Ex-FBI diz que novas regras de privacidade aumentarão taxa de assassinatos

Por Redação | 24 de Setembro de 2014 às 15h45
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O ex-diretor assistente do FBI e presidente do Law Enforcement Legal Defense Fund, Ronald Hosko, fez uma afirmação inusitada ao jornal The Washington Post nesta terça-feira (23), quando disse que as novas regras de segurança implementadas por empresas como Google e Apple aumentariam as taxas de assassinatos. Ele se referia aos sistemas de criptografia, que passarão a ser aplicados por padrão a funcionalidades como serviços de localização e o armazenamento de dados na nuvem.

Ele cita exemplos práticos para apoiar sua teoria, como um caso do qual participou em abril deste ano, um dos últimos enquanto ainda estava no FBI. Ele conta que o pai de um promotor do estado americano da Carolina do Norte foi sequestrado por membros de uma violenta gangue com alcance nacional, como forma de interromper o andamento de um processo que estava indiciando membros da organização.

A investigação chegou a alguns suspeitos e, rapidamente, com o apoio de operadoras de telefonia locais, o FBI foi capaz de rastrear ligações, mensagens de texto e até a troca de dados dos celulares dos criminosos, o que levou à prisão deles. Mais do que isso, o sucesso da operação se deu momentos antes do assassinato do idoso, que já havia sido eletrocutado e espancado devido à impossibilidade de interrupção das investigações pelo filho.

Segundo Hosko, esse tipo de procedimento seria impossível nos dias de hoje devido aos novos métodos de proteção de dados aplicados pelas fabricantes dos dois principais sistemas operacionais móveis do mercado. Para ele, mesmo uma ordem judicial teria acesso limitado, o que acabaria contribuindo para um maior índice de sucesso criminoso e dificultaria grandemente as investigações policiais.

As declarações são pouco ortodoxas e ganharam ares ainda mais suspeitos quando o jornal norte-americano realizou duas revisões do texto. Na primeira, o teor foi modificado para afirmar que as mudanças não necessariamente tornam as comunicações mais difíceis de serem interceptadas, mas, sim, limitam o acesso das autoridades a elas, já que fazer isso sem acesso direto aos dispositivos se torna mais difícil.

Mais tarde, uma segunda alteração no texto remove completamente qualquer menção ao fato de que a vítima teria sido assassinada caso as medidas de segurança estivessem em vigor e afirma que a ausência delas permitiria investigações mais rápidas e simples. Segundo o novo texto, sabendo da possibilidade de espionagem, criminosos têm usado o Snapchat e sua função de vídeos para propagar planos futuros, fazendo com que os rastros disso tudo desapareçam rapidamente e não possam ser rastreados pela polícia.

O buraco não é tão profundo

Como aponta o site Business Insider, porém, a coisa não é tão grave assim. Segundo o veículo, a única mudança prática recente aconteceu com a Apple, que modificou a maneira com que lida com o iMessage. Agora, o backup de mensagens no aparelho fica protegido por uma senha que apenas o usuário sabe e qualquer outra pessoa tentando acessar precisa ter acesso físico ao aparelho.

De resto, muito pouco mudou. A comunicação entre servidores que servem o iOS e o Android, por exemplo, sempre foi criptografada no caso do armazenamento na nuvem. E quando é preciso quebrar o sigilo de algum usuário, autoridades e forças policiais recorrem às empresas de telefonia, e não às fabricantes de aparelhos, em busca das informações. Tudo, claro, depende de ordens judiciais.

Na opinião do site, a não ser que o FBI tenha utilizado o arquivo do iMessage ou fotos armazenadas em um aparelho no caso do pai do promotor da Carolina do Norte, nada mudou. Mais do que isso, as afirmações de Hosko podem soar até mesmo como uma admissão de prática de espionagem, mostrando que o governo é capaz de acessar informações confidenciais dos usuários de tecnologia mesmo sem ordens da justiça.

Foi justamente por isso, e perante os escândalos de espionagem da NSA que se desenrolam desde o ano passado, que Apple, Google e diversas outras companhias intensificaram seus esforços no campo da segurança. É uma resposta aos usuários que não querem ter suas informações acessadas por qualquer um e que pode muito bem significar que, por enquanto, o governo perdeu algumas maneiras costumeiras de realizar justamente esse tipo de coisa.

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