Everaldo Coelho: de ilustrador de livros a um dos grandes designers da Apple

Por Fernanda Morales | 04.09.2012 às 19:06 - atualizado em 05.09.2012 às 15:07

Trabalhar em uma grande empresa e ser um dos responsáveis pela criação de produtos revolucionários é o sonho de muita criança. O designer de interfaces brasileiro Everaldo Coelho conseguiu realizar esse sonho e passou dois anos trabalhando diretamente na criação de ícones para os produtos da Apple.

Coelho começou sua carreira como ilustrador de livros didáticos e infantis e, quando se deparou pela primeira vez com um computador, percebeu que o grande trabalho da sua vida seria modificar ícones. "A pasta amarela do Windows me incomodava muito, a primeira coisa que me incomodou no primeiro dia que eu sentei na frente de um computador de desktop", relata Coelho.

O interesse pela informática e pela personalização do desktop transformou a vida do designer. Everaldo Coelho criou sua primeira empresa, a Yellow Icon, e trabalhou em projetos de companhias que atuam em mais de 26 países. E com muita vontade de aprender a falar inglês, Coelho se mudou para Londres, Inglaterra.

"Eu me mudei para Londres para estudar inglês. E depois de sete meses em Londres eu percebi que eu não estava aprendendo a língua, porque eu ia para a escola por algumas horas por dia e ia para casa trabalhar com o Yellow Icon e falava português o tempo todo. Então, eu coloquei nas minhas redes sociais - Twitter, Facebook e Orkut - que eu estava procurando um emprego em qualquer país de língua inglesa", afirma Coelho.

Em pouco tempo, o designer recebeu propostas de grandes empresas como Spotify, Google, Dropbox e claro, Apple. Depois de algumas entrevistas, Coelho decidiu ingressar em uma das equipes da Maçã. "Trabalhar na Apple foi uma experiência fantástica", ressalta.

Everaldo Coelho designer brasileiro Apple

"Trabalhar na Apple foi uma experiência fantástica. As pessoas são extremamente cultas e experts na área"

Everaldo não pode comentar muito sobre os projetos que trabalhou dentro da empresa de Cupertino, nos Estados Unidos, mas alguns de seus trabalhos podem ser vistos de perto nas interfaces do Mac e dos aparelhos com iOS.

Sua estadia na gigante da tecnologia foi extremamente proveitosa e enriquecedora e agora, o designer está de volta ao Brasil para iniciar um novo projeto na área de aplicativos na Movile, empresa que foi considerada por muitas publicações internacionais como uma das dez melhores startups da América Latina em 2011.

Com a ideia de tornar o nosso país referência mundial na produção de aplicações e softwares, Everaldo Coelho trocou a Califórnia por São Paulo. Confira abaixo o bate-papo exclusivo que o renomado designer teve com o Canaltech.

Como foi sua trajetória profissional até chegar à Apple?

Eu comecei a trabalhar no Brasil como ilustrador de livros didáticos e infantis. No começo, eu pintava a mão com aquarela, mas quando eu comecei a trabalhar com pintura digital, me interessei por informática e por personalizar meu desktop. A pasta amarela do Windows me incomodava muito, a primeira coisa que me incomodou no primeiro dia que eu sentei na frente de um computador de desktop.

E eu tentei mudar aquilo. Fui comprar meu primeiro PC e me apresentaram um Macintosh. Na época ele era muito igual ao PC, a mesma caixa bege que era o PC. Mas o ícone de folder era uma pasta azul, e eu achei aquilo fantástico. Então, por conta disso eu tentei descobrir uma maneira para instalar o Mac OS no meu PC e logo, vi que isso não era possível. E no meio do caminho, eu descobri outros sistemas operacionais e um deles foi o Linux, que era super fácil para personalizar.

Comecei a personalizar ícones para o meu desktop e depois de um tempo, conheci a Conectiva, que era uma empresa distribuidora de Linux no Brasil, resolvi mandar um e-mail para eles e no fim, nós acabamos nos gostando e eles me chamaram para trabalhar com eles. E lá eu entrei no departamento de marketing e como eu personalizava meu desktop, o pessoal viu, gostou e publicou na internet. E essa foi a gênesis do meu trabalho com interfaces.

Como você entrou na Apple? E qual foi a sua reação ao ser selecionado para trabalhar em Cupertino?

Eu nunca fui necessariamente selecionado para trabalhar na Apple. O que aconteceu é que eu desenvolvi esse trabalho de interface e ele passou a ser um pouco reconhecido e famoso, por conta disso, eu passei a receber várias propostas e convites de trabalho no exterior. E a partir do momento que a demanda por novos projetos passou a ser maior que a minha capacidade de responder a elas sozinho, eu contratei algumas pessoas e comecei o Yellow Icon Studio.

E o trabalho do Yellow Icon em si se tornou bem grande, a empresa atendeu aproximadamente 26 países. A gente fez antivírus, Firefox 4, teve muita coisa amplamente divulgada. Na verdade, eu tive quatro propostas diferentes antes de aceitar meu convite para a Apple. Então, eu não fui necessariamente selecionado, eles me mandaram um e-mail me convidando para uma entrevista. E na última delas, eu resolvi aceitar.

