Libra | Saiba tudo sobre a criptomoeda oficial do Facebook

Por Felipe Demartini | 18 de Junho de 2019 às 10h59
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A Libra finalmente é real. O Facebook deu fim, nesta terça-feira (18), às semanas de especulação, comentários e expectativas e finalmente anunciou sua própria criptomoeda, que poderá ser usada para transferências e compras entre usuários e serviços presentes na rede social, Messenger ou WhatsApp, além de serviços e varejistas certificados.

O sistema entra em fase de testes ainda neste ano para que a blockchain envolvida comece a funcionar, enquanto o lançamento público está previsto para o primeiro semestre de 2020. Nas palavras, é uma proposta ambiciosa: criando uma plataforma descentralizada e segura, baseando-se na amplitude de suas rede sociais e serviços, o Facebook deseja promover a inclusão até mesmo daqueles que não possuem contas bancárias, mas fazem a economia girar e desejam mais maneiras de adquirem produtos online.

Todo o processo acontecerá sem taxas para os usuários e, principalmente, sem a flutuação usual vistas nas criptomoedas. Esse é um ponto importante para o Facebook: tornar a Libra uma stablecoin, representada pelo código ≋ e lastro em moedas como o dólar, euro, a libra esterlina, o franco suíço e o iene, além de uma cesta de depósitos feitos pelas empresas que fazem parte do consórcio que a mantém funcionando e até mesmo cartas governamentais.

No lado dos usuários, a troca por moedas oficiais será feita por meio de aplicativos e carteiras, como a Calibra Wallet, do próprio Facebook. Além disso, a ideia é que lojas de conveniência, mercados, shoppings e centros comerciais contem com postos de troca de dinheiro em Libras, fora das casas de câmbio tradicionais, que também farão esse trabalho. Uma ideia, por exemplo, é que os usuários mantenham suas compras normais, de dia a dia, com dinheiro, e usem a criptomoeda como uma forma mais segura de realizarem transações online.

Enquanto isso, a Libra Association planeja criar programas de incentivo na etapa inicial do projeto como forma de incentivar varejistas a trabalharem com a moeda. Entre as ideias estão a distribuição de moedas aos early adopters, incluindo desenvolvedores do Move, a tecnologia que fundamenta a blockchain do dinheiro virtual, e uma porcentagem extra de ganhos sobre as transações para lojistas que fizerem parte da etapa inicial de implementação. Descontos também poderão ser dados por eles a usuários que decidirem pagar digitalmente, com a diferença sendo coberta pelos fundadores.

O funcionamento da conversão também difere das criptomoedas tradicionais. Sempre que um dólar é trocado em Libras, o dinheiro vai para um fundo que mantém a tecnologia em funcionamento e gera juros para os responsáveis pela tecnologia. Quando a conversão contrária acontece, a Libra digital é destruída e o valor em moeda oficial é devolvido ao usuário. Sendo assim, os responsáveis pela moeda garantem seu funcionamento sustentável e a certeza de sempre haver 100% de valores em circulação, sem a possibilidade de fracionamentos, desaparecimentos de unidades e, principalmente, falta de fundos para devolver eventuais investimentos ou apostas feitas por usuários e empresas.

Esse é um dos elementos principais que fundamenta a criação da Libra. De forma a garantir confiabilidade e utilização, o Facebook sabe que seu nome não basta, uma vez que a ideia geral por trás das criptomoedas é de um investimento rápido, com muita especulação e alta flutuação. Não é o tipo de coisa que se encaixa com a ideia de inclusão e uso no varejo tradicional que as empresas que fazem parte deste consórcio original desejam ventilar; justamente por isso, a presença de mais e mais nomes de peso, que bancassem o projeto, foi necessária para trazer as fundações necessárias.

União de poderes e promessa de sigilo

A Libra Association, que desenvolve e vai manter a criptomoeda, é um grupo de empresas que investiram cerca de US$ 10 milhões na empreitada cada uma. Além do Facebook, estão presentes nomes como MasterCard, Visa, PayPal, eBay, Lyft, Uber, Mercado Pago, Spotify e Vodafone, além de nomes do mundo das criptomoedas como Coinbase e Xapo Holdings, e firmas de investimento como Andreessen Horowitz, Union Square Ventures e Ribbit Capital. ONGs e organizações multilaterais também fazem parte do time, formado, no total, por 28 nomes.

Grandes empresas compõem grupo de fundadores da Libra Association, que desenvolverá tecnologia e trabalhará na aplicação da criptomoeda (Imagem: Divulgação/Libra Association)

Todos estão reunidos em uma associação sem fins lucrativos que será responsável por manter as reservas financeiras que financiarão a Libra, aceitar a moeda como meio de pagamento e desenvolver a arquitetura que permitirá as transações. Todos os integrantes desse grupo de fundadores possuem poder igual de voto, com o Facebook, apesar de ser citado como o responsável pela criação do dinheiro virtual, não sendo seu único nem absoluto controlador.

