Crítica | F1: Dirigir Para Viver traz pressão a competição morna na temporada 2

Por Felipe Demartini | 05 de Março de 2020 às 12h00
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Muitas vezes, a vida real pode se assemelhar muito a uma série de ficção, com direito a enredo, viradas e até segmentos longos, que levam muitas semanas, ou capítulos, para se desenrolarem. É justamente esse o tom assumido pela segunda temporada de F1: Dirigir Para Viver, que estreou no último final de semana na Netflix. Mais do que um olhar nos bastidores da Fórmula 1, a nova temporada da atração serve como uma continuação plena dos eventos do ano anterior.

A produção chega agora com a participação das escuderias Ferrari e Mercedes, notórias ausências na primeira temporada, mas o foco, nem de longe, recai sobre as duas. Para o bem ou para o mal, na função de mais uma vez demonstrar as pressões que acontecem no paddock e nos bastidores, muito antes e depois das largadas, a produção se debruça mais sobre as pessoas do que sobre a velocidade, mostrando que o circo da maior categoria do automobilismo é muito mais do que apenas carros velozes andando em círculos.

Atenção! Daqui em diante este texto pode conter spoilers da temporada 2 de F1: Dirigir Para Viver.

Nomes como Lewis Hamilton, Toto Wolff e Mattia Binotto são alguns dos primeiros a aparecerem nas imagens, mas F1: Dirigir Para Viver logo muda o foco para os principais destaques da temporada anterior. Daniel Ricciardo, cujo drama envolvendo a saída da Red Bull e entrada na Renault, foi uma das peças centrais do ano inicial e volta ao centro das atenções, mais uma vez comprovando seu status de uma das figuras mais interessantes da Fórmula 1, mesmo que seu resultado nas pistas não seja de todo brilhante, muito mais por conta do carro do que por sua própria habilidade.

Nessa pegada de ser uma continuação dos eventos anteriores, vemos também a McLaren, cujo fracasso foi explorado na primeira temporada, se tornando novamente uma equipe competitiva, ainda que no meio da tabela, e uma inversão de papéis em relação à Haas. O time norte-americano foi de promessa para o final da lista de escuderias junto com a também consagrada e mal das pernas Williams, uma demonstração de que, atrás da locomotiva prateada da Mercedes é que está a verdadeira ação do esporte.

Falar assim, entretanto, é deixar de lado que, mesmo dentro de um time campeão e onde tudo parece andar como um relógio, existem problemas. É o que mostra o capítulo dedicado ao fracasso do GP da Alemanha, onde a equipe alemã comemoraria seus 125 anos de existência, e os comentários de um estranhamente humilde Lewis Hamilton sobre os eventos da temporada. Mesmo assim, e como as pistas demonstram, é na disputa de “melhor do resto” que está a verdadeira emoção da Fórmula 1.

Mercedes e Ferrari finalmente participam de F1: Dirigir Para Viver, mas foco e interesse continua concentrado nos times e pilotos das equipes menores (Imagem: Divulgação/Mercedes-AMG Petronas)

Para os fãs, há mais do que tensões pessoais e belas imagens. É interessante analisar, por exemplo, as claras diferenças de expectativas entre as equipes, que vão além de apenas posições no grid, e o papel conjunto de muitas das figuras-chave desse circo, que não apenas representam uma escuderia, mas também podem agir ao lado de pilotos na busca por contratos e destaques. Na frente das câmeras, claro, há uma sensação de camaradagem que, como fica claro, simplesmente é difícil de se sustentar.

Amigos e rivais

Ao longo dos dez episódios da segunda temporada de F1: Dirigir Para Viver, as rivalidades internas chamam a atenção, dando validade à velha fala de que o maior concorrente de um piloto de Fórmula 1 não é o primeiro colocado da corrida, e sim seu parceiro de escuderia. A chegada da Ferrari à série, por exemplo, trouxe Charles Leclerc ao assento que fica ao lado do veterano Sebastian Vettel, que sente o impacto logo de início ao perceber que seu novo companheiro, de novato promissor, rapidamente mostrou a garra e o controle para se tornar um candidato a vitórias e ao título.