Na verdade, também foi uma grande coincidência. Eu me mudei para Londres para estudar inglês. E depois de sete meses em Londres eu percebi que eu não estava aprendendo a língua porque eu ia para a escola por algumas horas por dia e ia para casa trabalhar com o Yellow Icon e falava português o tempo todo. Então, eu coloquei nas minhas redes sociais - no Twitter, Facebook e Orkut - que eu tava procurando um emprego em qualquer país de língua inglesa.

E alguns meses depois, eu recebi três convites de amigos que trabalhavam na Apple, perguntando se eu gostaria de conversar com os diretores. Eu acabei aceitando ter essa conversa com eles e eles me convidaram para ir para a Califórnia por uma semana. Eles tinham três times e eu fui aprovado pelos três. E tive que escolher por um deles.

E como era o seu dia a dia dentro da empresa? E seu relacionamento com os colegas de trabalho?

Trabalhar na Apple foi uma experiência fantástica, as pessoas são extremamente cultas e experts na área. De fato, as pessoas que estão criando tecnologias são fantásticas, algo que dificilmente você vai encontrar em outro lugar. O aprendizado foi incrível, principalmente, o inglês que era um dos meus objetivos iniciais.

Os americanos são extremamente carinhosos. Eu imaginava que os americanos eram preconceituosos com os estrangeiros e eu percebi que, na verdade, o preconceituoso era eu. Foi realmente uma experiência incrível.

Os profissionais da Apple comentam muito sobre a questão do sigilo. Como foi pra você lidar com essa política da empresa?

No início foi um pouco difícil, porque como designer você gosta de expor seu trabalho. Você desenha porque você quer mostrar isso para alguém e essa é a maneira como você se expõe para o mundo. Então, foi realmente difícil pra mim na Apple, porque eu não podia mostrar coisa nenhuma para ninguém, não podia falar sobre o meu trabalho, não podia nem mesmo falar com meus colegas de trabalho sobre o que eu estava fazendo. Na Apple, você sabe do projeto aquilo que você precisa saber e a pessoa que senta do seu lado não sabe o que você tá fazendo, já que ela não faz parte daquele projeto.

O sigilo dentro da Apple é bastante sério, mas depois de alguns dias e meses você se acostuma. E eu encontrei uma saída para mim, eu sempre tive vontade de fotografar, mas nunca desenvolvi a fotografia como uma técnica. Então, eu encontrei na fotografia uma fuga e ela era uma coisa que eu podia fazer como arte, expor e receber feedback.

Quais os principais projetos que você participou dentro da Apple?

Eu não posso falar muito, posso falar quase nada, na verdade. Eu acredito que os projetos mais marcantes que eu trabalhei vão ser lançados nos próximos anos. Mas do que já foi lançado eu trabalhei em ícones do iOS, do iPad, Mac OS, em alguns aplicativos do iCloud. E entre os apps para desktop que eu trabalhei estão Notes, Reminders, Calendar, praticamente em todos os aplicativos padrão.

Especula-se que a Apple não paga tão bem seus profissionais de alto escalão. O que você acredita que faz com que ela mantenha esses profissionais em seu quadro?

Isso é uma meia verdade. Eu acho que a Apple paga bem. Eu recebi várias propostas antes de ir para lá, recebi propostas de ir pro Dropbox, Spotify, Google e a Apple paga melhor do que essas companhias. O Google paga um salário equivalente ao da Apple. Ela está acima do valor de mercado no Vale do Silício, então não é verdade que a Apple paga mal.

A segunda coisa é que o dinheiro não é o mais importante. Acho que as pessoas querem trabalhar na Apple porque não existe nenhum outro lugar que você consegue inovar na medida que você consegue na Apple.

Diante do porte da Apple, muitas pessoas acreditam que os funcionários devem sofrer muita pressão. Isso é verdade? E como era lidar com os prazos?

A pressão era muito mais, no meu caso especificamente, de mim do que da empresa ou da minha gerente. A minha gerente era o tipo de pessoa que tenta absorver a pressão antes que ela chegue até os seus subordinados. A pressão era muito mais de mim no sentido de superação, produzir um trabalho cada vez melhor.

Você, em algum momento da sua vida, se imaginou trabalhando em uma empresa tão conceituada?

Tem duas coisas: primeiro, na vida é muito mais importante você saber onde você não quer ir do que onde você quer ir. E em um segundo momento, eu acho que desde que eu decidi mudar ícones, eu sabia que isso podia acontecer. Foi natural para mim.

Você está voltando para o Brasil para iniciar um projeto na Movile. Como está sendo essa volta para o seu país?

Ainda não tenho tanto para falar sobre o meu trabalho na empresa, mas está sendo fantástico poder voltar e ficar perto da família, rever os amigos e falar português (risos). Eu ainda acho estranho quando alguém fala em português comigo. Quando você está morando fora e escuta alguém falando português atrás de você, você pensa: 'Nossa, que legal, um brasileiro!'.

Quais são os seus planos dentro da Movile e para os próximos anos?

A gente tem vários projetos aqui na Movile, a gente trabalha com vários aplicativos e nós vamos nos focar agora nas lojas de aplicativos, especialmente na Apple App Store e no Google Play. Nós também temos um software de vídeo que vamos trabalhar muito com ele, é um momento estratégico, já que a Apple está retirando o YouTube oficial do iOS.

O mais interessante são as peças de um projeto muito maior, que prevê criar aqui no Brasil a mesma qualidade de aplicativos e softwares que você vê na Europa e Estados Unidos. É tornar o Brasil relevante no cenário de tecnologia mundial.