Diretor do FBI volta a exigir menos criptografia no mundo mobile

Por Redação | 20.10.2014 às 16:20

Durante a conferência Intelligence and National Security Summit, em Washington, o diretor do FBI, James Comey, voltou a defender uma redução nos protocolos de segurança aplicados por empresas do mundo mobile como Google e Apple. Para ele, como resultado dos escândalos de espionagem detonados por Edward Snowden no ano passado, o trabalho das autoridades foi dificultado pois, muitas vezes, mesmo uma autorização judicial não é suficiente para obter os dados de investigados, uma vez que nem mesmo as fabricantes possuem acesso a tais informações.

Como uma forma de contornar esse problema, ele sugeriu a criação de acessos que possam ser usadas de forma exclusiva por autoridades – uma afirmação que gerou terror entre os partidários da privacidade, uma vez que permitiria vigilância ostensiva como a denunciada por Snowden. Comey lembrou uma lei de 1994, chamada de “Communications Assistance for Law Enforcement Act”, que obriga companhias telefônicas e fabricantes a facilitar o acesso de policiais e órgãos de investigação a tais dados. Porém, são poucas as empresas que efetivamente respeitam a norma, principalmente por ela se referir às companhias da época.

O diretor do FBI voltou a comentar sobre casos em que a aplicação da lei ou investigações sobre terrorismo e outros crimes graves foram dificultadas ou até mesmo impedidas por “celulares travados”. Para ele, as novas medidas de segurança aplicadas no iOS 8 e no Android Lollipop, que chega nas próximas semanas, tornarão a tarefa das autoridades ainda mais difícil.

De forma a não usar a palavra backdoor, que para o diretor assumiu uma conotação negativa, ele sugere a utilização do conceito de “frontdoor” – um acesso transparente, que todos os usuários dos equipamentos tenham conhecimento. Assim, acredita ele, será possível saber exatamente os limites que separam uma investigação legítima, com mandados judiciais e autorizações, da vigilância ostensiva praticada pela NSA nos tempos recentes.

A ideia, porém, tem seus lados negativos, como pondera o próprio Comey. Para ele, o conhecimento geral de que existem “portas abertas” nos dispositivos também pode chamar a atenção de hackers e criminosos digitais, que tentarão explorar tais aberturas teoricamente exclusivas para autoridades. É aí que deve existir uma cooperação clara entre empresas e governos, para que medidas de segurança para proteger os cidadãos sejam tomadas na mesma medida em que o acesso legítimo aos dados de suspeitos seja garantido.

Especialistas ouvidos pelo CNET, porém, discordam plenamente das afirmações do diretor do FBI. Para Matt Blaze, expert em criptografia e professor da Universidade da Pensilvânia, as alegações de Comey não apenas minimizam o perigo constituído pelas backdoors como o ignora completamente. Já para Christopher Soghoian, da American Civil Liberties Union, a abertura de portas desse tipo para autoridades também torna a população mais vulnerável à espionagem internacional e pode acarretar os mesmos ataques terroristas que o FBI deseja impedir.

Enquanto isso, Google e Apple mantêm a defesa de seus protocolos de criptografia. A ideia de ambas é que nem mesmo elas próprias tenham acesso aos dados de seus usuários, de forma que tais informações somente possam ser acessadas por eles e a partir de dispositivos autorizados a fazer isso.