A gente realmente precisa de novos consoles no meio de uma geração?

Por Durval Ramos | 03 de Maio de 2016 às 09h19
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As últimas notícias sobre o mundo dos games deixaram muita gente revoltada. Os rumores sobre uma atualização do PlayStation 4 e do Xbox One caíram como uma bomba entre os jogadores, que não gostaram nada da possibilidade de ver Sony e Microsoft lançando versões mais potentes de seus consoles. E a revolta é totalmente compreensível, já que tornaria os sistemas atuais obsoletos.

Tanto que é bem comum vermos em comentários de notícias e nas próprias redes sociais uma enorme má vontade quanto a tudo o que aparenta está por vir. Por enquanto, não há nada concreto e tudo o que se especula são anúncios para a E3, mas o público parece já ter se decidido contra todas essas novidades e faz questão de deixar isso bem claro. É claro que ninguém vai ficar feliz em ter de comprar um novo console só porque há uma versão atualizada no mercado, mas as reações que vemos são bem exageradas nesse sentido.

Para entender um pouco do porquê disso tudo, é preciso compreender primeiro as razões que fazem as empresas apostarem em novos modelos no meio de uma geração. É uma droga? Para o consumidor, com toda a certeza, mas essa estratégia também ajuda na qualidade dos jogos e no tempo de vida daquele videogame dentro do mercado. E, mais importante que isso tudo, essa é uma prática bem antiga e que, se tudo se confirmar, apenas vai se repetir mais uma vez.

E3

Derrubando os boatos

Como praticamente tudo no meio tecnológico, a existência do PlayStation 4.5 e do Xbox One II é apenas rumor. As fabricantes nunca comentam sobre possíveis projetos e, mesmo quando confrontadas sobre o assunto, não falam sobre o assunto. Isso significa que todas as informações que temos até agora são boatos. Muitos deles acabam se confirmando, é verdade, mas outros são apenas histórias.

Dizemos isso porque a principal revolta com os supostos novos consoles é o rumor de que o PS4.5 traria um hardware melhorado e, por consequência, títulos exclusivos que não rodariam nos modelos mais antigos. Basicamente, se sair um God of War 4 para esse novo console, você que comprou o videogame no lançamento, em 2013, vai ter de se virar e comprar um novo sistema para conferir o título.

Olhando assim, fica clara a razão para tamanha indignação. Qualquer pessoa, em sã consciência ficaria revoltada com algo assim. No entanto, basta parar para pensar um pouco para ver como esse boato não faz sentido.

PlayStation 4

Recentemente, a Sony anunciou que já são mais de 40 milhões de PS4 vendidos em todo o mundo. Isso significa que, ao lançar um novo jogo, ela pode alcançar uma base de usuários de 40 milhões de potenciais consumidores. É gente para caramba e é por isso que a base de usuários é tão importante para as indústrias — não por acaso, a Microsoft uniu Xbox One e Windows 10 para atingir muito mais gente a cada lançamento.

Assim, que sentido faria anunciar um novo console e fazer com que os seus principais lançamentos fossem exclusivos para ele? Digamos que o tal rumor seja verdadeiro e o novo God of War rode apenas no PS4.5. Se isso acontecer, toda aquela base de usuários gigantesca não serviria para nada e o jogo teria grandes chances de ser um fracasso nas vendas. De um lado, muitas pessoas com um console que não roda o título e, do outro, um game que somente alguns poucos vão poder conferir. A matemática não bate e esse é um pecado mortal em qualquer indústria.

É claro que nada impede que uma empresa faça isso. A Nintendo, por exemplo, é campeã em fazer essas limitações, sobretudo em seus portáteis. O GameBoy Color tinha títulos exclusivos que não rodavam no GameBoy original, o Nintendo DSi fez a mesma coisa e agora temos o New 3DS repetindo o modelo. Porém, mesmo ela não faz isso com todos os seus games e são apenas alguns que recebem esse selo de exclusividade. E vamos combinar que, como modelo de negócio, a Big N não é o melhor exemplo a ser seguido.

3DS REMAKE

Então, por que mudar?

Mas se a ideia é lançar o mesmo game para todos, por que Sony e Microsoft estão investindo em um console no meio da atual geração? Pode parecer incoerente, mas elas fazem isso para estender a vida desses consoles por mais alguns anos.

