Software na nuvem: as empresas estão preparadas para oferecer o serviço?

Por Boris Kuszka

Depois de muitos casos de sucesso e aprendizado gerados pelas experiências com a computação na nuvem – seja pública ou privada - está se consolidando como tendência mundial a oferta de software na nuvem, o chamado Software as a Service (SaaS). Webmail em geral e Dropbox foram os primeiros nessa caminhada, mas hoje há muitos outros exemplos. Um clássico é o Netflix, que quebrou o mercado das locadoras e oferece opções de filmes e séries para todos os gostos, on demand. Mas também é possível encontrar cenários semelhantes dentro do ramo de TI: a Microsoft, por exemplo, oferece o seu Microsoft 365 na nuvem.

O impacto da nuvem já era sinalizado pelo Gartner em 2016. Segundo sua consultoria, até 2020 mais de US$ 1 trilhão de dólares dos gastos com TI serão, direta ou indiretamente, impactados pela mudança para a nuvem, tornando a cloud computing “uma das forças mais disruptivas nos investimentos com tecnologia da informação desde os primeiros dias da era digital”.

Ainda segundo o estudo do Gartner, a taxa de mudança para a nuvem até 2020 deve ser de 37% somente no segmento de SaaS. No ano passado, o legado de aplicações de software no setor de cloud Software as a Service respondia por US$ 144 bilhões, com US$ 36 bilhões de mudança total para a nuvem.

Essa alteração de paradigma traz uma série de benefícios. Para o cliente, corresponde a menos preocupações, pois o centro da responsabilidade muda de foco, sendo relegada à fabricante de software. É ela quem precisará de se atentar à instalação, manutenção e atualização de patches, além de tomar todas as medidas para proteger os dados e realizar ações rápidas para corrigir qualquer possível vulnerabilidade que possa surgir.

Para a fabricante de software, as maiores vantagens estão concentradas no valor e proteção do negócio. A crescente oferta de software na nuvem unirá melhores preços e combate à pirataria, pois aumentará a disponibilidade de acesso e melhoria na competitividade do mercado, elevando também o compromisso com a inovação para despertar o interesse do cliente, já que a cobrança será por consumo, e não por licença.

Por outro lado – e para oferecer um ótimo serviço - as fabricantes de software precisam estar preparadas quanto a seis pontos (que variam conforme o tipo de software) para assumir de vez o SaaS. São elas:

  • Local: todo serviço ou software disponibilizado em cloud precisa de um local para processamento e armazenamento dos dados. A capacidade, o custo e a disponibilidade dos recursos são uma grande preocupação. Utilizar um data center próprio, terceirizar com nuvens públicas ou utilizar data centers de terceiros? Talvez um misto: a operação básica rodando em um data center próprio e, nos momentos de picos, ter data centers de terceiros (ou nuvens públicas) para absorver o transbordo. A latência de rede (tempo de resposta) para o tipo de serviço que se quer oferecer importa? Para um servidor de games, por exemplo, a latência é extremamente importante, e não pode passar de 80 milissegundos. Com isso, os servidores precisam estar fisicamente próximos de onde o software será consumido. Ou seja, para o público brasileiro, idealmente ter servidores no Brasil. É necessário avaliar individualmente as necessidades do serviço que será prestado.
  • Performance: a fabricante de software precisa ter atenção à quantidade de processamento para alocar as CPUs. Também é preciso checar a banda de rede (velocidade) e a latência (tempo de resposta). Todos esses parâmetros precisam ser avaliados para se prestar um bom serviço. É o que vai garantir que a troca de informações entre a nuvem e quem está consumindo o software seja rápida e eficiente e, o mais importante, se o consumidor ficará satisfeito com a experiência que terá ao utilizar o SaaS.
  • Segurança: ao ofertar um serviço na nuvem, vários aspectos de segurança precisam ser atendidos: exposição dos dados no seu data center ou em data centers de terceiros (incluindo clouds públicas), para que não sejam copiados; backup dos dados, para que não sejam perdidos, procedimentos e ferramentas para que os dados não sejam sequestrados (cuidados com os ramsonwares); e também a questão de multi-tenancy, onde um mesmo servidor executa workloads de clientes distintos: de forma alguma a carga de trabalho de um cliente pode impactar um outro. Ofertas em servidores apartados e dedicados para garantir a separação de ambientes entre clientes é uma prática tida como um serviço premium.
  • Disponibilidade: especialmente para se montar um SaaS, a infraestrutura precisa ser muito bem pensada, com atualizações automatizadas de patches, níveis corretos de provisionamento e análise de consumo para que o serviço não fique indisponível. Também é importante analisar acessos redundantes de rede, infraestrutura de geradores de energia, UPS e eficiência nos sistemas de refrigeração do data center, por exemplo. É preciso colocar na ponta do lápis se o investimento em um data center próprio se justifica, em detrimento de contratar uma cloud pública (ou mais de uma, já que estamos falando em disponibilidade). Lembre-se de que a ausência de serviço pode significar que o cliente começará a olhar para outro fornecedor.
  • Escabilidade: para atender às expectativas do consumidor é preciso que o software seja “cloud-enabled”, sendo capaz de se adaptar às demandas de forma automática. O crescimento vertical dos servidores - que faz com que seja preciso acrescentar mais CPUs, memória, interfaces de disco e rede para crescer, uma necessidade característica de softwares monolíticos, não adequados a cloud - dá lugar ao crescimento horizontal: softwares baseados em pequenos componentes, desacoplados (chamados de microsserviços) e alocados em linux containers, no formato docker - este sim adaptado à computação em nuvem. A robustez de servidores de grande porte dá lugar a uma arquitetura sólida de software. A resiliência não está na redundância dos componentes de hardware, mas sim em uma arquitetura de software que utiliza servidores padrão de mercado, normalmente servidores de dois sockets (sejam blades ou rack-mounted). A agilidade e os custos controlados, exatamente por não utilizar servidores proprietários, são a chave para conseguir ofertar um SaaS.
  • Inovação: conforme a demanda pelo SaaS cresce, a comparação entre fornecedores será inevitável. Sua empresa estará concorrendo com grupos de pessoas que antes tinham dificuldades para entrar na concorrência, pois os custos para adquirir um data center e toda a infraestrutura necessária eram impeditivos. Como alternativa, hoje existe a possibilidade de se utilizar uma cloud pública. Uma relação que expõe bastante esse paralelo é a dos bancos com as fintechs. Ou seja, podem surgir pequenos que – se sua empresa não estiver bem preparada e imersa nas novas tecnologias – serão capazes de canibalizar o seu negócio.

O consumo de software ou mídia como serviço já é um fato. Por isso, é tão importante que os fabricantes estejam preparados. A inovação esperada em um determinado mercado impacta em todos os outros. Comparações estão sendo feitas o tempo todo. O que uma Google, Facebook ou qualquer grande fornecedora de serviços online cria é referência e reflete o que se espera de qualquer fabricante de software. Se você ofertar qualquer SaaS, será comparado a todas as grandes: a barra está alta.

Vale dizer que a aplicação do conceito de SaaS é possível tanto nos pequenos negócios quanto nos grandes. Deixo como reflexão dois deles: enquanto a Amazon utiliza-se da inteligência artificial para conhecer o perfil do consumidor, um pequeno site chamado iTailor oferece alfaiate virtual com entrega em poucas semanas.