Ex-historiador da NASA revela que a agência foi fundada por pressão política

Por Ares Saturno | 19 de Março de 2018 às 17h14

É difícil imaginar como seria nosso cotidiano hoje se não fosse a atuação da NASA nas últimas décadas, dada a importância do trabalho realizado pela agência espacial estadunidense. Entretanto, se não fosse pelos pedidos populares e jogadas políticas dentro do contexto da Guerra Fria, provavelmente a NASA nunca teria existido.

O primeiro satélite feito por humanos a ser colocado na órbita terrestre, o russo Sputnik, era literalmente uma bola de alumínio de 60 centímetros equipada com um rádio-transmissor, lançado para orbitar a Terra a cada 96 minutos no dia 4 de outubro de 1957. No dia seguinte ao seu lançamento, o jornal soviético Pravda emitiu uma pequena nota em uma coluna em sua primeira página contando o feito heróico.

A recepção dessa notícia nos EUA não foi nada além de morna. O presidente Eisenhower disse, à ocasião, que "não há razões para torcer as mão só porque os russos chegaram lá primeiro" e que "até agora, no que diz respeito ao satélite em si, não aumentam as minhas preocupações nem um pouco", durante uma conferência dada à imprensa poucos dias após o lançamento do Sputnik.

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A população estadunidense seguiu a opinião de Eisenhower inicialmente. "A maior parte das pessoas, nessa época - dois ou três dias após o lançamento - não estavam assustadas devido ao Sputnik", disse o ex-chefe historiador da NASA, Roger Launius. "Eles estavam animados com isso. Uma nova era tinha começado - a Era Espacial", completou.

Capa do The New York Times anunciando o lançamento do Sputnik (Imagem: The New York Times)

A capa acima reproduzida da notícia no The New York Times mostrava realmente um espírito de curiosidade e animação em relação à "Lua feita por humanos" e determinava que a inovação poderia "prover informações valiosas que talvez pudessem ser aplicadas a estudos de voo e baslística de mísseis". Contudo, a mesma publicação torna nítida para os leitores a possibilidade de que, se os soviéticos puderam mandar um satélite para o espaço, eles também poderiam mandar armas nucleares para as costas estadunidenses. A isso, o Pravda respondeu com uma matéria de capa no dia seguinte com a seguinte manchete: "O primeiro satélite artificial da Terra foi criado pela União Soviética!"

Interesses políticos

Foi então que os Democratas no congresso dos EUA viram no Sputnik uma forma de angariar visibilidade política ao defender maiores recursos para a educação, pesquisa e exploração espacial. Republicanos, apoiados pelo medo contra o comunismo, utilizaram a opinião pública e hostilidade contra os vermelhos para dividir opinões sobre os Democratas.

Lyndon Johnson, visando sua corrida eleitoral ao cargo presidencial, prometeu à população um controle implausível do espaço, que levaria ao domínio sobre as interpéries climáticas, incluindo domínio sobre as marés e níveis do mar. No discurso de Johnson, o Sputnik representava ameaças contra os EUA e deveria ser respondido à altura, devendo haver investimentos de recursos estadunidenses em pesquisas para contra-atacar os soviéticos. À época, Johnson afirmou: "Se mais dinheiro for necessário, vamos gastá-lo. Se mais recursos são necessários, vamos usá-los. Se mais tempo for necessário, vamos trabalhar mais. Deixe-nos fazer o que for preciso".

O historiador Roger Launius diz que "todos nós sabemos que a audiência não é sobre a procura de fatos, mas sim sobre teatro". Segundo ele, os Democratas do Congresso norte-americano começaram a dizer que os Republicanos, em especial o presidente Einsenhower, haviam falhado em sua missão. O Senador Hubert Humphrey, de Minnesota, foi a público fazer chacota com o que ele chamou de "pseudo-otimismo" na conduta de Eisenhower e o governador de Michigan, G. Mennen Williams, publicou um poema satírico, fazendo críticas a Eisenhower por não ter respondido os soviéticos à altura.

O presidente, por sua vez, tentou assumir a postura que ele acreditava condizer com os fatos, dizendo que "Lyndon Johnson pode manter a cabeça dele no espaço o quanto ele quiser, eu prefiro manter meus pés no chão". Entretanto, esforços por parte dos Democratas visavam mudar a opinião pública sobre os eventos e o Sputnik foi, aos poucos, sendo visto como um grande sinal da ameaça comunista que a União Soviética crescentemente representava. "Foi após se tornar um tópico político que as pessoas começaram a temer o satélite", analisou Launius.

Para piorar a impressão dos cidadãos ocidentais, cerca de um mês após o lançamento do controverso satélite, os soviéticos colocaram no espaço uma pequena cosmonave carregando a cadela Laika. No mês seguinte, os EUA tentaram lançar seu próprio satélite, mas o foguete explodiu na plataforma de lançamento. Esses dois eventos foram uma espécie de atestado que uma corrida tecnológica havia começado, e a União Soviética estava na vantagem.

Launius analisa: "Os EUA explodiram uma bomba atômica em 1945. Em 1949, a União Soviética explode sua primeira bomba atômica, quatro anos depois. Em 1952, os americanos explodem uma bomba de hidrogênio. Em 1953 os soviéticos fazem o mesmo. Parece que eles estão alcançando os EUA. E agora, em 1957, eles estão na frente. Se você se atentar para essa trajetória, então você pode ficar apreensivo", explicou o historiador.

Em 1958, uma grande quantidade de cidadãos americanos acreditava que os soviéticos tinham os EUA na mira de mísseis de longo alcance, o que balançou a opinião pública sobre a forma que o presidente Eisenhower conduzia seu governo. Os índices de aprovação mergulharam para menos de 49%, meses após o lançamento do Sputnik, em comparação com os 79% anteriormente registrados. Sem apoio da população e sofrendo severas pressões políticas, Eisenhower cedeu aos Democratas.

Lyndon Johnson (esq) e Dwight Eisenhower (dir), em 1965. (Foto: Yoichi Robert Okamoto)

Em 1958, Eisenhower admitiu que "a URSS ultrapassou os EUA e o mundo livre nas conquistas científicas e tecnológicas no espaço" e então mobilizou as forças nacionais para correr atrás do avanço necessário para responder à altura.

Umas das atitudes tomadas pelo governante, então, foi a criação da NASA, que começou com a junção de uma série de agências menores que já estavam investindo em pesquisas aeroespaciais.

Launius relata esse período: "Na cabeça de Eisenhower, ele tinha um programa espacial razoável antes do Sputnik, o que, em algum grau, era verdade. Ele estava gastando uma quantidade de dinheiro pouco significativa, mas era voltado para tópicos de segurança nacional, como foguetes, mísseis balísticos, satélites espiões. A criação de uma nova burocracia era algo em que ele não acreditava na necessidade, ele foi forçado a fazer".

Quando questionado se ele acreditava que a NASA teria sido criada mesmo sem as disputas políticas entre Johnson e Eisenhower, Launius diz: "Não, provavelmente, não. Nós estaríamos fazendo atividades espaciais? Com certeza. Seria por meio de uma agência civil sem papel militar? Provavelmente não".

Fonte: Popular Science

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