Primeiramente, essas atualizações de plataformas são bem recorrentes. Basta olhar para trás para lembrar que PS3 e Xbox 360 tiveram versões Slim, assim como o PS2, o PlayStation original, o Super Nintendo e até mesmo o Atari. E todas elas trouxeram melhorias de hardware, mesmo que pequenas, além da própria mudança no visual.

Desse modo, o lançamento de um PS4.5 ou de um Xbox One II é mais do que natural. E, por mais que eles possam ter uma evolução técnica bem mais significativa do que no passado, é muito difícil acreditar que isso será usado para excluir a base atual. A ideia, na verdade, é que essa novidade venha para expandir o número de jogadores.

Controle Xbox

Trazer um novo console significa (pelo menos na grande maioria das vezes) reduzir o preço do modelo antigo. Quando o Xbox 360 Slim chegou às lojas, ele começou a ser vendido por US$ 299,99 e o modelo Elite teve um corte no seu preço, passando a ser encontrado nas lojas por US$ 249,99. Assim, quem queria comprar o videogame encontrava as versões iniciais mais baratas e o público mais entusiasta pôde se atualizar. Obsolescência programada está longe de ser algo novo.

Porém, pelo menos neste primeiro momento, dificilmente veremos a temida exclusividade. É claro que o PS4.5 e o Xbox One II vão trazer ganhos significativos em termos de desempenho e qualidade. A próxima leva de jogos será feita pensando nesses novos hardwares, mas não vai excluir os antigos. No máximo, veremos os modelos iniciais do PS4 e One dando o máximo de si para rodar esses títulos. No máximo, você vai notar que seu console está fazendo muito mais barulho do que antes, uma vez que o sistema de refrigeração vai estar trabalhando a toda.

Outra razão importante que pouca gente leva em consideração quando pensa em atualizações de sistemas é que elas estão aí para esticar o ciclo de vida daquela geração. Para as fabricantes é muito mais econômico investir em melhorias pontuais no hardware do que desenvolver toda uma nova arquitetura para um novo console. Por mais que Sony e Microsoft liderem o mercado, não são elas que ditam a evolução da tecnologia, o que as obriga a acompanhar o progresso da indústria.

PlayStation 4

Assim, a solução encontrada é trazer melhorias que permitam esse salto de qualidade sem que seja preciso fazer algo inteiramente novo. Se não fossem essas versões no meio de uma geração, o tempo entre um console e outro seria bem menor. Basta olhar para a Nintendo com seu Wii U: o sistema tem apenas cinco anos e já está prestes a ser aposentado devido à sua incapacidade de rivalizar com a concorrência.

É claro que o caso envolve outras variáveis, mas ele ajuda a visualizar como essas melhorias esticam a duração de toda uma geração. Se você acha ruim um PS4.5, pense que poderia ser muito pior com um PlayStation 5 aparecendo muito em breve com games que você realmente não teria acesso em sua plataforma atual.

Encarando a realidade

Diante disso tudo, o ideal é se acalmar e aceitar que novidades estão a caminho. Não há nenhum problema nisso, tanto que já passamos por várias situações parecidas no passado e nenhuma delas excluiu jogadores. A ideia das empresas, é óbvio, é fazer com que você compre um console novo e ela vai apostar cada vez mais em gráficos e recursos para convencê-lo de que é preciso atualizar seu videogame, por mais que o seu atual funcione perfeitamente. Faz parte das regras do jogo.

Playstation 4K/4.5

A tendência é que isso realmente aconteça, principalmente com a chegada de novos jogos e tecnologias. O PlayStation VR é um exemplo disso: já sabemos que ele vai funcionar no PS4 atual, mas pode ter certeza de que a Sony vai bater muito na tecla de que somente o modelo atualizado é capaz de entregar a melhor experiência. E, com o tempo, as pessoas vão adotando e migrando para o novo hardware. É um processo de evolução, não de ruptura.

Isso não quer dizer que você precise mudar tão logo os novos consoles cheguem. É o mal de todo jogador, entusiasta por natureza. Porém, não se trata de uma nova geração, em que novos games não rodam em sistemas antigos, mas apenas uma encorpada naquilo que já existe para encarar o futuro. No fim das contas, não há motivo para pânico.

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