ocorrido com o jornalista em agosto.

O sistema oferecido, Pegasus, é compatível com iOS, Android, BlackBerry e Symbian e pode passar completamente despercebido. Ele pode acessar mensagens, contatos, calendário, emails, histórico de navegação, localização e gravar o som de ambientes. Além disso, ele pode utilizar a câmera e capturar o que tiver na tela, além de bloquear o acesso a sites e aplicativos. Para garantir a furtividade máxima, o sistema pode ser instalado sem fio e de forma indetectável.

Os planos começam em dólares para o sistema Symbian e chegam até US$ 800 mil, com possibilidade de ajustes de acordo com o número de aparelhos monitorados.

A tecnologia pode fazer bem para muitas pessoas e a intenção de aumentar a segurança é nobre. Entretanto, é válido ressaltar que empresas privadas estão lucrando com a invasão de privacidade com o respaldo de legislações obtusas. Ainda mais além, com relações próximas com governos. Por mais que pareça teoria da conspiração, nosso avanço tecnológico lembra cada vez mais as distopias apresentadas em livros e filmes.

Fonte NYT

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