Por causa da Amazon, livros vendidos no Brasil podem ter preço fixo sem desconto

Por Redação | 25 de Agosto de 2014 às 18h35
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Não faz nem uma semana que a Amazon começou a vender livros físicos no Brasil. Mas a gigante do varejo já começa a causar impacto no mercado editorial brasileiro. Prova disso é que várias entidades do setor pretendem enviar uma carta aos candidatos à Presidência da República que promete fechar o cerco aos preços baixos praticados pela empresa no país.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, a iniciativa reúne instituições como a Câmara Brasileira do Livro (CBL), O Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), a Liga Brasileira de Editoras (Libre) e a Associação Nacional de Livrarias (ANL). Elas se reuniram na última sexta-feira (22) na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, para discutir os principais pontos que irão compor a carta.

O texto apresenta propostas de regulamentação do mercado editorial nacional, tais como incentivo aos pequenos livreiros e à distribuição de livros no país. Um dos destaques que mais chamam a atenção é a adoção de uma lei de preço fixo para livros inéditos durante um certo período – método semelhante ao que já ocorre na França. A Libre e a ANL já sinalizaram que são a favor da regra, enquanto o Snel ainda não apresentou uma opinião definitiva.

O que teria motivado essas empresas a formular a nova lei seria justamente o lançamento de livros em papel na Amazon Brasil. A companhia oferece 150 mil títulos em português de mais de 2,1 mil editoras que são entregues em até 1 dia útil (no caso dos clientes que moram em São Paulo), tornando a plataforma o maior catálogo de obras impressas disponíveis em uma loja virtual brasileira. Alguns livros podem custar até 123% mais barato na Amazon se comparados a outras livrarias nacionais.

"Nós precisamos consultar nossos associados. No passado eu era contra [a lei do preço fixo], por achar que o desconto é um instrumento do varejista. Mas agora, se a concorrência com a Amazon for muito predatória, acho que pode sim fazer sentido", disse Sônia Jardim, presidente do Snel. Para Ednilson Xavier, presidente da ANL, a estratégia da Amazon é uma "prática canibalista para arrasar com o mercado" e, por isso, é importante estabelecer um preço fixo nos livros vendidos no Brasil.

Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da Libre, afirma que o mercado passa por um momento de mudança que exige muita atenção das entidades. "Em princípio, não achamos um problema a Amazon vender no Brasil. É bom que o mercado tenha mais um lugar para vender livros. Só queremos que eles respeitem as regras da concorrência, que não pratiquem preços abaixo do mercado, como fazem lá fora", explicou.

Todos contra a Amazon?

Saraiva, Livraria Cultura, Livraria da Travessa e outras grandes páginas do comércio eletrônico, como Submarino e Americanas, já começaram a contra-atacar os preços tentadores da Amazon. Na semana passada, uma reportagem do jornal O Globo mostrou como essas companhias estão preocupadas com a chegada dos livros físicos à divisão brasileira da empresa de Jeff Bezos – e como pretendem agir diante de tantas promoções. "Certamente preços muito baixos na concorrência podem prejudicar o mercado", comentou Roberto Guedes, diretor da Travessa.

Não é só no Brasil que a Amazon enfrenta críticas do setor editorial. No último dia 10 de agosto, quase 11 mil escritores assinaram uma carta contra a companhia porque a varejista americana passou a restringir vendas e a atrasar entregas de produtos da editora Hachette para pressioná-la a aceitar sua política de grandes descontos. No dia 18, 1.188 autores alemães também se manifestaram contra a Amazon acusando a entidade de boicotar autores da Bonnier.

"A Amazon é um gigante cujas práticas não fizeram bem à indústria editorial dos EUA. Porque ela não vende só livros, mas qualquer produto. Eles usam o livro para capturar o cliente e vende para ele televisões, roupas, fraldas, tudo o que você imaginar, pois a ideia é usar a base de leitores e convertê-los em outro tipo de consumidor. Por isso eles dão descontos agressivos. A Amazon não é saudável para o mercado livreiro", disse Oren Teicher, presidente da American Booksellers Association.

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