A E3 pode estar perto do fim?

Por Redação | 09 de Março de 2016 às 15h38

A E3, ou Electronic Entertainment Expo, é a maior e mais aguardada feira de games do mundo. Desde 1995, o evento organizado pela Entertainment Software Association acontece anualmente em Los Angeles, nos Estados Unidos, e sediou os principais anúncios da indústria de games. Sinal do crescimento da indústria de games no ocidente e no oriente, a feira se estabeleceu como o principal canal de novos anúncios do mundo dos jogos eletrônicos. Mas, ao que tudo indica, os ventos estão parando de soprar.

Para este ano, quatro produtoras já anunciaram que não vão participar da feira: Electronic Arts, Activision, Disney e Wargaming (criadora de World of Tanks). A EA pulou fora para investir em um evento próprio, o EA Play, que será aberto ao público e contará com as principais novidades da empresa para este ano. A Activision não deixou claro o que vai fazer, mas é provável que a sua principal franquia, Call of Duty, dê as caras no estande da Sony ou do PlayStation (ou em ambas) dentro da feira.

A Disney anunciou que deixaria de participar da feira, afinal vai lançar apenas dois jogos para este ano. Já a Wargaming declarou ao VentureBeat que “de uma perspectiva estritamente comercial, a E3 não se encaixa em nossa direção”. E a companhia prosseguiu, explicando que a feira “é muito centrada na venda de produtos e, como uma companhia de jogos gratuitos distribuídos digitalmente, nós nos demos conta de que a feira pode ser uma boa para muitas outras produtoras e desenvolvedoras, mas atualmente não é um bom negócio para nós.”

Um evento para poucos e os novos contextos

A Electronic Arts anunciou sua saída da E3 e afirmou que seus jogos serão apresentados ao mundo em um evento aberto ao grande público, e isso diz muito a respeito do que pode acontecer com a feira nos próximos anos. A maior exposição de jogos do mundo é frequentada apenas por executivos, jornalistas, donos de lojas e alguns fãs que ganham uma entrada, ou seja, seu apelo está mais ligado à produção de notícias e conteúdos especiais sobre os anúncios feitos ali do que à interação entre quem joga e quem cria jogos.

Assim, a EA assumiu que falar apenas para a imprensa e para o mundo dos negócios não é o que ela procura. Além do mais, a projeção da companhia e de seus produtos causará o mesmo destaque aos seus lançamentos independentemente de onde eles foram feitos. Isso é, sobretudo, um sinal dos tempos. A comunicação entre empresas e clientes se tornou muito mais simples atualmente, com o boom das redes sociais.

E3 2015

A E3 sempre trouxe novidades, mas está perdendo a relevância. (Foto: Durval Ramos/Canaltech)

É lógico que ainda existem os grandes veículos especializados, mas, de modo geral, quando se trata de grandes lançamentos, fazê-los por conta pode ser uma saída viável e produtiva tanto do ponto de vista comercial quanto do ponto de vista publicitário. Em suma, muitas empresas querem falar diretamente com seus públicos, mas eles não estão dentro da E3.

Além desse contexto de comunicação direta entre empresas e público por meio das mais diversas redes sociais, há ainda outras questões envolvidas. Vazamentos de informações que antecipam novidades de um título muito aguardado ou mesmo o desejo de antecipar anúncios a fim de não dividir atenções com outras novidades bombásticas também podem seduzir as empresas a não esperarem o mês de julho para anunciar tudo na E3.

Um evento de negócios — mas os negócios estão mudando

Sim, a mídia está lá e vai noticiar os principais lançamentos apresentados. Contudo, essencialmente, a E3 é uma feira onde as companhias vão para fazer negócios. E isso inclui tanto convencer você a comprar um jogo como as varejistas a adquirirem um grande volume de unidades para revenda. Nesse aspecto, o ponto levantado pela Wargaming faz todo sentido: se ela não vende nada, não tem porque ir a uma feira cujo principal objetivo é promover a venda.

É lógico que a coisa toda não é tão simples assim, afinal a “venda” de World of Tanks é feita gratuitamente, então qualquer divulgação pode ser bem-vinda. Porém, concentrar os esforços em outras frentes de divulgação pode ser mais útil do que fazer papel decorativo na E3. E, em grande parte, muitas outras empresas começam a adotar estratégias semelhantes, mesmo aquelas que vendem produtos.

Atualmente, é mais do que comum as produtoras lançarem conteúdos extras para seus jogos, que são vendidos separadamente e rendem bastante dinheiro. Ou ainda, outra forma de incrementar a arrecadação de algumas desenvolvedoras é a oferta de assinaturas anuais, que dão direito a itens especiais, DLCs e por aí vai. Enfim, a estratégia de negócios mudou e vai muito além do que apenas mostrar um jogo em um telão para a imprensa.

E3 2016

E3 2016 acontece entre 14 e 16 de julho. (Foto: Reprodução/E3)

E para além das estratégias de lançamento, há ainda uma nova configuração de mercado que leva as companhias para os extremos, com pequenas e médias empresas dando as caras nos mercados mobile e de jogos independentes e as grandes empresas reduzindo a quantidade de títulos lançados todos os anos. Isso também causa impacto no sucesso da E3.

Perda de relevância

Então, chegamos à pergunta: e qual a relevância da E3 diante do cenário atual? É uma tendência do mercado as empresas, especialmente as grandes, tornarem-se cada vez mais independentes nesse sentido. Companhias como Apple e Google, apenas para ficar em dois exemplos básicos, realizam seus principais anúncios em eventos próprios — e a Apple não participa já há alguns anos da CES, a maior feira de tecnologia do mundo.

Além disso, a própria estrutura da feira é também responsável por isso, mesmo que ela tenha se tornado mais flexível nos últimos anos. É razoável imaginar que torná-la aberta ao público em geral como a Gamescon, a Tokyo Game Show e até mesmo a Brasil Game Show não seria uma forma de devolver às grandes empresas do setor o interesse de participar da E3, aumentando a sua relevância.

Em 2006, logo após a edição daquele ano, a ESA anunciou uma diminuição drástica do evento para o ano seguinte, o que se repetiu em 2008. Naqueles anos, participaram da feira apenas convidados e ela reuniu 10 mil e 5 mil pessoas, respectivamente. Apesar de um cenário diferente para os negócios, foi também a saída de algumas empresas do lineup da feira a responsável por causar essa redução. Se por um lado parece inevitável que as grandes desenvolvedoras apostem cada vez mais em eventos próprios, podemos apostar também que algumas mudanças fariam bem para a E3.

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