Entrega ao consumidor no mesmo dia muda tudo no e-commerce brasileiro

Por Colaborador externo | 03 de Dezembro de 2013 às 12h13

*Por Beni Harari

Chegamos ao fim de mais um ano brilhante para o e-commerce brasileiro. Números não faltam para comprovar isso. Crescimento de 29% em relação ao ano anterior, vendas estimadas em R$ 31 bilhões (3% do faturamento do varejo) e 4 milhões de brasileiros realizaram uma nova compra na internet neste ano**. Para aumentar ainda mais o otimismo em relação ao canal, surge uma tendência que deve mudar (mais uma vez) a dinâmica do e-commerce e impactar toda a cadeia de uma maneira única: a entrega do produto ao consumidor no mesmo dia da compra.

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com o tema, pode-se questionar, por que, algo que não parece nada disruptivo, tampouco com teor inovador baixo, pode impactar tanto um segmento repleto de novidades e de modismos tecnológicos?

A primeira parte desta resposta vem do alto apelo que a entrega no mesmo dia pode ter aos novos consumidores do e-commerce. Apesar de o Brasil ter 100 milhões de usuários conectados à internet (quinta maior população online do mundo), somente 42 milhões já fizeram alguma compra on-line. Isso se deve tanto ao medo de fraudes, que vem diminuindo consistentemente devido ao bom trabalho de empresas “vigilantes” do consumidor, como Reclame Aqui e Ebit, quanto à insegurança em relação ao nível de serviços das lojas online – e é aí que a entrega no mesmo dia muda tudo.

A conta é extremamente simples. Dado que a internet costuma entregar os melhores preços dos produtos e a comodidade de receber em casa, uma das únicas variáveis que jogava contra o canal era o tempo de espera para o consumidor ter o produto em suas mãos. Logo, com a entrega praticamente online, o apelo do canal passa a abranger muito mais potenciais compradores.

Se neste ano entraram 4 milhões de consumidores, pode-se presumir que, com esta vantagem, o numero de novos consumidores quando isso for implementado será bem maior – talvez 2014 poderemos comemorar 8 milhões de novos usuários online...

Além dos consumidores, beneficiados com uma entrega mais rápida, existem diversos outros segmentos impactados, que merecem uma reflexão para analisar quão grande será o impacto desta mudança.

O primeiro segmento é o de algumas indústrias atualmente incipientes no mundo online, que passam a ser extremamente significativas com a possibilidade de entregas no mesmo dia. Exemplos desta necessidade são: o segmento farmacêutico – o consumidor não pode esperar mais do que algumas horas para consumir alguns remédios, o segmento de bens de consumo (supermercados online) e até o segmento de alta renda – como jóias – que lidam com um consumidor superexigente – que demanda uma entrega “Premium”.

Outro segmento é o setor logístico, que deverá passar por uma revolução para se adaptar a esta nova realidade. O marasmo de entregas em 72 horas acabou. Quem conseguir concretizar a façanha de entrega no mesmo dia a um custo acessível deverá ser dominante nos próximos anos. Novas modalidades de entrega podem e devem ser mais utilizadas. O atual predomínio de entregas dos produtos feitas pelo correio pode ser impactado - seja pelo segmento já hiper demandado de motoboys nas capitais, ou até por bicicletas para entregas de curta distância. Um velho clichê deverá prevalecer no segmento logístico: não sobrevive o maior, mas sim o mais rápido.

Também vale ponderar fortes mudanças sobre o setor de armazenamento de produtos. Se antes um grande depósito servia para simplificar o mercado brasileiro, agora as empresas terão que ficar mais próximas dos seus consumidores. Isso necessariamente significa vários centros de distribuição espalhados pelo país e, como consequência negativa, mais custos.

Outro impacto positivo é que se abre uma janela para novos empreendedores criarem soluções brasileiras para problemas específicos de nosso país. No mercado americano, em regiões onde os varejistas não conseguiam entregar na velocidade que o consumidor desejava, criaram-se os famosos lockers (armários) para depositar mercadorias e o consumidor, com uma senha, retirar. Solução que dificilmente será replicada para todo o mercado brasileiro pela questão de segurança. Basta saber quem será o futuro milionário que irá bolar uma solução para algo complexo e necessário como isto.

Por fim, a questão que deixa todos que trabalham neste setor de cabelo em pé: como surfar uma onda inevitável, com grande apelo ao consumidor, mas que trará ainda mais despesas a um canal que já conhecido por ter baixíssima rentabilidade? Em minha opinião, somente os grandes, os inovadores e, principalmente, os grandes inovadores sobreviverão.

*Beni Harari, 32 anos, trabalhou em Marketing e em Vendas na Sony e na Samsung e atualmente é Diretor de Ecommerce da Allied.

**Fonte: Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm)

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