Snowden organizou “criptofesta” para ensinar convidados a evitar espionagem

Por Redação | 23 de Maio de 2014 às 14h15

“Mesmo atuando globalmente, ele ainda estava atuando localmente”. Essa é uma das muitas frases que a revista americana Wired utilizou para contar a história de um Edward Snowden pré-escândalo de espionagem que, no final de 2012, organizou uma “criptofesta” para ensinar a jovens como agir para proteger a própria privacidade ao usar a internet.

O pequeno evento aconteceu nos fundos de uma loja de móveis em Honolulu, no estado norte-americano do Hawaii, e contou com cerca de 20 pessoas. O acontecimento mostrou que, antes mesmo de se tornar uma celebridade mundial devido a seu trabalho pela liberdade na rede, Snowden já agia em prol destes mesmos ideais, chegando até mesmo a ser o administrador de um dos relays mais utilizados da plataforma Tor.

O navegador seguro tem seus labirintos de segurança coordenados por voluntários, que são usados para redirecionar o fluxo de acesso à rede de forma a ocultar sua origem. Snowden era o administrador do TheSignal, um servidor de 2 Gbps, além de trabalhar junto a seus colegas de trabalho – provavelmente dentro da própria NSA – para que eles também montassem suas próprias redes. Justamente por isso, ele tinha contato direto com a criadora do Tor, Runa Sandvik, e pediu a ela adesivos do navegador para dar de presente a seus amigos como forma de incentivá-los.

Coincidentemente, a especialista estaria em férias no Hawaii pouco depois do contato. E foi aí que ela sugeriu a Snowden a presença em uma micropalestra, onde falaria sobre o trabalho com o Tor e questões relacionadas à privacidade. O ex-analista foi além e coordenou o que, para muita gente, foi a primeira "criptofesta" bem sucedida do Estado.

A divulgação desse tipo de encontro não acontece pelos meios convencionais, pelos quais você deve estar acostumado a ser convidado. Wikis ocultas, sites de coletivos de hackers e até mesmo páginas da Deep Web são usadas para que os interessados discutam sobre o evento e marquem de se encontrarem. Foi exatamente assim com a "criptofesta" de Snowden, organizada sob um pseudônimo e aberta para quem mais quisesse palestrar.

Primeiros passos

O evento aconteceu em 11 de dezembro de 2012 para uma plateia de pouco mais de 20 pessoas, em sua maioria homens. Após bater um papo rápido com Sandvik, Snowden acaba revelando, a contragosto, que trabalhava para a Dell, antes de seguir para explicações sobre como tudo vai funcionar.

Além da apresentação da especialista sobre o Tor, o próprio ex-analista realizou uma apresentação sobre o TrueCrypt, uma ferramenta de encriptação de código aberto. A conversa foi focada em maneiras de criptografar um HD ou drive USB. Os dois, juntos, ainda falaram um pouco sobre o processo de criação de um relay do navegador anônimo e como os presentes poderiam fazer o mesmo.

Em entrevista à Wired, Sandvik brinca com um lado de Snowden que, provavelmente, ninguém havia imaginado antes. “Ele deve ser muito bom em organizar eventos”, diz ela, que conta que não houve contratempo ou problema algum durante a festa, desde a organização das cadeiras até o bate-papo com os especialistas.

Qual não foi a surpresa da criadora do Tor quando, seis meses depois, o jornal The Guardian identificou seu companheiro de palestra como um dos responsáveis pelo principal escândalo de espionagem da história recente. Os relays criados por ele para o navegador deixaram de operar um mês depois, mas ela já estava de olho neles desde que as notícias se espalharam. Afinal de contas, as arquiteturas criadas por ele se tornariam ponto de interesse para a NSA.

Apesar de suas relações com o ex-analista, Sandvik afirma nunca ter sido procurada pelo FBI. Ela lembra também que todo o acontecimento foi filmado pela namorada de Snowden na época, Lindsay Mills, mas os vídeos nunca chegaram a ser publicados na internet devido a problemas de áudio. Ela não sabe se as gravações chegaram às mãos do governo.

Outro dado interessante, revelado pelo jornalista Glenn Greenwald em seu novo livro, “Sem Lugar Para Esconder”: Snowden estava aguardando a resposta do jornalista sobre a revelação dos documentos na época da "criptofesta". O primeiro e-mail sobre o assunto teria sido enviado 11 dias antes do evento.

Ao final da reportagem, Sandvik chama Snowden de “lenda”. Para ela, o analista correu altos riscos organizando e comparecendo a uma "criptofesta" para ensinar aos presentes como evitar a espionagem de uma organização para a qual ele próprio estava trabalhando. Para a especialista, trata-se de um ato de extrema coragem e a lembrança da participação no evento é motivo de orgulho.

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