O Facebook, inclusive, convida rivais como Google, Microsoft e Twitter a entrarem para o grupo. A expectativa da empresa é que, no lançamento da Libra, 100 empresas façam parte do time de fundadores, que se reunirá duas vezes por ano em Genebra, na Suíça, onde também estará a sede da Libra Association. O país foi escolhido não apenas por sua postura neutra, mas também por ser um polo de inovação em serviços financeiros e blockchain.

As presenças de companheiros e rivais não apenas dão uma amplitude maior à Libra em seu lançamento, em termos de aceitação, como também garantem algumas salvaguardas. O Facebook trabalhará na moeda a partir de uma companhia própria, mas independente, a Calibra, enquanto jamais atrelará os gastos feitos com ela ao perfil dos usuários na rede social. Identidades, perfis de publicidade e outros elementos permanecerão plenamente separados.

Os dados só serão compartilhados em caso de investigações de fraude ou para fins de desenvolvimento do próprio sistema, sempre de maneira anônima e em grandes blocos, de maneira que transações específicas não sejam identificáveis. Não será preciso uma conta no Facebook, Messenger ou WhatsApp para usar a Libra, mas os usuários poderão importar contatos desses serviços caso queiram facilitar as transferências. Dados pessoais serão exigidos em caso de furto de moedas ou outros problemas, com reembolsos podendo ser realizados após um processo de verificação.

Para a rede social, uma coisa leva à outra, mas sem que elas estejam diretamente atreladas. Na visão do vice-presidente de blockchain do Facebok, David Marcus, se uma empresa vende mais na plataforma, ela pode se sentir incentivada a comprar mais anúncios. E, assim, se inicia um ciclo que torna a Libra uma parte importante das diretrizes do futuro da plataforma, sem colocar a privacidade e as informações pessoais das pessoas em risco.

Membros fundadores da Libra também poderão agir como nós validadores, mas existem requisitos de amplitude e base para que isso aconteça (Imagem: Divulgação/Libra Association)

Outro método de ganho financeiro para os envolvidos é o investimento. O total de Libras armazenadas para garantir a estabilidade da moeda e seu funcionamento gerará juros, que manterão a própria engrenagem funcionando e garantirão dividendos. Da mesma forma que acontece com os votos, o grupo de fundadores também recebe cotas iguais de dividendos da criptomoeda, tornando todos igualmente interessados em fomentá-la e ver seu crescimento.

Cada um dos membros fundadores, ao investir os US$ 10 milhões, também passa a agir como um nó validador da blockchain da Libra. Ela tem um funcionamento semelhante ao de outras criptomoedas, com todas as transações ficando armazenadas em uma base autenticada por todos os envolvidos na associação, a uma velocidade de 1.000 registros por segundo.

Para que uma operação seja validada, dois terços dos nós precisam chegar a um consenso. Uma vez escritas na blockchain, uma transação não pode ser revertida e, caso forks aconteçam por conta de ataques ou problemas tecnológicos, o funcionamento da Libra fica interrompido até que os responsáveis verifiquem a extensão dos danos e apliquem atualizações para resolver os problemas.

Uma medida de segurança é a aplicação de pequenas taxas, que devem ser cobradas de grandes operadores e varejistas, que está sendo apelidada de “gasolina”. É uma pequena porcentagem para manter o sistema funcionando, que não virará lucro para os associados, mas, também, garantirá que ataques de negação de serviço não sejam realizados, uma vez que a conta de milhares de transações sendo realizadas para “travar” o serviço será alta, tornando, assim, um golpe desse tipo nada lucrativo para os hackers.

De forma a manter a velocidade do sistema, a Libra Association também impõe uma série de requisitos àqueles que quiserem operar nós. Eles precisam ter meio rack de servidores livres para isso, conexões dedicadas de 100 Mbps para eles e engenheiros a postos para operação, além de certificações de segurança. Somente serviços que atendem mais de 20 milhões de pessoas por ano e são reconhecidos como líderes por grupos privados de avaliação podem se tornar parte do blockchain, tendo mais de US$ 1 bilhão em valor de mercado ou US$ 500 bilhões em caixa, caso trabalhem com saldos de usuários.

A documentação da Libra tem mais de 100 páginas e detalha os planos tecnológicos e práticos do Facebook e seus associados para o que promete ser uma nova disrupção, não apenas no comércio eletrônico tradicional, como também no ainda novo mercado de criptomoedas. O salto, entretanto, é para as estrelas: o texto fala, mais de uma vez, na criação de uma moeda global, baseada em tecnologia e facilidade. Na intenção, pelo menos, tudo parece caminhar, justamente, para isso. Resta saber como o mundo real vai reagir a tudo isso.

Fonte: TechCrunch

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