Pandemia e dólar alto tornam Brasil atraente para contratações por estrangeiros

Por Wagner Wakka | 28 de Agosto de 2020 às 09h23
Flickr/Puresolitude

O novo cenário da COVID-19 fez com que muita gente perdesse o emprego. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostram que a taxa de desocupação dos brasileiros subiu de 11% no início do ano para 13,3% em junho.

Se conseguir emprego no Brasil pode estar difícil, o mercado lá fora se mostra uma opção para quem fala inglês. Nos últimos meses, houve mudanças significativas em favor disso. O aumento da disponibilidade de companhias com opções de contrato remoto é uma delas. Ao colocar o funcionário em casa, mantendo o contato apenas por videoconferências e apps de mensagens, empresas também quebram a barreira local e podem contratar fora de suas fronteiras.

Variação de emprego no Brasil após a pandemia (Arte e dados: Divulgação/IBGE PNAD Contínua)

De acordo com levantamento da Fundação Instituto de Administração (FIA) de abril deste ano, 46% das companhias brasileiras adotaram o regime de home office. A estatística também se confirma em outros países, com 56% dos trabalhadores norte-americanos também em regime remoto.

“Eu vejo uma mudança interessante com a pandemia. Comparando antes e depois, eu passei a receber muito mais propostas no LinkedIn desde quando isso tudo começou. E tenho repassado muita coisa a colegas também”, revela Felipe Machado, engenheiro de software que atualmente trabalha para a BairesDev, de São Francisco.

Junto ao momento de home office fazendo com que empresas olhem para fora de seus países, o Brasil se posiciona como um país atrativo para contratações. Isso porque a nossa moeda se enfraqueceu nos últimos meses, barateando a mão de obra por aqui.

Só em comparação ao dólar, o real desvalorizou 37% desde o início do ano, permitindo que empresas necessitem de menos para contratar um brasileiro.

Bom momento para quem? 

O home office ainda não é uma opção para todo tipo de trabalho. Para começar, é preciso que se tenha uma estrutura mínima em casa, com computador e uma boa conexão à Internet — de acordo com a PNAD Contiínua, 25,3% dos brasileiros ainda não contam com rede em casa.

O cenário, contudo, se mostra positivo para quem trabalha com tecnologia e, claro, fala inglês. A Kokku é uma empresa de Recife, com mais de 90 funcionários, trabalhando para gigantes do desenvolvimento de games estrangeiras. A especialidade da companhia é exatamente oferecer suporte em arte, desenvolvimento e programação para jogos. No portfólio, a companhia conta com trabalhos junto à Guerila Games para Horizon Zero Dawn, um dos mais importantes títulos do PlayStation 4.

Kokku, empresa de Recife com mais de 90 funcionários (Foto: Arquivo Pessoal)

Atualmente, todos os empregados trabalham em regime de home office. Segundo o CEO da companhia, Thiago de Freitas, o enfraquecimento do real, no caso deles, é positivo, mas é preciso ficar de olho: “Como o câmbio flutua muito, a gente sempre fica atento, pois trabalhamos com projetos de longo prazo. Ou seja , não dá para dar descontos baseado no bom momento do dólar. Essa atitude poderia levar a um risco para nós”.

O setor de games é um dos que apresentou crescimento desde o início da pandemia e se mostra fértil para contratação. Um compilado do Journal of Behavioral Addictions, de abril deste ano, aponta que a Verizon, nos Estados Unidos, relatou 75% de aumento na atividade em games na pandemia. Já na Itália, um dos epicentros da disseminação da COVID-19, houve crescimento de 70% em jogadores de Fortnite.

Outro setor que também se mostra fértil para quem quer trabalhar fora é o de tecnologia da informação e desenvolvimento. Mateus Gomes é desenvolvedor e presta serviço para uma companhia estrangeira desde 2017, trabalhando atualmente em uma plataforma de e-learning. O setor de ensino à distância também teve destaque ao passo que estudantes não puderam mais ir às universidades e escolas para acompanhar as aulas.

