Opinião: Black Friday não é fraude, nem um sucesso. Ela simplesmente não existe

Por Pedro Cipoli | 29.11.2013 às 11:20 - atualizado em 29.11.2013 às 14:47

Um pouco de história: sabe o que é a Black Friday? A de verdade? É a última sexta-feira de novembro, logo após o feriado de Ação de Graças, quando grandes lojas de departamento promovem uma liquidação. Isso nos Estados Unidos. Pessoas fazem filas nas portas das lojas, filas dignas de usuários de iPhone no primeiro dia de vendas de um modelo novo. Imagine descontos de 80% combinados com pessoas que guardam dinheiro para aproveitar esses descontos meses antes do dia oficial e começamos a entender o motivo de tanta ansiedade.

No Brasil a Black Friday começou em 2010 e, como estamos acostumados a ver, a história é bem diferente. De fato, é um claro exemplo de boa parte do que há de errado em nosso país. Preços inflados e depois descontados (também conhecido como "tudo pela metade do dobro"), fretes mais caros do que os próprios produtos, sistemas que saem do ar, vendas de quantidades maiores do que há no estoque, e muitos, mas muitos outros tipos de problemas.

Em 2013 tivemos uma situação um pouco diferente. Alguns consumidores comuns voluntariamente monitoraram o preço de alguns produtos durante a semana, assim como alguns sites grandes criaram páginas dedicadas exclusivamente a detectar fraudes. Funcionou? Claro que não. Mesmo que algumas "promoções" tenham sido desmascaradas, a história foi basicamente a mesma. Vejamos alguns exemplos (com um pouco, mas apenas um pouquinho de sarcasmo).

Tudo pela metade do dobro

É errado chamar o nome de Deus em vão, mas MEU DEUS. Lojas, é o seguinte: se um consumidor estava de olho em um smartphone e tem amor pelo seu dinheiro, ele sabe quanto o aparelho custa sem promoções. Não adianta inflar e depois desinflar o valor e achar que vai vender horrores. Não rola. Qualquer usuário que assine a newsletter de uma loja sabe que, muitas vezes, os preços sem Black Friday são até menores.

Magazine Luiza

Só uma dica: O Nexus 4 nunca custou R$ 1899. O preço mais alto que ele custou foi R$ 1699, preço de lançamento. Aliás, antes da Black Friday ele era encontrado por R$ 899

Esse é o caso mais comum, recorrente e batido que há. Seria muito mais chamativo colocarem um banner dizendo "Olha, não vamos mentir: nossos preços durante a Black Friday são exatamente os mesmos. Pelo menos não mentimos como a concorrência" do que cometer uma gafe dessas. Vender meia dúzia de aparelhos no dia para ficar vários meses com o nome queimado. O departamento de marketing está trabalhando bem, né?

O dia em que incompetência vira motivo de orgulho

Você fica acordado de madrugada, apertando F5 de tempos e tempos e vê a mensagem abaixo:

Submarino

Obrigado por me inserir na fila.

Poxa, parabéns. Algumas lojas chamam isso de sucesso, outras se orgulham do site estar "muuuito cheio" (que fofo!):

Americanas 02

Fila para aproveitar as Suuuuper ofertas!

Mas a verdade é que isso é, bem, patético. Anunciam durante um mês que vão fazer descontos nunca vistos antes em um horário reduzido, gastam uma boa grana anunciado em tudo quanto é lugar, e não tem um ser vivo no departamento de TI que tem a brilhante ideia de fazer o site não cair? Já sei: vocês não acharam que as pessoas iriam acreditar, não é?

Desconta no produto e adiciona no frete

Pera, um colchão que custa R$ 349,90 tem um frete de R$ 666,75? Que tipo de lógica digna de um pombo de baixo QI é essa?

ShopTime

Entregue pelo próprio Presidente

Não é coincidência que o valor comece por 666? O que pensaram que o comprador iria fazer, falar "Tudo bem, pelo menos o colchão é barato"? É o presidente que vai entregar? E outra: 22 dias úteis? Os mantimentos da Estação Espacial Internacional devem chegar mais rápido. Aqui entre nós: não seria muito mais legal deixar o preço padrão (R$ 499), não cobrar frete e não passar vergonha?

Descontos?

Quando você desiste de procurar um desconto real, pipoca alguma propaganda no Facebook. O seu coração acelera, você dá aquele clique mágico no link...e o preço anunciado no site é diferente:

Americanas 01

Ah! Vou comprar de qualquer forma. Só 80% mais caro!

Isso é conhecido como desperdício de clique de mouse, sendo outra tentativa de explorar o suposto conformismo do brasileiro.

No meio de tanta picaretagem, ofertas de verdade ficam ofuscadas

Muito triste esse item. Algumas promoções são realmente promoções, mas acabam não sendo vendidas para consumidores interessados. Ainda que Black Friday seja um dia bem infeliz no Brasil, algumas ofertas realmente valem a pena, como é o caso de um Lumia 920 Por R$ 879,12 à vista e um Galaxy Note III por R$ 1889,99, valores bem abaixo do encontrados normalmente.

Lumia 920

Isso acontece com muitos produtos, que continuam encostados pois muitos consumidores simplesmente viram que não valia mais a pena pesquisar mais e foram dormir.

Galaxy Note III

Conclusão

Demos apenas alguns exemplos, mas a ideia geral é que não existe Black Friday no Brasil. Até porque nos EUA ela acontece após o feriado de Ação de Graças, que nem existe em nosso calendário. Hoje é apenas uma sexta-feira qualquer, nem há motivo para a escolha da data. É apenas mais algum caso de uma cópia mal feita do que acontece em outros países, como uma criança de oito anos fazendo uma cópia à mão de Mona Lisa. Enquanto este artigo estava sendo escrito, eu mesmo fiz uma compra bem sucedida, paguei o boleto e recebi a simpática mensagem da loja:

Kabum

Olá! Não, não vou ligar!

Vamos analisar isso: eu compro o produto, pago corretamente, aguardo e, como a loja não tem o ítem no estoque eu tenho que entrar em contato? Ligar com DDD por pagar um produto que foi vendido sem existir, é isso? Fato é que o meu banco debitou o valor da compra nanossegundos depois de eu clicar "OK", então é melhor ligar e perguntar quando eles vão ter a boa vontade de devolver o meu dinheiro, correto? Melhor pedir auxílio para o Procon primeiro. Parece o meio mais justo, correto e, claro, sem conflitos de resolver esse problema.