Comida do futuro: você deixaria robôs prepararem seu almoço?

Por Redação | 16 de Junho de 2016 às 21h19

Segundo uma pesquisa conduzida há alguns anos pela Universidade de Oxford, há 92% de chance de que o setor de fast-food se torne majoritariamente automatizado durante as próximas décadas. Se assim ocorrer, é fato que qualquer historiador no futuro poderá seguir esse movimento até sua origem – facilmente chegando a este ano de 2016, em que nos encontrará comendo pizzas preparadas por máquinas e deglutindo sushis habilidosamente enrolados por robôs.

É verdade que o formato não é algo propriamente novo, nem de longe. De fato, a venda automatizada de refeições teve seu surgimento e consequente popularização durante a primeira metade do século XX – sendo que, à chegada dos anos 1970, as poucas unidades que restavam já não passavam de relíquias mantidas mais pelo saudosismo do que por praticidade. Por fim, no início da década de 1990, o último restaurante com as tradicionais portinholas de vidro ativadas por moedas fechava as portas nos EUA.

automatos fast-food

Entre os principais motivos, constava a inflação tornada galopante na segunda metade do século – o que tornava praticamente inviável comprar refeições apenas com moedas. Entretanto, pode-se dizer que o principal responsável pela obsolescência das máquinas veio de dentro do próprio setor alimentício, conforme o formato fast-food passava a abocanhar rapidamente o nicho, acomodando-se perfeitamente às necessidades dos centros urbanos.

Uma revolução dentro da revolução

Dada a efetividade comprovada da indústria das comidas rápidas (e baratas), é de se perguntar por que, afinal, há uma nova onda de restaurantes e quiosques automatizados instalados ou em vias de instalação em vários cantos do mundo. De fato, neste momento, a rede de lanchonetes McDonald’s se prepara para instalar mais e mais menus automatizados para escolha de comidas em suas unidades – além de planos para instalação de unidades quase totalmente mantidas por autômatos.

“A automação está vindo, queiramos nós ou não”, afirmou o diretor-executivo da CKE Rstaurants Inc., Andy Puzder, em entrevista à Bloomberg. “Ela está em toda parte, está em tudo.” Seja como for, embora a oferta de tecnologias inteligentes tenha se tornado cada vez maior nos últimos anos, há também as questões dos custos necessários para manter funcionários de carne e ossos.

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Nos EUA, por exemplo, um funcionário do setor deve receber um mínimo de US$ 15 por hora de serviço (cerca de R$ 50) por volta de 2020 – embora os valores possam variar de estado para estado. Sem abordar a questão de se é ou não justo tal quantia, o fato é que, diante de tais valores, o aceno da indústria de automação ao setor alimentício (entre outros) nunca foi tão tentador.

Conforme dados da agência IBISWorld Inc., as máquinas de venda automática representam um negócio de mais de US$ 7,5 bilhões (mais de R$ 25 bilhões) nos EUA e que segue de vento em popa. Segundo o órgão, o formato deve experimentar um crescimento de 1,8% ao ano até 2020 – embora a maioria ainda seja formada por mantenedoras de máquinas no formato mais tradicional, sem a venda de alimentos frescos, ou mesmo sem vender qualquer alimento (caso da distribuidora de filmes Redbox).

Geração “tudo a um toque”

Há um menu cada vez mais variado de alimentos vendidos e/ou preparados por robôs e máquinas automáticas ao redor do globos. É possível comer um burrito (Burritobox) ou pedir uma pizza diretamente em um quiosque automatizado 24/7 Pizza Box. Além disso, mesmo alimentos mais tradicionais, como o sushi, têm sido preparados atualmente por mãos habilidosas de autônomos – tecnologia que vêm sendo exportada do Japão para o mundo.

“A geração Y, acostumada aplicativos e a serviços online como o Uber, a Amazon e a GrubHub querem cada vez menos interagir com outros seres humanos para pedir comida, para chamar um táxi ou para estocar papel higiênico”, disse Leslie Patton em seu texto ao Bloomberg.

Olhando pelo lado do consumidor, portanto, essa nossa crescente aversão ao contato humano relacionado à prestação de serviços seria a responsável por companhias como o McDonald’s, o Panera Bread ou o CKE Restaurants investirem cada vez mais em formas de venda e prestação de serviços informatizados, “de forma que os clientes possam alimentar também sua misantropia”.

E uma misantropia altamente rentável, é verdade. Conforme revelou uma pesquisa conduzida pela rede CKE no estado do Tennessee (EUA), usuários que dispensam o contato humano na hora de comprar comida tentem a gastar mais – o que explica a pressa de grandes redes em instalar interfaces (tablets) que permitam fazer pedidos e efetuar pagamentos sem qualquer necessidade de interação com um funcionário.

Restaurantes autômatos

Para algumas pessoas, obter uma refeição diretamente de uma máquina pode parecer pouco palatável – mas há quem diga que se trata apenas de uma questão de costume... E de nomenclatura, por assim dizer. “Não são máquinas de venda, são restaurantes autômatos”, disse um dos responsáveis pelas populares Burritobox, Denic Koci, ao Bloomberg.

