Quantum Break empolga com ótima história sobre viagem no tempo

Por Durval Ramos

Quantum Break é o típico projeto que tinha tudo para dar errado. A ideia de unir game com série de TV era algo ambicioso, à beira da megalomania. Um conceito arriscado, principalmente por acompanhar uma proposta que a própria Microsoft abandonou logo após o lançamento do Xbox One. E, mesmo assim, o jogo continuou fiel a esse conceito, fazendo mudanças que seriam fatais na maioria dos processos de criação.

Porém, estamos falando da Remedy. O estúdio responsável por Max Payne e Alan Wake sempre foi conhecido pela força de seus roteiros e, desta vez, não foi diferente. Apesar de todos os problemas e mudanças no meio do caminho, a produtora segura a barra e mantém o conceito original, fazendo com que tudo isso funcione dentro de uma história intrigante, envolvente e muito bem amarrada do começo ao fim.

É claro que muito do propósito original se perde nesse meio do caminho. Quantum Break não é nem de perto tão inovador quanto se propôs a ser, mas isso está longe de ser um problema. Embora o apelo transmidiático do projeto simplesmente não exista, a mistura de formatos ajuda a expandir o enredo e traz algo um pouco diferente do que estamos acostumados a ver em títulos do gênero. E, mesmo não sendo nada revolucionário, continua sendo um excelente exclusivo para a conta da Microsoft.

Quantum Break

Bagunça midiática

Por mais que o projeto para TV tenha sido cancelado, a série ainda existe. Para isso, a Remedy precisou fazer algumas alterações no modo de apresentá-la. Assim, ao invés de trazer algo separado e complementar à história principal, esses episódios fazem parte da própria narrativa, como uma espécie de cutscene live-action.

Só que há alguns "poréns" nesse formato. A função desses episódios é realmente mostrar que há muito mais coisas acontecendo do que apenas vemos no jogo em si e é interessante ver como as duas mídias conversam a todo momento. É algo diferente do que estamos acostumados a ver e que funciona muito bem.

Por outro lado, essas inserções não deixam de ser incômodas. A série acompanha o ritmo do game e consegue alinhar até mesmo seu clímax — o que é excelente, diga-se de passagem —, mas incomoda ver o jogo ser interrompido ao final de cada capítulo por quase 20 minutos para você acompanhar outros personagens e em situações bem diferentes.

Quantum Break

É claro que ambas as histórias são interessantes e acompanhá-las dá uma visão muito maior e mais imersiva desse mundo. Porém, fica claro que essa ligação funciona muito mais em mídias separadas, como imaginada inicialmente, e não apenas como cutscenes de luxo. Ainda assim, nada disso atrapalha Quantum Break, mas também não há nada que faça dele algo revolucionário.

O tempo na sua mão

Deixando a série de TV de lado, o game em si se mostra um excelente shooter. De novo, nada de diferente do que já vimos, mas ele costura as mecânicas de controle do tempo com tudo aquilo que funciona no gênero, criando excelentes situações e explorando muito bem o potencial existente naquele universo.

Tanto que você mal sente sua linearidade. Estruturalmente, Quantum Break é um enorme corredor no qual o personagem apenas segue em frente. No entanto, a criação dos cenários e a composição dos desafios é tão bem construída que você acaba acreditando que tudo ali é maior. Da exploração do cenário aos vários puzzles que você encontra no seu caminho, tudo é construído para fazê-lo se sentir em algo maior.

Quantum Break

E o controle do tempo é um dos maiores acertos nesse sentido. Não é nada ao estilo Life is Strange, no qual o jogador pode realmente brincar com passado e futuro, mas algo muito mais pontual. Dentro da história do game, o tempo está à beira de acabar e o herói tem a habilidade de controlar suas deformações, seja criando áreas congeladas ou se movendo muito rápido. E o modo como isso é usado na jogabilidade é incrível.

A Remedy conseguiu fazer com que todas as skills sejam importantes para criar um combate focado na ação, mas com grandes doses de estratégia. Como há inimigos que também conseguem usar habilidades semelhantes, é preciso saber qual a melhor maneira de se aproximar e realizar ataques certeiros. Dominar esses poderes e saber a melhor hora de usar cada um deles cria um ritmo diferenciado para os confrontos, deixando tudo bem mais emocionante.

Além disso, os próprios puzzles se aproveitam dessa mecânica. Há vários momentos em que esses poderes são necessários não para enfrentar um grupo de soldados da Monarch, mas para acessar áreas específicas ou mesmo evitar ser morto em um acidente. O estúdio conseguiu criar situações únicas em que o controle do tempo faz diferença, mostrando que essas habilidades podem ser bem aproveitadas não só como artimanha de combate, mas como algo que ajuda a enriquecer a jogabilidade em diversos sentidos.

Quantum Break

Lutando contra o relógio

Em termos de história, Quantum Break é uma grata surpresa. Tramas relacionadas a viagens no tempo são sempre divertidas, mas podem também se transformar em grandes armadilhas se não forem bem trabalhadas. Mas o jogo consegue lidar tão bem com todas essas particularidades, brincando com os paradoxos temporais e seus efeitos, que consegue prender o jogador do começo ao fim. Ou seria do fim ao começo?

A premissa básica do jogo é bem simples: quais seriam as consequências para o contínuo espaço-tempo caso alguém conseguisse criar uma máquina do tempo? Parece algo clichê, mas a Remedy conseguiu apresentar isso de uma maneira muito inteligente. Ela escapa das abordagens clássicas ao mesmo tempo em que se aproveita de muitas estruturas já conhecidas nesse tipo de história para contar algo novo.

E o resultado é um enorme looping de acontecimentos. Quantum Break é um daqueles jogos que parecem confusos à primeira vista, mas cujas peças vão se juntando aos poucos e revelando o que está realmente acontecendo. Quando você começa a entender a verdadeira história, o game já o conquistou. Como dito antes, a Remedy sempre foi conhecida pelo peso de seus roteiros e, mais uma vez, consegue nos entregar algo muito acima da média.

Quantum Break

Hora certa

Quantum Break está bem longe de ser tão revolucionário quanto se propôs inicialmente. Contudo, o estúdio soube lidar muito bem com aquilo que tinha em mãos e conseguiu fazer um excelente jogo, com uma excelente história e uma ótima utilização de suas mecânicas, compensando todos os reveses de seu desenvolvimento.

Reinventar um gênero é difícil e a ideia de misturar formatos para criar algo novo é igualmente arriscado. Arriscado ao ponto de que um erro no caminho pode comprometer todo um projeto. E Quantum Break conseguiu, mesmo com todos os problemas e reviravoltas em sua produção, se sobressair e entregar uma experiência diferenciada — ainda que não do jeito que muitos esperavam. E tudo isso com um visual de cair o queixo.

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