O pior jogo da história: por que E.T. para Atari 2600 foi enterrado no deserto?

Por Victoria Thibes | 29 de Abril de 2014 às 09h35

"E.T., telefone, minha casa". Você não precisa ter vivido os anos 1980 para lembrar dessa frase com nostalgia. Ela é uma das falas mais icônicas do filme "E.T. - O Extraterrestre", do diretor Steven Spielberg, lançado em 1982. O longa, que conta uma história de amizade entre um garoto e um alienígena, foi sucesso de bilheteria e marcou toda uma geração, sendo reproduzido muitas e muitas vezes na televisão aberta.

ET o filme

Se você não viu esse filme, está na hora de correr para a locadora mais próxima.

Por sua vez, o Atari 2600, lançado em 1979, pode ser considerado o precursor do videogame moderno. Ele foi o primeiro console a permitir o uso de cartuchos - antes, o jogo vinha programado dentro do aparelho -, o que deu a programadores a possibilidade de criar games depois do console ser lançado. Pitfall, Enduro, Frogger e River Raid estão entre os seus títulos mais populares.

Ele foi o precursor da geração videogame, permitindo a adolescentes levar os jogos de arcade para casa pela primeira vez. Se antes você precisava ir para o fliperama gastar suas moedas para jogar Space Invaders e Pac-Man, o Atari 2600 permitiu que você o fizesse no conforto de sua sala, horas e horas por dia.

Atari 2600

Obrigado, Atari!

Logo, era de se imaginar que quando alguém misturasse esses dois ícones dos anos 1980, algo grande viria. E foi assim que surgiu o "pior jogo da história".

Mas o que tem de tão ruim?

Se você já jogou algum jogo que veio de filme, série ou desenho, já deve ter se deparado com esse cenário: um game mal feito, que pouco tem a ver com o material original e definitivamente não faz jus ao nome que está levando. Claro, nem todos os jogos licenciados acabam dessa forma, mas muitos passam a impressão de serem apenas produtos baratos feitos para arrancar ainda mais dinheiro da febre do momento.

E E.T. para Atari 2600 foi exatamente isso.

O jogo foi licenciado para o console pelo valor de US$ 21 milhões, o que tornaria necessário vender 4 milhões de cartuchos apenas para recuperar esse valor. Isso sem contar o que seria gasto com o desenvolvimento, distribuição e marketing. Bem, o filme E.T. foi lançado em junho de 1982. As negociações para o jogo terminaram em julho. A ideia era lançar o game até o Natal daquele mesmo ano para aproveitar a temporada e conseguir recuperar o dinheiro investido. E, para que isso fosse possível, o jogo teria que ficar pronto até setembro para que pudesse ser distribuído para as grandes lojas.

Dessa forma, a equipe teve apenas cinco semanas para desenvolver um jogo completo entre design, música, gráficos e testes. O resultado? Uma história fraca, jogabilidade sofrível e bugs, bugs e mais bugs.

O jogo

Em primeiro lugar, é preciso entender como funcionavam os jogos de Atari naquela época: a ideia não era simplesmente abrir a caixa, jogar ela fora, enfiar o cartucho no console e se divertir. Isso até podia ser verdade com alguns títulos, mas não eram todos. Os jogos vinham com manuais de instruções, que explicavam basicamente como funciona o game, qual o objetivo e o que você deve fazer para chegar lá. No caso de E.T., se você não tiver acesso a esse manual, não vai fazer a menor ideia do que está acontecendo.

O jogo começa com o personagem E.T. sendo largado na floresta por uma nave espacial. O objetivo é coletar três peças de um telefone alienígena, que será utilizado para chamar a nave de volta. No topo da tela, em uma faixa rosa, é mostrada uma direção geral de onde se encontra o pedaço mais próximo e na parte inferior um número que indica a energia do personagem. Esse número vai decrescendo com qualquer ação que o jogador realiza e se chegar a zero, você perde uma vida. Ainda, você pode recuperar energia recolhendo "Reese's Pieces" - um chocolate vendido nos Estados Unidos que aparece no filme - do chão.

ET - Início

Essa é a floresta em que o E.T. é largado pela nave espacial.

E.T. - Buraco

Aquele pixel verde escuro no meio é uma Reese's Piece. As outras manchas verde escuras são os buracos onde as peças de telefone podem ser encontradas.

E.T. - Buraco por dentro

Parte interna do buraco com um pedaço de telefone que você deve recolher.

Depois de terminar de montar o telefone, o E.T. deve voltar para a floresta e chamar de volta a nave espacial, que vem dentro de um tempo predeterminado. Em seguida, o jogo recomeça. Você leva a sua pontuação para o nível seguinte, que é basicamente o mesmo mapa com as peças de telefone localizadas em lugares diferentes. Se os pontos acabarem, a energia acaba e o E.T. morre. Depois de três vidas perdidas, o jogo acaba.

É isso mesmo. Não tem história, não tem final e o jogo é basicamente o mesmo mapa sendo repetido diversas vezes sem que a dificuldade mude. E isso não é nem mesmo a pior reclamação do jogo: além de repetitivo, ele é simplesmente frustrante.

Acontece que, se posicionado no pixel errado do mapa, o jogador pode ficar caindo no mesmo buraco várias e várias vezes, até que mude de posição. Então você cai, flutua por cinco segundos até a borda do buraco, cai de novo, flutua por cinco segundos, cai, flutua... Para voltar para um jogo que não faz sentido nenhum. Ainda, depois de colecionar Reese's Pieces e as partes do telefone, você pode ter tudo roubado por agentes do FBI e cientistas que irão ficar perseguindo o alienígena o tempo todo. Daí você procura as peças, cai em um buraco, flutua, cai de novo, etc.

Howard Warshaw, designer do jogo, diz que se tivesse mais tempo, certamente teria mudado algumas coisas sobre E.T. - O Extraterrestre. Em entrevista ao Platypus, ele comenta: "O que eu fiz foi o design de um jogo que poderia ser feito em cinco semanas. [...] Era um jogo completo, funcional e em sua maior parte debugado que era jogado em um ambiente tridimensional com alguns componentes inovadores. Era um game completo, mas o que faltava mais era afinação. Se eu tivesse a chance, a primeira coisa que eu mudaria seriam os buracos. Eu tornaria mais difícil cair nos buracos".

Há quem diga que não, E.T. - O Extraterrestre para Atari 2600 não é, afinal, o pior jogo da história. Se comparado a outros jogos da época, ele não era particularmente ruim: os gráficos eram razoáveis, os sons também e ele era perfeitamente jogável. No final, ele foi sim um dos jogos mais vendidos do Atari 2600, com 1,5 milhões de cópias. Isso ainda garantiu um prejuízo enorme para a Atari, que acabou enterrando milhões de cartuchos não vendidos no deserto. Apesar disso, a coisa toda poderia ser pior.

No entanto, o estrago já está feito. E.T. - O Extraterrestre foi fracasso de vendas diante do esperado pela Atari, teve milhões de cópias enterradas no deserto - lenda confirmada nesta semana - e ganhou a alcunha de pior jogo da história. Esperemos que não venham títulos piores.

Você pode conferir o gameplay completo de E.T. - O Extraterrestre no vídeo abaixo.

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