'A missão já está cumprida. Eu venci', revela Edward Snowden

Por Redação | 26 de Dezembro de 2013 às 14h16
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Em sua primeira entrevista pessoalmente após ter sido asilado na Rússia, em junho deste ano, Edward Snowden afirmou ao jornal The Washington Post que considera "missão cumprida" todo o debate gerado pela divulgação dos documentos secretos que comprovam um esquema de ciberespionagem comandado pelo governo norte-americano.

"Para mim, em termos de satisfação pessoal, a missão já está cumprida. Eu já venci. A partir do momento que os jornalistas puderam trabalhar, tudo o que eu havia tentado fazer foi validado. Porque, lembrem, eu não queria mudar a sociedade. Eu quis dar à sociedade a chance de decidir se ela deveria mudar a si mesma. Tudo o que eu quis foi que o público pudesse dizer como quer ser governado", disse.

O ex-técnico da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) declarou que não podia ficar calado ao perceber que um poderoso sistema de vigilância em massa agia livremente contra usuários de vários países no mundo. Snowden revelou que a maioria dos funcionários da NSA acreditam na missão da agência e em como ela lida com os dados coletados de cidadãos comuns. No entanto, notou que nem todos os profissionais aceitavam essas operações de monitoramento, e que foi uma decisão dos legisladores manter em sigilo os programas de espionagem da NSA.

"Você reconhece que está agindo no escuro [Snowden não sabia se teria apoio do público], mas quando você conclui que a outra alternativa é não fazer nada percebe que ter algum debate é melhor que nenhum (...). Acho que o custo de um debate público franco sobre os poderes de nosso governo é menor que o suposto perigo por permitir que estes poderes continuem crescendo em segredo", explicou.

Além disso, Snowden se defende das acusações de que teria traído seu país de origem, os Estados Unidos, e diz que muitas pessoas confundem seu verdadeiro propósito. "Não tento derrubar a NSA, trabalho para melhorar a NSA. Ainda hoje estou trabalhando para a NSA. Eles são os únicos que ainda não percebem isso", disse. Ele também alega que não entregou arquivos secretos a países como Rússia e China – o ex-técnico teria copiado até 1,7 milhões de documentos e teria deixado um mecanismo remoto de divulgação de todo o conteúdo caso seja capturado, pelo menos de acordo com o novo diretor da NSA, Rick Ledgett.

"Não há nenhuma evidência da acusação que tenho lealdade à Rússia ou à China ou a qualquer outro país em vez dos Estados Unidos. Não tenho relação com o governo russo. Não alcancei nenhum acordo com eles", acrescentou.

Vida Pessoal

Desde que se mudou para a Rússia, Snowden não havia dado informações de como tem sido o seu dia a dia no país. A reportagem do Wall Street Journal descreve o ex-técnico como "um homem relutante em discutir detalhes de sua vida pessoal". Ele afirma que vive comendo miojo e batatas fritas, e que recebe visitantes que lhe trazem livros, além de ter acesso contínuo à internet e contato diário com jornalistas e advogados.

"Sempre foi muito difícil me fazer sair de casa. Eu simplesmente não tenho muitas necessidades. Ocasionalmente há coisas para fazer, coisas para ver, pessoas para encontrar, tarefas para cumprir. Mas tem que ser algo bem objetivado, você sabe. Caso contrário, contanto que eu possa sentar, pensar, escrever e falar com alguém, isso é mais importante que ir para fora de casa", disse.

Snowden também voltou a afirmar que a privacidade é um direito universal aplicável a todos os usuários, independentemente do cargo ou posição social. "Eu não me importo se você é o Papa ou o Osama Bin Laden. Desde que haja uma causa individual, articulável, provável para colocar essas pessoas na mira da agência de inteligência, tudo bem. Não acho que pedir um argumento provável seja impor um fardo ridículo", disse.

No Brasil

Antes de falar com o Wall Street Journal, Edward Snowden concedeu uma entrevista no último domingo (22) para o programa Fantástico, da Rede Globo. Por e-mail, ele declarou que aceitaria de imediato um convite para ir ao Brasil caso recebesse uma oferta oficial de asilo, mas rejeitaria a proposta se fosse em troca de informações sobre a espionagem norte-americana.

"Se o governo brasileiro quiser defender os direitos humanos, será uma honra para mim fazer parte disso", disse. "Eu nunca vou trocar informações por asilo, e também não acredito que o governo brasileiro faria isso. Uma concessão de asilo deve sempre ser uma decisão puramente humanitária, e a carta foi bastante clara a esse respeito: eu nunca vou cooperar com ninguém fora do devido sistema legal".

Na semana passada, Snowden publicou uma carta aberta ao público brasileiro se colocando à disposição do governo nacional para ajudar nas investigações de vigilância contra os usuários do nosso país. O ex-funcionário da NSA alega que o objetivo da mensagem era explicar por que as questões de monitoramento contra o Brasil são importantes e que é preciso "encorajar o povo a seguir no seu esforço para defender o seu direito a privacidade".

A possibilidade de asilo a Snowden está sendo discutida pela presidente Dilma Rousseff, mas segundo interlocutores próximos a ela, o país dificilmente aceitaria o pedido do ex-técnico americano.

"Eu não acho que o governo brasileiro tem que se manifestar sobre algo de um indivíduo que não deixa claro, não dirigiu nada para nós", afirmou Dilma, em um café da manhã com jornalistas que cobrem assuntos da Presidência. "A nós, não foi encaminhado nada, e eu me dou completamente o direito de não me manifestar sobre o que não foi encaminhado. Vou me manifestar como? Não me encaminharam nada, não me pediram nada, e mais do que isso, eu não interpreto cartas de ninguém, não é minha missão", acrescentou.

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