Por falta de verba, quatro grandes projetos científicos estão parados no Brasil

Por Redação | 11 de Julho de 2016 às 21h50
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Ciência e tecnologia são duas áreas que precisam caminhar juntas para avançar. São elas também responsáveis por boa parte do desenvolvimento de vários setores da sociedade, como saúde, inclusão social e até o entretenimento. Só que esse não é o caso do Brasil, que está com quatro grandes projetos científicos parados e sem previsão de receber novos investimentos.

Nos últimos dois anos, a área de Ciência, Tecnologia e Inovação, que hoje divide um ministério com o setor de Comunicações, perdeu R$ 5,9 bilhões em recursos do governo, chegando a R$ 3,5 bilhões em 2016, contra R$ 9,4 bilhões em 2013. Os cortes preocupam principalmente profissionais da comunidade científica. Entre as reclamações mais frequentes está a falta de dinheiro para cobrir custos básicos de manutenção, como salário de funcionários e bolsistas, contas de energia e insumos para pesquisas.

Parte do financiamento dos 126 Institutos de Ciência e Tecnologia (INCTs) do Brasil e das cerca de 29 entidades científicas veiculadas ao ministério vem de bolsas ou fundos de pesquisa para projetos específicos dentro deles – o que explica por que todos ainda produzem. Contudo, a diminuição da parte que vem do governo, que varia em cada instituto e é essencial para a manutenção de alguns deles, prejudica até mesmo a estrutura básica para a manutenção dos projetos.

"Aparentemente, as pessoas que ocupam posições de decisão no Brasil ignoram a relação entre ciência e desenvolvimento. Há projetos importantíssimos que foram paralisados por falta de recursos e que podem melhorar muito a situação na crise global, agregando valor a nossos produtos", destaca Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Na semana passada, representantes das principais instituições científicas do país se reuniram com o ministro Gilberto Kassab, responsável pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, para pedir que o financiamento no setor volte ao valor de 2013. Embora admita a importância em atender as demandas da comunidade científica, o ministro não deu uma previsão de quando uma nova verba será liberada, se limitando a dizer que o início da recomposição orçamentária "ocorrerá de forma gradual e dentro das possibilidades financeiras".

Por conta da falta de investimento, além da crise econômica atual e da mudança de governo, os projetos abaixo estão parados ou impedidos de avançar.

1. Nanotecnologia contra o câncer

Projetos científicos no Brasil

Com sede em Brasília, o INCT de Nanotecnologia conta com uma rede de 50 pesquisadores que tentam criar medicamentos mais eficientes contra o câncer, que causem menos efeitos colaterais. Segundo Ricardo Bentes de Azevedo, presidente do instituto, os cientistas realizaram experimentos com terapia fotodinâmica contra o câncer de pele – em que se coloca um medicamento na lesão e aplica-se uma luz sobre ele. "Já aplicamos inclusive em humanos. Conseguimos 100% de remissão do câncer", disse.

As pesquisas também envolvem a criação de um nanomaterial que, uma vez dentro do corpo humano, só libera o princípio ativo de medicamento em regiões com o PH ácido, justamente onde se encontra o tumor. Isso faz com que a ação do medicamento seja mais direcionada e destrua menos células saudáveis, um problema comum na quimioterapia que deprime o sistema imunológico do paciente.

No entanto, o projeto não avançou em suas pesquisas por causa da escassez de recursos. Em 2009, o INCT recebeu R$ 10 milhões para cobrir todos os seus custos por cinco anos, mas já se passaram sete. Azevedo afirma que, se não houver recursos até o final deste ano, o instituto passará por um enorme retrocesso em seus experimentos.

"Agora estamos com dificuldade de comprar animais e material para a cultura de células – o que nos permitiria fazer testes. Isso efetivamente estaciona os projetos. Ainda não interrompemos nenhum, mas eles não evoluem. Nos últimos sete anos conseguíamos fazer tudo o que era preciso do ponto de vista da ciência. Agora voltamos a dez anos atrás, quando meu laboratório só fazia o que era possível", explicou.

2. Supercomputador Santos Dumont

Projetos científicos no Brasil

Em meados de junho, noticiamos aqui no Canaltech que o supercomputador brasileiro Santos Dumont, o mais poderoso já produzido em toda a América Latina e com custo avaliado em R$ 60 milhões, corria o risco de entrar no limbo por falta de pagamento das despesas. De lá para cá, a situação continua a mesma.

Localizada no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, a máquina está há seis meses operando em intervalos porque não há dinheiro para pagar seu consumo de energia elétrica, de R$ 500 mil por mês. Como o governo não reajustou o orçamento da unidade, o preço das contas passou a consumir 80% dos recursos do laboratório, tornando inviável o funcionamento integral do computador.

