Crítica | Teste de Paternidade mostra embate de casal com vontades distintas

Por Beatriz Vaccari | 20 de Outubro de 2020 às 19h00
Divulgação / Netflix
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Já se passou do tempo em que o auge da vida de uma mulher é se casar e formar uma família. Na realidade, essa vontade de "se tornar adulto" fica em segundo plano para a Geração Y que agrupa os nascidos entre a década de 80 e o início dos anos 2000, popularmente chamados de Millenials. Estatísticas divulgadas no The New York Times mostram que esses jovens estão demorando cada vez mais para dar esse passo na vida, com a idade média de casamento de 29,5 para os homens e 27,4 para as mulheres.

Em Teste de Paternidade, nova comédia romântica mexicana da Netflix, o público é apresentado a um casal de Millenials formado por Ceci (Esmeralda Pimentel), uma competente e bem sucedida arquiteta que está prestes a ser promovida a sócia da empresa em que trabalha e Alejandro (Mauricio Ochmann), carinhosamente apelidado de Alex, um designer que trabalha numa agência de publicidade cujo ambiente é criativo e flexível, além de ter a oportunidade de sair com os amigos para beber depois do expediente porque a esposa volta tarde do trabalho.

Com o casamento às mil maravilhas e uma vida tranquila, Alex decide que quer ter um filho com Ceci. Ela, que nunca pensou ou teve vontade de ser mãe, precisa lidar com a transição de cargos na empresa e uma possível mudança para o exterior, ainda ouve do marido que por ser uma mulher, ela já "nasceu automaticamente com o instinto materno e o desejo de ser mãe", e que a partir do momento em que engravidar, ela se tornará uma ótima mãe.

Conheça Ceci (Esmeralda Pimentel) e Alejandro (Mauricio Ochmann), o casal apaixonado de Teste de Paternidade (Imagem: Divulgação / Netflix)

Além disso, Alex é a personificação da mais pura postura de um homem que só quer aproveitar os benefícios da paternidade, segundo suas próprias palavras, quer ter um filho para "jogar videogame, assistir Star Wars e se divertir", como se as obrigações a responsabilidade que envolvem um bebê pudessem ser terceirizadas de acordo com a sua vontade.

Como se não bastasse a estereotipagem problemática repetida em cansativas vezes pelo marido, a insistência acaba causando um mal-estar no casamento de ambos os protagonistas, além de não dar margem para Ceci contar a grande notícia da promoção para Alex. Este, por sua vez, acaba se sentindo enganado ou deixado de lado, mesmo não dando espaço para o assunto surgir nos dias anteriores.

Alex coloca seus desejos à prova ao precisar ser babá do filho de uma colega durante três dias (Imagem: Divulgação / Netflix)

Alex é um personagem que facilmente ganha aversão do público nos primeiros momentos do filme, e chega um ponto em que se torna preocupante se a mensagem que o filme quer passar é que as pessoas podem ser vencidas pelo cansaço. Felizmente, Salvador Espinosa tem um ponto em reforçar a ignorância desses discursos em seu filme a partir do momento em que uma colega de Alex bate em sua porta, pedindo para que ele cuide do filho durante três dias sem dar maiores explicações.

Mobilizando o melhor amigo Rafa (Juan Martín Jáuregui), Alex encontra-se vivendo na própria pele as dificuldades de ter uma criança para cuidar, além do mais, escondido da esposa. Sem mais ninguém para contar para cuidar do bebê da amiga, o protagonista se depara com o cansaço, a correria e a preocupação que uma vida como pai pode lhe proporcionar.

Alex recorre ao melhor amigo e colega de trabalho Rafa (Juan Martín Jáuregui) para ajudar a cuidar do bebê (Imagem: Divulgação / Netflix)

Enquanto Alex dá jus ao nome do filme tentando adequar a rotina com a de seu "filho temporário", Ceci corre contra o tempo para entregar um projeto impecável para seu chefe e garantir a vaga de sócia da empresa. Ainda que determinada e bem sucedida, é difícil ficar do lado da protagonista tanto quanto é difícil compreender a postura de Alex, uma vez que cada parte do casamento é absurdamente obcecada com seus focos e objetivos singulares.

Ainda que bem produzido, bem-intencionado e com figurinos que encham os olhos do espectador, Teste de Paternidade reforça estereótipos que estão batidos e totalmente desnecessários em um ano como o de 2020. Com coadjuvantes que parecem se esforçar tanto em suas tiradas, o tom humorístico do filme acaba ficando todo nas costas do casal principal, que consegue adicionar profundidade emocional aos personagens mesmo quando nada ao redor consegue ajudar.

No final, Alex e Ceci precisam se decidir se o amor um pelo outro consegue sustentar focos tão diferentes um do outro (Imagem: Divulgação / Netflix)

O bebê também é responsável por boa parte das cenas de comédia do filme, além de trazer a inocência que o enredo precisa e, é claro, sustentar o desenvolvimento e amadurecimento emocional de Alex durante a história.

Embora não reinvente o gênero, Teste de Paternidade, da Netflix, não é totalmente dispensável e poderia muito bem ter uns vinte minutos a menos de duração. Cabe muito ao espectador avaliar o conteúdo assistido para tirar seus próprios princípios e convicções e debater sobre tudo o que foi abordado na trama, que infelizmente, acaba entregando uma visão distorcida desse embate entre família, vida profissional, paternidade e, é claro, as prioridades particulares de cada um.

O filme peca por alguns excessos, mas acaba sendo uma alternativa caso o assinante já tenha devorado todas as comédias românticas da plataforma. Teste de Paternidade está disponível no catálogo da Netflix.

Com informações The New York Times

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