Jornalismo do futuro: redações já utilizam robôs para produzir textos

Por Gabriel Castro | 29 de Junho de 2016 às 09h51

Os algoritmos estão por toda parte: no Google, no Facebook, nos aplicativos de smartphones, nas propagandas, na Bolsa de Valores, nas músicas MP3 e até na voz daquele cantor ou cantora que utiliza Auto-Tune para corrigir seu tom. Muitas profissões precisaram se adaptar com a entrada massiva dos algoritmos nas nossas vidas e, ao que parece, o Jornalismo é a bola da vez. Empresas como o jornal francês Le Monde e a agência internacional Associated Press têm mais em comum atualmente do que apenas o Jornalismo: ambas já abraçaram a tecnologia e utilizam "robôs" para criar jornalismo automatizado.

Embora o cenário ainda não seja como na ficção científica, com robôs humanoides fazendo nosso trabalho, as máquinas já estão dando seus primeiros passos. Alimentados com dados, os programas de computador são capazes de gerar textos automaticamente, reduzindo o tempo de produção e aumentando o volume de publicações. Essa técnica tem se mostrado útil para veículos que lidam com esporte, mercado financeiro e eventos pontuais, pois se tratam de informações que não demandam análise.

Para agências e sites, mais volume pode significar melhor colocação em buscadores e, consequentemente, melhor retorno financeiro a partir de anúncios. A empresa francesa Syllabs, que oferece esse tipo de serviço, utilizou computadores para criar textos com resultados das eleições na França por cidade, fazendo a cobertura de 34 mil municípios, o que teria sido praticamente impossível para humanos. O jornal Le Monde, que utilizou o serviço, ficou em primeiro colocado como meio digital mais visitado no período.

robôs

Um estudo recente da Universidade de Munique Ludwig-Maximilians (LMU) apontou que leitores veem textos criados por algoritmos como mais confiáveis do que os escritos por humanos. Os pesquisadores pediram para que os entrevistados avaliassem artigos jornalísticos sob conceitos como credibilidade, inteligibilidade e expertise jornalística e votassem qual texto teria sido escrito por um programa de computador. Os resultados indicaram que textos escritos por humanos são mais fáceis de ler, porém os escritos por computadores apareceram como mais críveis e, para os autores da pesquisa, isso se dá porque eles transmitem mais credibilidade pelos dados e números precisos.

Os algoritmos são bem-vindos nos casos de enorme volume de informação e otimização do tempo, mas a mente humana é essencial por ser a responsável pela sua produção. "Tudo o que um algoritmo pode fazer foi predeterminado pela pessoa que o escreveu. O programador decide o que ele pode ou não fazer. Ele sozinho não pode inovar nem reconhecer problemas não previstos ou elaborar perguntas aprofundadas", explica o pesquisador em comunicação da LMU e autor da pesquisa Dr. Andreas Graefe.

O sucesso dos computadores é notável, porém há um longo caminho a ser percorrido até que um robô seja capaz de conduzir uma entrevista. "A interação dos robôs no nosso cotidiano não é exatamente uma novidade e foi prevista há muito tempo pelos filmes de ficção. Mas não deixa de espantar a atuação de robôs em atividades que, no dia a dia, envolvem uma conjunção de raciocínio lógico e emoção", afirma a jornalista Danielle Brito. Nadar contra a maré, no entanto, não é a melhor opção. "Para escrever uma notícia, é preciso não só dispor das informações básicas, mas também de referências. Não acredito que um sistema baseado em programação consiga fazer isso. De qualquer forma, contra o 'futuro' não há o que fazer. As profissões devem de adaptar às novas realidades impostas pela tecnologia", acrescenta.

Com a popularização e democratização da internet e das redes sociais, o jornalismo precisou se adaptar. A nova geração de jornalistas começou já imersa em um cenário tecnológico que levou a profissão além do escrever. O jornalista precisou se conectar e dialogar com o marketing, os buscadores, a linguagem que o Google e as redes sociais ajudaram a instaurar. "É evidente que o jornalismo entrou numa fase mais robotizada não só pelo uso constante de novas tecnologias como pela falta de tempo para um jornalismo de qualidade que a demanda pela grande quantidade gerou", afirma a estudante de jornalismo Aléxia Saraiva. "Mas a discussão vai além da simples troca de um pelo outro com a evolução da tecnologia – questões éticas e princípios jornalísticos subjetivos nunca serão absorvidos por robôs. A qualidade do jornalismo, que já não está lá muito boa por causa da velocidade que a tecnologia exige, vai ser negativa sem a reflexão consciente do trabalho", complementa.

Algoritmos estão lendo milhares de livros para aprender vocabulário, já escreveram livros inteiros, estão aprendendo a dirigir carros sem um motorista humano. No entanto, por mais qualidade e precisão que possam ter, lhes falta a criatividade do ser humano. O computador pode ajudar com os números, mas a apuração e a sensibilidade para uma entrevista ainda ficam por conta do talento humano.

Com informações de LMU, Eurekalert

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