É assim que funciona a cozinha do espaço

Por Redação | 01.08.2016 às 08:42
photo_camera NASA

Nos filmes, a comida que os astronautas comem é bem feia e aparentemente seca. Quando não aparecem em cápsulas, ela sempre está pronta e nunca ficou evidente como os astronautas fazem para cozinhar. Mas a verdade é que a cozinha espacial é muito mais química do que se pensa.

O Laboratório de Sistemas de Comida Espacial, no Centro Johnson, em Houston, é o órgão responsável por fazer com que os astronautas tenham alimento enquanto estão no espaço e já possui uma lista com 200 comidas que são essenciais no espaço. Igual nos filmes, as comidas são embaladas em saquinhos, que podem ser usados para reidratação ou para aquecimento, se esse for o caso. Elas ficam parecendo que foram embaladas a vácuo. Na lista dos 200 alimentos, é possível encontrar desde salada reidratada de frango e abacaxi até iogurte termoestabilizado de mocha.

Comida ISS

Mas nem todos eles são muito apreciados pela equipe de astronautas. O biscoito de maisena, por exemplo, foi retirado da lista porque eles reclamavam das migalhas que ficavam flutuando na espaçonave - isto aconteceu também com o pão de forma, que foi substituído por tortilhas. Já alguns alimentos fazem bastante sucesso por suas características "peculiares". O coquetel de camarão liofilizado, segundo Vickie Kloeris, gerente de laboratório, deve sua popularidade à um simples ingrediente: raiz forte, que, por ser apimentado, é algo raro no espaço.

Além desses alimentos que estão na lista, a tripulação também pode solicitar alguns outros elementos, que antes de serem aprovados passam pelo crivo do laboratório. Os astronautas pedem por suco em pó, bolos, temperos e café instantâneo, entre outras coisas.

Experimentos

Passar um longo período no espaço pode gerar nos engenheiros e pesquisadores uma enorme vontade de experimentar outras maneiras de cozinhar e também a ideia de produzir "novos sabores", e, com o tempo, os astronautas acabam desenvolvendo hacks diferentes para melhorar a comida durante o período que ficam sob gravidade zero.

Chris Hadfield, astronauta canadense, não só teve grandes ideias como produziu uma miniweb-série culinária enquanto esteve em órbita. O Chris' Kitchen tinha o mesmo padrão de "produção" de um programa culinário normal de TV e às vezes o astronauta mostrava como reidratava os alimentos ou inventava algumas receitas, como o dia em que ele fez um burrito usando bife pré-fabricado, tortilhas e molho de pimenta.

Porém, Chris não é o "chef" espacial mais inventivo. A campeã mestre cuca espacial é a tripulante da ISS Sandra Magnus, engenheira de voo da Expedição 18. Em uma espécie de "MasterChef" do espaço, Magnus usou tábuas de cortar e tigelas coladas com fita adesiva para seus experimentos culinários. Um dos maiores feitos da engenheira foi assar alho e cebola usando o aquecedor de alimentos - processo que levou uma hora para ficar pronto.

Sandra Magnus

(Sandra Magnus. Imagem: NASA)

O alho e cebola de Maguns faziam parte da ceia de Natal feita pelos astronautas, que usaram uma "remixagem" de alimentos do dia a dia com outros que haviam pedido em separado. No cardápio havia bife de atum grelhado, um recheio de pão de milho e salada de caranguejo, que Magnus não ficou muito satisfeita pelo uso do ovo reidratado para substituir o ovo cozido.

Viva as tortilhas

Não é todo dia que eles podem preparar cebolas fritas - que levaram três horas para ficar prontas -, e o que salva o time quando estão enjoados da comida à vácuo são as tortilhas. Magnus escreveu em seu diário espacial que as tortilhas acabam virando um meio para comer quase tudo, porque é possível preparar muitas coisas com elas.

"Eu não consigo pensar em nada que não pode ou que já não tenha sido colocado em uma tortilha. Consequentemente, um dos maiores desafios de qualquer tripulação é garantir que a quantidade suficiente de tortilhas embarque (a única outra coisa que tem essa demanda é a cafeína)", escreveu a engenheira. Ela aponta que o que mais gosta de fazer é esquentar queijo cheddar e passar na tortilha junto com um pouco de molho de tomate, o que viraria uma "quesadilla espacial".

Batatas fritas espaciais: as melhores

Devido às condições encontradas no espaço, as técnicas culinárias acabam sendo aprimoradas. Jean Hunter, professora da Universidade de Cornell, que estuda como funciona a comida e a culinária no espaço, explicou que sem a gravidade cozinhar um ovo é muito difícil porque ferver a água acaba sendo um processo desafiador em gravidade zero.

"Em vez da água ferver como faz na Terra, onde as bolhas sobem para a superfície e soltam vapor, o que acontece é mais parecido com uma lata de refrigerante transbordando. Seria muito difícil cozinhar assim", disse Hunter ao Gizmodo.

Mas diferentes gravidades podem alterar a forma como a comida reage, o que pode não ser de todo ruim. Cientistas da Universidade Aristotélica na Grécia, junto com a Agência Espacial Europeia, fizeram um experimento para saber como uma porção de batatas fritas reagiria quando feitas em gravidades semelhantes às encontradas no espaço. Com a centrífuga da Agência Espacial e uma frigideira feita exclusivamente para o estudo, batatas fritas cortadas à julienne foram testadas em gravidade até 9 vezes maior que a da Terra.

Em artigo publicado na Food Research International, os cientistas descreveram que quanto maior a gravidade, mais crocante fica a pele da batata e mais rápido elas fritam. Eles apontaram que o ponto ideal das fritas é de gravidade 3 vezes maior que da Terra - a situação que mais se aproxima disso é a encontrada em Júpiter. Porém, quando fritas acima dessa escala - de 3 vezes acima - as batatas começam a perder sua integridade estrutural.

Alimentos para viagens longas

Uma das preocupações do Laboratório de Comida da NASA é a durabilidade dos alimentos. "Uma missão para Marte vai exigir alimentos que tenham um longuíssimo prazo de validade, provavelmente algo como cinco anos. Atualmente, nossas comidas possuem um prazo de validade de 2 a 3 anos", disse Vickie Kloeris.

Além da validade dos alimentos, outra preocupação do laboratório é saber como armazenar esse peso extra e maiores prazos de validade e inovações em embalagens são dois dos caminhos a serem observados. No entanto, há uma terceira opção: que os astronautas cultivem o próprio alimento.

A ISS possui um experimento chamado "Veggie", no qual os astronautas cultivam uma pequena quantidade de alimentos em uma câmara selada. Depois do sucesso no plantio de alface, agora eles estão plantando repolho e os pesquisadores têm a intenção de expandir a produção incluindo legumes e frutas.

Fonte: Gizmodo