"Estamos mantendo o Santos Dumont em operação mínima para evitar pará-lo. Desligar totalmente um computador desse porte pode causar prejuízo. É como pegar um automóvel de luxo e mantê-lo parado na garagem", diz Augusto Gadelha, diretor do LNCC, que afirma que uma eventual paralisação total do aparelho pode causar danos irreversíveis, já que sua arquitetura é toda refrigerada a água.

O Santos Dumont foi comprado da França em uma iniciativa do governo federal. Sua capacidade de processamento é de 1,1 petaflops, que se dividem em três módulos distintos. Fora os problemas no equipamento, o desenvolvimento de pesquisas importantes sofre com atrasos. Entre elas estão estudos sobre o mapeamento genético do vírus da zika, o mal de Alzheimer e modelagem vascular (que pode beneficiar os profissionais de cardiologia), além de projetos na área de energia, petróleo e gás, como pesquisas sobre a camada do pré-sal.

"Precisamos de R$ 14 milhões a R$ 15 milhões anuais para operar o LNCC junto com o computador. Mas em 2016 recebemos apenas R$ 8,1 milhões para tudo. Só o supercomputador custa anualmente R$ 6 milhões, ou seja, 70% desse orçamento", disse Gadelha.

O ministro Gilberto Kassab afirmou que o ministério "pediu uma suplementação de R$ 4,5 milhões para o LNCC, que foi aprovada nesta semana pelo Ministério do Planejamento, e a expectativa é que a liberação ocorra em breve".

3. Animais amazônicos em risco

Projetos científicos no Brasil

Nos últimos meses, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá teve que interromper cerca de 65% dos projetos de inovação e conservação ambiental que desenvolvia em uma área de três mil hectares no Amazonas com comunidades remotas onde a assistência demora a chegar.

Entre eles, estão experimentos com iscas alternativas para pescadores de piracatinga (peixe amazônico que se alimenta de animais em decomposição), que matam botos e jacarés para usá-los como isca na pesca. Por esse motivo, a captura e comercialização do peixe foi proibida até 2020, sob protesto dos pescadores, que reclamam da falta de opção e do risco de desemprego. A pesca continua acontecendo de forma ilegal e o Mamirauá buscava uma solução para o impasse.

Outro projeto interrompido era uma espécie de censo das comunidades da região, essencial para que elas saibam o quanto produzem por ano e possam negociar a venda de seus produtos nas cidades maiores. A partir do segundo semestre de 2015, o Mamirauá perdeu cerca de 60% de sua arrecadação, quase o total do que vinha do ministério. Desde então, demitiu 42% dos funcionários e bolsistas e fechou a maior parte de suas bases de campo: casas simples utilizadas como alojamento dos pesquisadores em comunidades remotas.

Segundo Elder Queiroz, diretor do instituto, os únicos projetos que permanecem em atividade são os que têm outras fontes de financiamento. Salários foram reduzidos, e na sede do instituto, em Tefé, só se trabalha meio período para economizar custos. "O ministério nos prometeu que devemos receber R$ 2,5 milhões agora para pagar salários e fornecedores. Mas, concretamente, ainda estamos muito distantes de resolver o problema", afirmou.

4. Navio Hidroceanográfico de Pesquisa Vital de Oliveira

Projetos científicos no Brasil

Há um ano, chegava no Rio de Janeiro o navio de pesquisa mais moderno em operação no Brasil. O Navio Hidroceanográfico de Pesquisa Vital de Oliveira possui 28 equipamentos de alta precisão para explorar o mar costeiro, incluindo um robô submarino que pode mergulhar até quatro mil metros de profundidade. Em sua viagem inaugural ao Brasil desde a Cidade do Cabo, na África do Sul, o navio transportou um grupo de cientistas brasileiros que testaram seus equipamentos de coletas de dados.

Só que, desde essa viagem, ele não foi mais utilizado em pesquisas científicas. Durante seu primeiro ano em águas brasileiras, o navio, construído em Cingapura, teve seus equipamentos testados e calibrados à exaustão pela Marinha, que o administrará até o final de 2016.

O Vital de Oliveira foi comprado por R$ 162 milhões através de uma parceria entre os então ministérios da Defesa e da Ciência, Tecnologia e Inovação, com as empresas Vale e Petrobras. Segundo o atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, um acordo entre todas as partes para criar um comitê gestor do navio está em fase final, e desse grupo devem sair os cerca de R$ 32 milhões anuais necessários para custear as atividades.

Fonte: BBC Brasil