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Mas as diferenças entre uma máquina de burritos e uma dispensa de salgadinhos (ainda) vão mais além em grande parte dos casos. “Há seres humanos fazendo os burritos”, garantiu o executivo ao referido site. “Os burritos são feitos em cozinhas que também abastecem restaurantes, às vezes como congelados, de forma que sejam despachados em caixas.” Ademais, ao menos no caso da Burritobox, há sempre um funcionário destacado para, uma vez por dia, conferir a qualidade do que é vendido.

Mas não entenda mal: não se trata apenas de uma reedição das máquinas clássicas dos primórdios do século passado. De fato, as Burritoboxes possuem tela sensível ao toque, pontos para carregar a bateria do celular e um chat disponível com o pessoal responsável – em caso de dúvida, ou se algo não funcionar como deveria. Ademais, bastam em média 90 segundos para que uma refeição fique pronta, e ainda é possível ocupar o tempo com vídeos musicais exibidos no próprio equipamento.

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Diferentemente das máquinas de burritos, entretanto, os modelos preparadores de pizza fabricados pela 24/7 Pizza Box não têm associação direta com uma franquia. A ideia é que, ao preço de US$ 29,9 mil (cerca de R$ 105 mil), cada estabelecimento possa estampar sua própria marca. O maquinário é capaz de acomodar até 108 fatias de pizza, e basta um minuto e 40 segundos para reaquecê-las.

Mil sushis por dia ou 360 hambúrgueres por hora

Mas não é apenas na interação com o público que as máquinas têm feito estrondoso sucesso. Na verdade, os autômatos têm ganhado cada vez mais espaço também no preparo de pratos em restaurantes completamente operacionais.

Em vez de simplesmente reaquecer uma fatia de pizza ou um burrito, por exemplo, a máquina de sushis da Autec desempenha todo o processo, enrolando a iguaria e acomodando-a gentilmente nas bandejas. “Isso faz maravilhas”, afirmou o presidente da rede Sushi Station, Aki Noda, ao Bloomberg. “Nós podemos ensinar os funcionários em um ou dois dias algo que tomaria um ano de um sushi chef.”

momentum machines

Já a criação da Momentum Machines tem seu foco em uma culinária eminentemente ocidental. O robô desenvolvido pela companhia pode fatiar tomates e picles imediatamente antes de dispô-los, em fatias, sobre o hambúrguer, resultando no “hambúrguer mais fresco possível”.

Ademais, conforme disse a empresa ao Business Insider, o autômato é “mais consistente, mais higiênico e pode produzir até 360 hambúrgueres por hora”. Um em cada 10 segundos? Nada mal.

Substituição da mão de obra humana

A despeito do deslumbramento causado pela nova culinária automatizada, é impossível não questionar o impacto que tal alteração no panorama produtivo pode ter em milhares de empregos mundo afora. Apesar disso, e mesmo descontando os embates salariais que têm transformado a automação na melhor escolha para as grandes redes, há quem veja na mudança apenas a realização do inevitável.

“Considerando-se as questões da enorme margem de erro humana, da baixa higiene, da falta de educação, da morosidade e dos saltos mais recentes da inteligência artificial, é algo simplesmente lógico automatizar o nosso restaurante o mais rápido possível”, afirmou um porta-voz da rede McDonald’s ao site NewsExaminer.

Postura semelhante é mantida pelo cofundador da Momentum Machines, Alexandros Vardakostas. Ao descrever a máquina de hambúrgueres ao site Xconomy, o executivo colocou que “o aparelho não foi projetado para tornar os funcionários mais eficientes”. Em vez disso, “a ideia é substituí-los completamente”. Algo de acordo com o slogan da companhia, de fato, em que se lê “Faz tudo o que empregados fazem, só que melhor”.

Alguém precisa fabricar os robôs...

Apesar de soar como profeta e agente do apocalipse, entretanto, a própria Momentum Machines também se pronuncia em relação à possibilidade cada vez mais material de que atendentes, garçons e cozinheiros tenham seus empregos surrupiados por uma máquina de desempenho otimizado – e que “não faz pausas para o cigarro”, conforme também foi dito.

Na verdade, trata-se de algo mais velho do que parece. “A questão envolvendo máquinas e perda de empregos está por aí há séculos, e os economistas normalmente concordam que tecnologias como a nossa acabam aumentando as vagas de trabalho”, defende a empresa, dimensionando ainda a questão em três fatores determinantes:

  • As companhias que fabricam robôs vão precisar de novos funcionários;
  • Os restaurantes que utilizam os robôs podem expandir suas fronteiras produtivas, o que requer contratação de pessoal; e
  • O público em geral economiza dinheiro com o custo reduzido dos alimentos. A quantia assim poupada pode movimentar o restante da economia.
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Ok, talvez os pontos não sejam suficientes para aplacar o temor de alguém que vê uma geringonça robótica prestes a usurpar de uma única fez diversas funções antes exclusivas de seres humanos. Pode ser mesmo o preço do progresso, invariavelmente calcado no inevitável. Entretanto, sejam os novos autômatos o próximo passo da indústria ou parte do acervo de um museu de 2050, o que nos faz humanos não deve mudar tão cedo.

Fontes: Bloomberg, Business Insider, NewsExaminer, Xconomy, Entrepreneur.

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