O brincalhão Guenther Steiner, da Haas, aparece bem mais sério e preocupado na segunda temporada de F1: Dirigir Para Viver (Imagem: Divulgação/Haas F1 Team)

Como se os problemas de performance da Haas não fossem o suficiente, ainda presenciamos bem de perto, e de maneira quase crua, as tensões internas entre os pilotos Kevin Magnussen e Romain Grosjean, com direito a uma conversa acalorada e, surpreendentemente, aprovada para inclusão no seriado entre a dupla e o chefe de equipe Guenther Steiner. De engenheiro “da galera” na temporada passada, ele acaba tendo de assumir um tom bem mais incisivo e direto enquanto vê as coisas saindo de controle.

E como se não bastasse a força G e os mais de 300 quilômetros por hora dos carros de Fórmula 1, que precisam ser dirigidos a cada duas semanas em pistas altamente exigentes, ainda vemos o temor quanto à perda de um assento. Mesmo em um 2019 cujo elenco tem poucas diferenças em relação a 2018, ainda observamos de perto as tensões internas relacionadas à contratação, principalmente na pele de Nico Hülkenberg e Pierre Gasly, um dos que mais evoluem ao longo da temporada, deixando de ser um “pipoqueiro” na visão de seus próprios chefes para levar a Toro Rosso, equipe secundária da Red Bull, a um inédito pódio no GP do Brasil.

Nesse comportamento que muitas vezes se aproxima de uma trama de drama do que de um show documental, porém, também estão os deslizes de F1: Dirigir Para Viver. Focar nas tensões é importante, claro, mas ao dar destaque demais para alguns conflitos, a produção acaba se esquecendo de outros momentos e personagens importantes da temporada. Lando Morris, um dos pilotos mais legais do grid, é sumariamente ignorado e o mesmo vale para o sempre incrível Kimi Räikkönen, mais uma vez esnobado e mostrando que, com uma única frase, deveria ganhar um belo espaço só para si.

Soam fracas, também, as homenagens a Niki Lauda, falecido em 2019 e cuja ausência com certeza será sentida não só nas imagens, mas também no desempenho da equipe Mercedes. Felizmente, o mesmo não pode ser dito da bonita lembrança ao acidente fatal com Anthoine Hubert, que dividiu as pistas com nomes como Gasly, Leclerc e Alex Albon, e se torna uma presença constante enquanto seus companheiros se tornam peças centrais das tramas da temporada.

O "rebaixamento" de Pierre Gasly da Red Bull para a Toro Rosso é um dos tópicos centrais da segunda temporada de F1: Dirigir Para Viver (Imagem: Andrej Isakovic, AFP)

Os segmentos com o piloto tailandês e a troca de assentos com seu companheiro francês, inclusive, denotam alguns dos sérios problemas de edição em F1: Dirigir Para Viver. Ao fim de cada episódio, o show tenta mostrar o que vem a seguir tanto no capítulo seguinte como no restante da temporada, gerando uma repetição chata que só piora ao longo deste segundo ano.

Do meio para o final, você chegará a ver uma mesma piada de Albon, sobre seu primeiro apartamento de solteiro, quase meia dúzia de vezes antes de a cena efetivamente acontecer, no último capítulo. Um elemento desnecessário, afinal de contas estamos diante de uma série liberada na íntegra e onde não existem cliffhangers, bastando que o usuário aperte play para continuar adiante.

Apesar das falhas, mais em ritmo e apresentação do que em conteúdo, F1: Dirigir Para Viver se consagra não apenas como um documento importante de um lado da Fórmula 1 que normalmente não é mostrado, mas também como um belo aperitivo para o que vem por aí. É acertada a ideia de lançar apenas semanas antes do começo de uma nova rodada do campeonato mundial, o que acaba refrescando a memória dos fãs e facilitando a comparação com a largada que está prestes a começar.

F1: Dirigir Para Viver (Drive to Survive no original) é produzido por James Gay-Rees (de Senna e Amy, documentário vencedor do Oscar em 2016), Paul Martin (Diego Maradona, Make Us Dream) e Sophie Todd (Horizon). A segunda temporada da série original tem 10 capítulos e está disponível na íntegra na Netflix, com terceiro ano já confirmado para o início de 2021.

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