“A gente inclusive contratou durante o período. Hoje, eu trabalho com gente de toda parte, sendo que a maioria são de uruguaios. Não importa muito de onde você é, desde que consiga fazer o trabalho”, brinca Gomes.

Mateus Gomes, desenvolvedor (Foto: Arquivo pessoal)

Os desafios

Embora o cenário seja prolífico para os setores de games e tecnologia, os entrevistados pelo Canaltech relatam que ainda há alguns desafios para quem está buscando uma vaga em empresa estrangeira.

A primeira delas é com o inglês. Todos ressaltam que é importante ter uma boa base da língua, principalmente falada. Glauber Kotaki é artista com foco em pixel art para jogos e trabaha no setor de games há mais de 10 anos. Ele ressalta que o importante é entender o que as pessoas falam e se fazer compreendido, sem se preocupar com uma pronúncia perfeita.

Glauber Kotaki, artista de pixel art (Foto: arquivo pessoal)

“Com o tempo, eu aprendi que quem fala inglês e trabalha com gente de fora não está se importando muito com seu sotaque. É preciso ser super bom no inglês? Não. Mas ter a boa segurança em participar de reuniões por voz, pois ali não dá para usar o tradutor ou buscar algo na internet”, recomenda.

Kotaki já trabalhou em jogos como Rogue Legacy e Chasm e atualmente trabalha em Rogue Legacy 2 e 30XX. Além disso, ele também já foi responsável por buscar outros artistas para diferentes projetos. Segundo ele, as partes mais importantes para escolher uma pessoa foram o portfólio e a boa comunicação.

“Se você trabalha remoto, é importante mostrar que você é acessível, passar a segurança de que vai ser fácil a comunicação. Isso não quer dizer ficar respondendo 24 horas, mas também não sumir e deixar de responder por longos períodos”, aponta Kotaki.

Para ele, uma das formas de demonstrar isso é ser presente em redes sociais e fóruns específicos da sua área. “Se a gente vê que você está sempre ali, respondendo, é um indicativo de que é fácil acessar você. Até mesmo para fazer uma proposta de emprego”, aponta o artista. Antes mesmo de fazer a divulgação de uma vaga, ele diz que prefere buscar artistas que já conhece e que sabe que trabalham bem remotamente para evitar problemas

Outro desafio para quem está entrando agora é saber onde encontrar aquela vaga lá fora. A recomendação de todos os entrevistados é buscar entrar em comunidades de redes sociais, ajudando outros desenvolvedores e programadores, de forma que as pessoas possam passar a conhecer seu trabalho e recomendar vagas futuras.

Machado ainda lembra que há espaços no GitHub muito bons para programadores procurarem trabalho em empresas estrangeiras. Já do lado do desenvolvimento de games, Kotaki lembra que o Twitter é uma rede forte entre artistas e designers de jogos.

Até quando? 

Alberto Lopes é diretor de parcerias da Kokku e um dos responsáveis por contatos com empresas lá fora. A companhia do Recife, embora esteja em regime de home office, não deve se manter assim depois que a pandemia passar.

A questão não está exatamente na escolha da Kokku, mas na demanda dos clientes. Como a empresa trabalha com propriedade intelectual de terceiros, há uma dificuldade em manter a segurança quando o funcionário está em casa. “Nosso clientes têm demonstrado que querem que voltemos para o regime presencial, claro, quando for possível. Mesmo com a gente tendo visto maior produtividade com as pessoas em casa”, aponta Lopes.

Com isso, tanto ele quanto Freitas esperam que as companhias estrangeiras agora possam contratar em home office para um regime presencial no ano que vem.

Alberto Lopes, Thiago de Freitas e Manoel Balibino da Kokku (Foto: Arquivo pessoal)

Diante disso, Kotaki aponta uma alternativa: trabalhar com empresas menores e do setor independente. Isso porque tais companhias não contam com propriedades intelectuais tão valiosas e possuem um sistema de segurança mais aberto para quem trabalha remotamente.

Além disso, ele acredita que aumentam a chances de uma pessoa com menos experiência conseguir uma oportunidade de entrar na área de desenvolvimento de jogos fora do Brasil.

Com informações de Agência Brasil, IBGE, Global Place Analytics

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