Governo dos EUA acusa chineses de praticarem espionagem digital

Por Redação | 21 de Maio de 2014 às 09h05

Em meio aos escândalos cada vez maiores de espionagem governamental, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou o indiciamento de cinco integrantes do Exército de Liberação Popular por atividades de ataques digitais. Os chineses teriam tentado acesso não autorizado a sistemas de empresas como a Westinghouse Electric e United Stated Steel Corporation, que atuam em áreas de infraestrutura.

Os documentos foram revelados pelo governo norte-americano nesta segunda-feira (19) e apontam os acusados como integrantes da Unidade 61398, um grupo de especialistas sediado em Xangai que é reconhecido por invasões a grandes sistemas. Uma investigação digital rastreou os invasores a Datong Road, um edifício militar altamente guardado nas proximidades do aeroporto da capital chinesa.

A ação, porém, tem valor praticamente simbólico. Apesar do indiciamento exigir que o governo chinês entregue os acusados dos crimes, é bastante improvável que a administração asiática efetivamente leve os identificados até os Estados Unidos, principalmente devido ao fato deles fazerem parte de uma unidade do Exército de Liberação Popular voltada, justamente, para trabalhos realizados por meios digitais.

Mesmo assim, o Departamento de Justiça não hesitou em publicar nomes e imagens dos acusados. O trabalho teria sido iniciado em 2006 e, desde então, a equipe tem sistematicamente invadido sistemas de empresas norte-americanas em busca de conversas realizadas via e-mail ou tentando infectar os computadores de executivos com malwares para coleta de dados.

Todas as informações obtidas fariam parte de um banco de dados corporativo, que, eventualmente, poderia ser utilizado em negociações. É o caso, por exemplo, de um possível contrato que seria assinado pela Westinghouse Electric com o governo da China, que teve seus termos e comunicação entre executivos interceptados antes mesmo de sua apresentação oficial pelos envolvidos no negócio.

Além disso, o roubo de propriedades intelectuais e tecnologias que estariam sendo desenvolvidas nos escritórios das empresas invadidas foram citados como ameaças de larga escala pelo governo dos EUA. A ideia geral é de que, apesar de países não-aliados acabarem praticando espionagem entre si em prol da segurança nacional, o mesmo ato, quando direcionado a empresas e realizado em busca de vantagens comerciais, não pode ser admitido.

Fim das negociações

O anúncio feito pelo Departamento de Justiça foi visto por especialistas como uma quebra na forma de atuação da administração Obama em relação à presença chinesa em atividades digitais. Como explica o jornal The New York Times, os Estados Unidos vinham tentando trabalhar de forma cuidadosa e diplomática com a China, na tentativa de definir limites e métodos para atuação de ambos em seus esforços de segurança.

O indiciamento dos membros do Exército de Liberação Popular, porém, tem mais a ver com uma tentativa vexatória do que necessariamente um esforço conjunto. As fotos e nomes dos envolvidos no caso foram acompanhadas de grandes fichas pessoais, com carimbos de procurado ao melhor estilo dos velhos filmes de espionagem.

Não ajuda também o fato de Estados Unidos e China terem visões bem diferentes no que toca a relação entre segurança nacional e economia. Para o país asiático, ambos são um só. Além disso, o governo chinês não hesita em criticar a administração Obama, acusando-a de hipócrita justamente por condenar abertamente ações desse tipo, mas realizá-las de maneira oculta.

É o caso, por exemplo, da recomendação feita às empresas de tecnologia para que evitem a compra de servidores, computadores e outros equipamentos fabricados por companhias chinesas. A notícia foi acompanhada, pouco depois, pela revelação de documentos que provaram uma invasão da NSA aos sistemas da Huawei, uma das principais fabricantes de tecnologia da Ásia, além da instalação de backdoors e outros dispositivos para espionagem em dispositivos fabricados nos Estados Unidos.

Logo depois do anúncio do Departamento de Justiça, a China cortou completamente seus laços com um possível acordo de integração digital que vinha sendo trabalhado com os Estados Unidos. Além disso, revelou que esse será apenas o primeiro passo em um distanciamento ainda maior, efetivamente encerrando a já frágil cooperação entre as duas nações.

De acordo com especialistas ouvidos pelo jornal, o governo dos EUA já esperava esse tipo de atitude e teria, inclusive, mais indícios de atuação indevida de organismos digitais do governo chinês contra a soberania norte-americana. Espera-se, também, que o país asiático rebata os indiciamentos com processos judiciais próprios, baseados nos documentos revelados ao público pelo ex-analista da NSA, Edward Snowden.

Fique por dentro do mundo da tecnologia!

Inscreva-se em nossa newsletter e receba diariamente as notícias por e-mail.