Crítica | The Nest dissolve uma família através da estética da ambição

Por Sihan Felix | 06 de Março de 2021 às 21h00
BBC Films

The Nest, desde o princípio, distancia-se de um drama familiar comum. A direção e o texto de Sean Durkin (de Martha Marcy May Marlene — filme de 2011) é estranhamente peculiar, tanto no ritmo quanto na abordagem. Há, sempre, uma aura de simbologia que adorna as cenas, construindo uma sensação, no mínimo, estranha. E tudo é delineado pela competência do trabalho da direção.

Ao mesmo tempo em que as atitudes de Rory O'Hara (Jude Law) afundam, pouco a pouco, a sua família, Durkin idealiza isso visualmente e cria um diálogo entre o protagonista e os ambientes que é fundamental para um efeito completo. A experiência à frente de The Nest, nesse sentido, só pode ser completa a partir da entrega do espectador à estética do filme. O conteúdo está ali, intrínseco e claro, mas é a forma que torna esse trabalho bem acima da média.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Grande demais

É interessante constatar que, apesar de Durkin ser muito direto em sua abordagem estética, seu roteiro é gradativo, bem dosado. Rory e Allison (Carrie Coon), inicialmente, são um casal feliz. Ele, um homem de negócios; ela, coordena um estábulo. A relação, aparentemente sem rachaduras, quase que de maneira instantânea, cria uma ligação para com o público que flerta com romances tranquilos e estáveis — estabilidade que transparece na felicidade dos filhos Sam (Oona Roche) e Ben (Charlie Shotwell).

Acontece que todo o bem-estar inicial é a abertura, o ponto de partida para uma desintegração. Esta tem um aliado: Rory. Ele é a porta de entrada para a dissolução de sua família. Ao decidir retornar à empresa que deixou anos atrás, a personagem de Law se utiliza da mentira para convencer Allison. Arrogantemente convicto de que é um herói conquistador e de que, por isso, transformar-se-á em um multimilionário na Inglaterra, ele, gradualmente, demonstra uma espécie de síndrome do impostor ao contrário — ou síndrome do falso impostor —, achando-se muito mais do que, de fato, é.

Esse abraço nos demônios de uma ambição irracional é refletido nas escolhas de planos do diretor. Enquanto tudo está bem nos primeiros minutos, o que se vê, além da fotografia mais iluminada, é uma decupagem mais fechada, com closes, abraços, beijos e sexo vistos de perto. Há uma intensidade nessas relações mais íntimas. Mas, a partir do momento em que a família chega em solo inglês, tudo passa a ser grandioso e, para isso, visto de um jeito afastado, até que a luz se extingue e os ambientes escuros e a agressividade tomam conta.

O início mais claro. (Imagem: Divulgação/BBC Films)
Escuridão e agressividade tomam conta. (Imagem: Divulgação/BBC Films)

Os personagens, a esse ponto, tornam-se pequenos em meio a imensidão dos espaços. Toda a riqueza desmedida e descompensada proposta por Rory começa a oprimir. Os planos passam a ser mais gerais, com a câmera se afastando dos personagens como quem se afasta do que não está certo ou, em outra medida, como quem quer revelar aquele novo mundo grande demais para as condições daquelas pessoas.

Palavras ao vento

Além de tudo, a mansão parece ter vida própria. Por essa perspectiva, Allison, Sam e Ben são afetados não somente pelas atitudes de Rory, mas pelo próprio local: enquanto a mãe não deixa de se sentir incomodada com o tamanho desproporcional da casa e isso reflete diretamente em seu incômodo em ver o marido posando de rico, culto e super-herói, a filha ingressa em um mundo que antes seria impossível dado o ambiente acolhedor dos planos de Durkin e o filho, uma criança, passa a ter medo do lugar, como se o próprio lar fosse assombrado.

A verdade é que, de fato, há uma assombração pairando sobre o lar dos O'Hara e ela é, como dito, a ambição irracional. O ninho (em tradução literal do título) da família passa a ser um ambiente hostil, frio, opressor. As ações do promissor homem de negócios dissolvem a união do início. A morte do cavalo antes saudável de Allison é o símbolo da morte da esperança ou, em maior grau, da felicidade. Ben, portanto, ao ver o animal semienterrado respirando, talvez represente o olhar infantil sobre o futuro, justamente por ainda ver vida naquilo que já está consumado.

O ninho. (Imagem: Divulgação/BBC Films)

Por esse ponto de vista, The Nest é um filme pessimista. Por outro lado, quando o roteiro de Durkin indica o ato de Allison cavar com as próprias mãos a cova rasa daquele animal e o diretor expõe isso de uma forma intensa e próxima — em close e planos detalhes —, o pessimismo pode dar lugar ao pensamento de que as melhores mudanças podem existir e, para alcançar elas, é necessário confrontar o que se coloca como verdade — aquilo que, no final das contas, não passa de palavras soltas ao vento.

The Nest tem estreia agendada para o dia 25 de março no Amazon Prime Video.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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