Em videoconferência, Assange apoia decisão de Dilma de cancelar viagem aos EUA

Por Rafael Romer | 19.09.2013 às 07:35 - atualizado em 19.09.2013 às 23:59

Na avaliação de Julian Assange, a presidente Dilma Rousseff tinha a obrigação de cancelar sua viagem aos Estados Unidos após as revelações de que fora vítima de espionagem norte-americana sob pena de parecer "fraca e incompetente" caso não o fizesse. "A presidente Dilma precisava vir à frente e cancelar a reunião com Barack Obama. Ela não fez no primeiro momento, mas acredito que ela viu que o povo brasileiro e membros do governo não podiam tolerar nenhuma ação", afirmou o fundador do Wikileaks durante o seminário "Liberdade, privacidade e o futuro da internet", promovido pela Secretaria Municipal da Cultura e a Boitempo Editorial na noite desta quarta-feira (18), em São Paulo. O debate também contou com a participação do Secretário Municipal da Cultura, Juca Ferreira, e da jornalista independente e Diretora da Agência Pública, Natalia Viana.

Assange, que está há mais de um ano na embaixada equatoriana em Londres, falou a uma plateia de aproximadamente 700 pessoas através de uma videoconferência que durou cerca de uma hora e meia. Na avaliação dele, os casos de espionagem do governo americano significam uma violação grave ao Estado de Direito e à jurisprudência e soberania internacionais. "Barack Obama processou mais fontes jornalísticas sob o ato de espionagem do que todos os presidentes anteriores combinados", criticou. "Isso é uma questão de uma administração trapaceira, de se tornar uma força perigosa no ocidente".

Sobre o que pode ser feito para combater a espionagem, ele ressalta que primeiro é necessário saber por qual motivo a escala destas ações está crescendo tanto nos últimos anos, com investimentos que mundialmente dobram a cada 18 meses nesta área. "Nós precisamos modificar nosso comportamento imediatamente", afirma.

Apesar de apoiar a ideia, ele também se mostrou cético sobre a possível medida do governo brasileiro de obrigar as multinacionais que oferecem serviços na internet a armazenar seus dados localmente, e não no exterior. "Você se preocupa mais com o governo norte-americano te vigiar, ou com o governo brasileiro, que pode mandar a polícia na sua casa?", brincou. Na avaliação de Assange a única maneira de realmente proteger os cidadãos do país é a garantia de que dados de navegação sejam anônimos, e não apenas coletados aqui.

Ele também avaliou com reserva a importância das redes sociais nos recentes protestos que ocorreram no Brasil, lembrando que empresas como o Facebook também colaboraram com o governo americano para a divulgação de dados de usuários. Para ele, algumas ferramentas como o navegador Tor, que oculta informações de tráfego de dados de usuários, ainda são boas alternativas para que pessoas possam se proteger deste tipo de vigilância.

Assange também sugeriu que o Brasil concedesse asilo a Sarah Harrison, assessora e considerada a número dois no comando do Wikileaks que ajudou Snowden a fugir. "O Brasil deveria dar asilo a Sarah Harrison. Ela viveu aí, gosta do país, e é uma oportunidade", opinou.

Juca Ferreira, que ocupou o cargo de Ministro da Cultura durante dois anos do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva, também manifestou sua indignação perante a espionagem norte-americana no Brasil. Na sua avaliação, a fiscalização serve a fins meramente econômicos de interesse dos Estados Unidos e não pode ser justificada pelo combate ao terrorismo, já que o Brasil sempre foi um país que trabalhou pela estabilização da paz no mundo. "Se a bisbilhotagem no plano das comunicações pessoais é muito séria, a bisbilhotagem comercial também é séria na medida que o mundo está vivendo a possibilidade de uma comunidade internacional multipolar", afirmou.

O secretário também elogiou a decisão da presidente Dilma Rousseff de cancelar sua ida aos Estados Unidos para um encontro com o presidente norte-americano Barack Obama, que estava marcada para o dia 23 de outubro. O cancelamento foi comunicado na última terça-feira (17) após as suspeitas de espionagem à presidente Dilma serem divulgadas. "Devemos nos indignar toda vez que estamos diante de uma prática que não é legítima e não contribui para qualificação de relações. Esse nível de espionagem é um desrespeito à soberania brasileira e a todos nós", disse.

Ele encerrou sua fala com um pedido efusivo à presidente de que o Brasil estenda a possibilidade de asilo político a Edward Snowden. "Se a presidenta aceita uma sugestão, faço a sugestão de reavaliar a possibilidade de asilo ao Snowden no Brasil", pediu. "Eu entendo a má vontade e o desconforto do governo americano com essas pessoas, mas acho que para a história da humanidade eles vão ficar muito mais próximos da imagem dos heróis e dos que contribuíram com a cidadania planetária e liberdade do que a imagem de pessoas que merecem perseguição".

Natalia Viana, que trabalhou como parceira do Wikileaks no Brasil, criticou também a decisão do governo Britânico de manter preso durante nove horas o brasileiro David Miranda, companheiro do jornalista inglês responsável pela divulgação dos documentos vazados por Snowden, Glenn Greenwald, para averiguação.

A jornalista também cobrou melhor posicionamento do Brasil frente a casos como a recente decisão de vários países europeus de impedirem a passagem do avião do presidente boliviano Evo Morales em seus espaços aéreos, forçando uma parada em Viena, Áustria, justificada por supostas denúncias de que Snowden estaria a bordo. "Só agora o governo [brasileiro] tomou uma decisão mais dura com o cancelamento da viagem de Dilma", disse. Ela também pediu pelo asilo de Snowden no Brasil. "Agora está na hora do governo mudar sua postura, porque está claro que tudo que sabemos sobre como se dá a espionagem a nós mesmos só foi publicado por causa da coragem de Edward Snowden. O governo brasileiro precisa entender isso". Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou a viagem de uma comissão formada por pelo menos seis parlamentares para a Rússia para visitar e conversar com Snowden.

O evento marcou ainda o lançamento do livro mais recente de Assange no Brasil, 'Cypherpunks, Liberdade e o fururo da internet', pela editora Boitempo. O livro é resultado de reflexões de Assange e um grupo de pensadores ativistas no ciberespaço e levanta a questão sobre a comunicação eletrônica e seu poder de nos escravizar ou de nos libertar.