Estrelas de outros sistemas podem influenciar órbita de cometas no Sistema Solar

Por Felipe Junqueira | 11 de Dezembro de 2019 às 19h30

Na ciência, é muito comum uma teoria ser vastamente aceita por muitos anos, e acabar descartada ou em favor de outra que passa a ter mais evidências, ou pela simples falta de evidências que a comprovem. Após mais de meio século, a tese que fala sobre a verdadeira dança das estrelas finalmente conseguiu alguma comprovação, apesar de ainda ser pouco para afirmar que está correta.

Estamos falando de uma teoria que diz que as estrelas e os cometas formam uma espécie de parceiros de dança no universo. De acordo com a tese, cometas seriam jogados para dentro do Sistema Solar a partir da nuvem de Oort pela ação da gravidade de alguns astros brilhantes que passam brevemente perto da nossa vizinhança.

Um grupo de pesquisadores poloneses conseguiu detectar, pela primeira vez, a influência gravitacional de algumas estrelas em objetos da nuvem de Oort, atirando-os para órbita longa ao redor do Sol e entre os planetas. Eles observaram centenas de estrelas que estão por volta de 13 anos-luz de distância do Sol, e registraram as primeiras evidências dessa teoria de mais de meio século, além de mostrar que essa dança das estrelas é um fenômeno muito raro.

A nuvem de Oort, proposta inicialmente em 1932 por Ernst Öpik e retomada em 1950 pelo astrônomo Jan Oort, é um aglomerado de objetos que fica a pelo menos 50.000 unidades astronômicas de distância do Sol. Para se ter uma ideia, isso é cerca de 66 vezes a distância de Netuno até o astro, e acredita-se que este seja o limite do Sistema Solar. A tese é que os cometas são objetos que saem desta nuvem para entrar no sistema, empurrados pela ação de alguma estrela de outro sistema.

Perspectiva do Cinturão de Kuiper comparado com a nuvem de Oort (Imagem: William Crochot)

Não conclusivo

O artigo dos pesquisadores poloneses sugere que a teoria pode ter alguma correlação com a realidade. Aceito para ser publicado no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, o estudo descreve o cálculo que os astrônomos fizeram para identificar que algumas estrelas mudaram significativamente a órbita de alguns cometas no Sistema Solar.

“Em nosso estudo, descobrimos apenas dois casos em que isso realmente aconteceu e, ainda assim, observamos dúzias de cometas todo ano”, disse a autora principal do estudo, Rita Wysoczańska. Foram observadas cerca de 650 estrelas, calculando suas trajetórias e, então, verificando se suas órbitas têm alguma coincidência com as de 270 cometas de longo período.

Foram criados modelos para os pares possíveis de estrelas e cometas, para que os pesquisadores estudassem suas histórias, buscando um ponto em comum entre eles. Então, eles removiam a estrela para se certificar de que o astro realmente influenciou a órbita de cada cometa.

Cometa Hale-Bopp teria se originado na nuvem de Oort (Imagem: Linzer Astronomische Gemeinschaft)

“Neste momento, podemos dizer que o mecanismo proposto por Oort não é suficiente para gerar todos os cometas que observamos”, concluiu Wysoczańska.

Agora, os pesquisadores acreditam que a órbita dos cometas é influenciada por um conjunto forças gravitacionais de estrelas ainda mais distantes, que criam as órbitas de longo período dos cometas. Ao entrarem no Sistema Solar, esses objetos passam a sofrer a influência dos planetas, além de tudo.

“Acho que, no geral, é difícil associar um cometa em particular com uma estrela em particular”, observou o astrônomo Coryn Bailer-Jones, do Instituto Max Planck, que não participou do estudo. “Precisamos considerar também a influência de todas as outras estrelas muito mais distantes, mas também mais numerosas”, concluiu.

Para isso, será necessário muito mais poder computacional para levar tantas estrelas em consideração. E também de dados ainda não coletados desses astros. Isso fica, portanto, para o futuro.

Fonte: Live Science

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