Open Banking: mais uma revolução silenciosa a caminho

Por Percival Jatobá | 23 de Julho de 2020 às 14h00
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Falamos hoje em dia nas empresas, academias, escolas, governos e laboratórios em Open Innovation como um novo estágio em termos de desenvolvimento disruptivo sem limites, fronteiras, reservas e silos. Um modelo de gestão de ideias e processos descentralizado, com foco na colaboração, que busca aprimorar a criação de soluções. Agora, temos uma tendência correspondente no mercado financeiro: o Open Banking. 

A demanda por serviços financeiros mais qualificados, personalizados e democráticos tanto para consumidores quanto para pequenos comércios cresce exponencialmente nas sociedades modernas e em desenvolvimento. No Brasil, não é diferente. Empréstimos, pagamentos, seguros e investimentos são alguns dos principais tópicos que giram em torno do conceito de Open Banking. E eles estão na mira de bancos, cooperativas, instituições de pagamento e fintechs.

Para quem não está familiarizado, uma breve explicação: o Open Banking permitirá ao cliente de uma instituição financeira compartilhar os seus dados, uma vez que ele é o dono do dado, com outras instituições financeiras, de pagamento ou reguladas. É claro que esse compartilhamento somente acontecerá após expresso consentimento do cliente. Outro caso de uso comum é a iniciação de pagamento. Com isso, o cliente passa a ter controle sobre seus dados, enquanto players do mercado poderão oferecer serviços mais adequados ao perfil do cliente.      

O mercado tem a oportunidade de lançar uma plataforma justa, equilibrada e democrática entre todos os participantes, que não onere demasiadamente nenhum dos lados e estimule um mercado mais competitivo e saudável. Mas é preciso tomar alguns cuidados: enquadrar o Open Banking não é tão simples assim! 

Devemos respeitar as definições mais clássicas, tais como plataformas de APIs que podem ou não ser padronizadas, ter um escopo de dados muito bem definido e um modelo eficaz de governança regulatória. Há questões sensíveis também para se discutir, como a responsabilidade das partes envolvidas diante de um possível problema relacionado a um dado do consumidor, ou a sustentabilidade das plataformas, levando em conta a possibilidade de ingresso de novos setores no jogo, como telecomunicação e seguros. 

Não devemos nos esquecer de que esse sistema aberto é a porta de entrada para o Open Data, uma visão maior e mais ambiciosa que abrirá caminho para interligar a indústria financeira e de pagamentos a diversas outras.

A experiência lá fora e os desafios no futuro

Em alguns países esse movimento já está avançado. Precursor do Open Banking no mundo, o Reino Unido adotou em 2018 o PSD2 (Diretiva de Serviços de Pagamento) que oferece um conjunto de APIs não totalmente padronizadas. Nos EUA, após uma iniciativa liderada pela indústria financeira, uma em cada quatro pessoas com uma conta bancária passou a usar o conceito de APIs abertas para conectar 2.600 aplicativos a mais de 11 mil instituições financeiras através de fintechs. Na Austrália, APIs padronizadas e regulamentadas junto ao Consumer Data Right buscam promover o uso correto dos dados dos consumidores.

Com o objetivo de facilitar o acesso a aplicativos conhecidos como PFM (Personal Financial Management), a conectividade entre instituições financeiras e desenvolvedores tem se tornado cada vez mais presente. 

Considerando que o modelo de Open Banking entregue à sociedade brasileira inclua os princípios de governança, transparência e segurança, teremos em mãos a oportunidade de provar o quanto estamos preparados nas seguintes áreas do novo ecossistema:

  • Proposta de valor: garantir a qualidade, disponibilidade e confiabilidade das plataformas de APIs;
  • Confiança: aportar consistência e transparência nas relações entre consumidores e instituições, sejam elas diretas ou indiretas;
  • Sustentabilidade: promover ações e programas de incubação, aceleração e inovação, gerando pontes com novos segmentos e indústrias.

Como costumo dizer, estamos em meio a mais uma “revolução silenciosa”, com a diferença de que essa não é um fim em si mesmo, mas um meio que ressignificará a forma com que nos relacionamos e lidamos com nossas finanças, pagamentos, saúde, seguros,  telecomunicações...

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