Ativista comenta vazamento de 11 mil mensagens privadas da WikiLeaks

Por Carlos Dias Ferreira | 31 de Julho de 2018 às 17h45
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WikiLeaks

A jornalista e ativista Emma Best provocou uma verdadeira “corrida do ouro” ao liberar no último domingo (29) o conteúdo de um chat privado mantido pela WikiLeaks no Twitter. De maneira geral, o que jornalistas e público têm feito desde então é fuçar atrás de paralelos entre fatos veiculados em mídia e aqueles constantes das 11 mil mensagens trocadas por gestores e colaboradores do grupo pró-transparência entre maio de 2015 e novembro de 2017.

Os paralelos já começaram a ser ventilados, naturalmente. Endossando um artigo publicado no início do ano pelo site Intercept, fala-se em uma manobra arrojada responsável pro fazer vazar os emails de políticos democratas durante a eleição presidencial estadunidense de 2016; um conluio entre a WikiLeaks e o governo russo que, em última instância, teria provocado a derrota de Hilary Clinton nas urnas.

Embora o conteúdo dos logs do Twitter já tenha embasado artigos de outros jornalistas desde o início do ano, Best foi a primeira contemplada pela fonte anônima a decidir que seria de bom tom disponibilizar todas as 11 mil mensagens em estado bruto. “Deixe que as pessoas contribuam”, conforme reforçou Best em entrevista ao site The Daily Dot. “Algumas coisas ali são de importância óbvia, mas outras necessitam de uma análise mais cuidadosa.”

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Teor transfóbico e antissemítico

A jornalista afirma, entretanto, que o teor das mensagens encontradas no chat foi igualmente determinante para a decisão de fazer ventilar a coisa toda. Segundo Best, constam do conteúdo vários textos de natureza transfóbica e antissemítica – incluindo mensagens ofensivas sobre uma antiga fonte da WikiLeaks, a ativista transgênero Chelsea Manning, e também sobre um jornalista da Associated Press.

Julian Assange negou a autoria de mensagens de teor considerado antissemítico e transfóbico publicadas na conta do Twitter @JulianAssange.

Confrontado com o conteúdo no início do ano, o fundador do grupo, Julian Assange, negou a autoria. Assange afirmou que a conta oficial da WikiLeaks no Twitter é mantida por uma equipe com alta rotatividade.

Mas a história não foi bem engolida por Best. “Alguns tentaram justificar os conteúdos racistas e antissemíticos como piadas”, disse ela ao site. “Mesmo que as únicas pessoas que fazem piadas antissemíticas ou racistas sejam elas próprias antissemitas ou racistas.”

Uma dose do próprio remédio

Embora a jornalista confesse que poupou alguns dos participantes do famigerado chat, por apresentarem bons motivos para o anonimato, não faltou quem engolisse mal a publicação. Afinal, assim como a WikiLeaks sofreu pesadas retaliações desde o início de suas atividades, o vazamento das informações do chat provado também rendeu rechaços a Best – no caso, reações defensivas vindas da própria organização.

“Repassei tudo várias vezes, e penso que editei tudo que era necessário”, disse Best ao Daily Dot. “Esperei para falar com algumas pessoas que poderiam ser postas em risco.” A despeito de dois ou três nomes implicados, entretanto, a jornalista diz que “a maioria das pessoas” queria ter seus nomes incluídos.

Por parte dos defensores da WikiLeaks, entretanto, vieram várias investidas que acusavam Best de atirar no próprio pé, prejudicando os movimentos em prol da transparência nas mídias ao provocar dissensões internas. Não faltou, inclusive, quem apontasse que muitas das mensagens foram “modificadas” por Best antes de serem publicadas.

“Ativista frustrada!”

Também não faltaram ataques de cunho mais direto. Embora não se saiba ao certo quem mantém em funcionamento o @JulianAssange no Twitter hoje – já que o próprio Assange se encontra praticamente incomunicável dentro da embaixada equatoriana em Londres -, uma publicação veiculada no perfil apontou que tudo não passava de uma reação da jornalista por não ter sido admitida na WikiLeaks em ocasião anterior. E a menção à mudança de gênero de Emma Best, entretanto, valeu a exclusão por parte do próprio Twitter.

“Conforme nós entendemos, trata-se de a WikiLeaks ter declinado a sua oferta de trabalho no ano passado; depois disso, você mudou o seu nome de Michael para Emma e passou a se engajar em difamações sem fim contra um refém político isolado que está incapaz de responder."

Emma Best é acusada pelo WikiLeaks de promover uma cruzada contra Julian Assange - atualmente "ilhado" e incomunicável no interior da embaixada equatoriana em Londres.

Best garante, entretanto, que jamais chegou a bater na porta da WikiLeaks atrás de emprego. “A mesquinharia não surpreende”, disse ela ao Daily Dot. “Eu sabia que haveria retaliação, e algumas pessoas inclusive me perguntavam por que isso ainda não havia ocorrido.”

Lançada em outubro de 2006 como uma organização sem fins lucrativos destinada a publicar informações secretas, a WikiLeaks ganhou várias vezes as manchetes ao longo dos últimos anos – com revelações que cobriram desde a guerra no Afeganistão até as eleições presidenciais dos EUA em 2016. Atualmente, o grupo reúne apoiadores por meio da campanha #FreeAssange, destinada a buscar a anistia internacional para o seu fundador.

Fonte: The Daily Dot

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