Crítica | Dirt Music é um exemplo de um filme afogado pela direção

Por Sihan Felix | 08 de Agosto de 2020 às 15h15
Wildgaze Films

Romances irresistíveis são sempre desafiantes, especialmente quando surgem de maneira proibitiva e sem muitas preliminares. Dirt Music, a princípio, parece utilizar algum contraponto sobre essas propriedades e retardar a química entre o casal interpretado por Kelly Macdonald e Garrett Hedlund. Se isso acaba resultando em uma relação estranha, o diretor Gregor Jordan (de Ameaça Terrorista – filme de 2010) parece pouco se importar.

E tudo pode ficar mais estranho enquanto os minutos vão passando. Existe, no roteiro de Jack Thorne (de Radioactive), uma tentativa de se aprofundar tanto na situação de submissão imposta a Georgie (Macdonald) quanto no trauma de Lu (Hedlund). O texto, que é baseado em livro homônimo de Tim Winton, demonstra ter uma riqueza a ser ressaltada e, bem direcionado para os dois protagonistas, consegue construir um grau inicial de curiosidade.

Cuidado! A partir daqui o texto pode conter spoilers.

Sem sensações

O problema que não demora a aparecer em Dirt Music é a aparente despreocupação da direção de Jordan. A maneira como ele intercala os planos e, pouco a pouco, vai buscando ligar a enfermeira e o músico-pescador às locações pode parecer gratuita e, inclusive, desperdiçar bons momentos. Nesse sentido, a relação entre Georgie e Jim (David Wenham) é, praticamente, exposta sem qualquer profundidade, deixando a tarefa de dar substância entregue inteiramente aos diálogos.

Pode existir uma associação entre a personagem de Wenham e o aprisionamento sentido por Georgie, como se ela – quem não abre mão de mergulhar durante as madrugadas – fosse um peixe (ou uma sereia) privado de liberdade por ele – o maior pescador do local. Acontece que Jordan pouco se importa com metáforas mais profundas ou símbolos que poderiam enriquecer o filme se fossem tratados com mais carinho.

Assim, a enfermeira-sereia acaba encontrando uma espécie de oposto. Lu é alguém profundamente desinteressado, fato causado por um evento traumático. A apatia dele, desse modo, acaba por protagonizar uma primeira cena de sexo aparentemente fria, mas a direção parece não se decidir entre essa frieza e a busca por luxúria. O desejo sexual e reprimido de Georgie encontra uma barreira um tanto quanto intransponível. Esta, por sua vez, não é exatamente Lu, mas a guia travada de uma direção desinteressada em causar sensações – quaisquer que sejam elas – com exceção da frustração.

À procura da química. (Imagem: Wildgaze Films)

Sem felicidade

A fuga de Lu, então, por mais que Macdonald se esforce para sentir, dificilmente carrega alguma emoção verdadeira. A todo momento, os flashbacks tentam alcançar a dor dele (de Lu) e, como um quebra-cabeça de 10 peças, terminam em uma montagem sem novidades significativas. Não existe peso na tensão (por mais que esta seja iniciada com o assassinato de um cão e uma brevíssima perseguição no meio do mar); não há, enfim, química significativa ou, pelo menos, uma boa contação de história. Dirt Music, pouco a pouco, vai se tornando em um exemplo de como uma direção despreparada pode afogar um filme.

Por outro lado, a natureza não se deixa sufocar. Os planos abertos de Jordan, pelo menos, mostram paisagens mais sedutoras do que a química entre o casal e que dizem mais sobre tudo o que é visto do que o trabalho do diretor. Mesmo que ele (Jordan) não dê tempo suficiente para que a vista seja apreciada com alguma calma, pode surgir qualquer sensação que indique aquele universo como combustível de paixões.

Um universo que poderia ser combustível de paixões. (Imagem: Wildgaze Films)

É tudo, porém, fruto do acaso ou, nesse caso, do natural cenário australiano. Sem deixar os problemas de Georgie e Lu falarem; sem permitir que exista uma sexualidade mais pulsante entre os dois; sem nem mesmo possibilitar que a natureza seja a guia de Dirt Music; a direção-cabresto limita o resultado a uma experiência castradora. E, no final das contas, acaba por fechar o filme em um final feliz sem felicidade... com o peixe (ou sereia) pescando o músico-pescador, mas sem que a força dessa simbologia consiga ir além de uma interpretação forçada.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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