Máquinas de vigiar, privacidade e liberdade no ciberespaço

Por Colaborador externo | 27 de Novembro de 2014 às 08h36
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por Gabriel Perazzo*

“Guerra é paz liberdade é escravidão ignorância é força.”

A frase acima pode ser lida no fabuloso romance 1984, escrito por Eric Arthur Blair, conhecido como George Orwell. Tal frase estava escrita no edifício do chamado Ministério da Verdade, ou Miniver, e era o lema do partido que controlava a sociedade retratada na obra. O livro, escrito em 1948, apresentava um futuro pessimista, onde uma grande estrutura de poder é o elemento de opressão, força, confusão e desentendimento.

Neste contexto, o autor descreve algo chamado de Big Brother, que diferentemente de um programa de entretenimento conhecido por todos nós, era uma entidade poderosa de vigilância capaz de observar tudo e todos.

Claro que Orwell não poderia ter vislumbrado o surgimento da internet na época em que escreveu o livro. Muito menos como ela poderia ser utilizada por estruturas partidárias, que criam uma simulação através de propagandas falaciosas de políticas de governo, por exemplo, e que poderiam ser tomadas por todos nós como verdadeira. A Internet, como nós sabemos, trata-se de um meio público em que todos têm acesso irrestrito ao conteúdo produzido por muitas fontes.

Se levarmos em consideração que o ciberespaço seja uma espécie de “universo paralelo”, temos então um aparato poderoso em nossas mãos, mas que da mesma maneira que pode refletir a verdade, pode ser consequência de mentiras, principalmente aliada aos mecanismos de poder e de estruturas partidárias. Neste ponto, podemos observar o desejo incessante de Estados que querem o controle, sob o discurso de “regulação” econômica, social, ou qualquer outra palavra bonita, com o intuito de favorecer um partido, ou grupos partidários para adquirir mais poder e controle dos habitantes de um Estado.

Claro que a Internet será muito utilizada por estes grupos com o desejo de entenderem o que os “seus” cidadãos andam fazendo, quais lugares eles frequentam, com que intervalo de tempo se mantêm em um determinado lugar, entre outras coisas, utilizando como ferramenta para traçar um perfil completo dos habitantes de um Estado. Isso fica ainda mais evidente com o surgimento, não só na América Latina, mas em todo o mundo, de governos que não são declaradamente totalitários, mas que possuem traços de totalitarismo em sua estrutura governamental.

Estes governantes não prezam pela liberdade de seus cidadãos, mas desejam apropriar-se da Internet não só para traçar perfis, mas saber tudo o que um determinado cidadão faz, utilizar destas informações e criar provas falsas, coagir e intimidar qualquer pessoa que possa ir contra esta estrutura de poder, ou mesmo que possa representar uma ameaça. Winston Smith, personagem do livro 1984 fazia parte desta estrutura, mas ao perceber que não se encaixava mais dentro deste sistema, começa a agir contra as regras do partido e passa a ser perseguido. Estados totalitários querem construir “corpos dóceis” através da coação, perseguição e intimidação. Não prezam pela liberdade. Muito pelo contrário, odeiam o indivíduo, desprezam as liberdades individuais e só enxergam coletivos. Com isso desejam o controle dos corpos e das mentes das pessoas para que saia da boca do cidadão apenas o que eles querem ouvir.

Por isso o que mais temos ouvido falar na atualidade é sobre a regulação da Internet. Estados totalitários desejam regular tudo, começando pelo que é criado por seres humanos e terminando com a regulação do próprio ser humano.

A questão é que a Internet possui uma estrutura que podemos classificar como “subversiva”, mas isso estes grupelhos políticos ainda não entenderam, ou se fazem de desentendidos. Colocar a Internet sob as asas do Estado será uma das tarefas mais árduas e inúteis para qualquer estrutura de poder existente, já que a Internet irá se rebelar contra qualquer um que queira colocá-la debaixo de uma “asa” governamental. Em uma época em que Edward Snowden denuncia todas as peripécias cometidas pelo Estado, que a Internet seja a nossa ferramenta contra este tipo de ação que desrespeita a liberdade do indivíduo.

*Gabriel Perazzo é Consultor em Redes pela empresa CYLK.

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