Acredite: os dispositivos vestíveis vão mudar a sua maneira de trabalhar

Por Igor Lopes | 17 de Setembro de 2015 às 08h15

* De San Francisco, Califórnia

Se você acha que o smartphone conectou você ao trabalho 24 horas por dia, 7 dias por semana, é porque provavelmente ainda não usa um Apple Watch ou algum outro dispositivo vestível. Da mesma forma que os telefones inteligentes abriram novas formas de interação entre empresas e funcionários, agora essa nova categoria de produtos está trazendo toda uma nova camada de possibilidades para as corporações.

A Salesforce, quarta maior empresa de software do mundo, está de olho nesse filão - tanto é que, há pouco mais de um ano, criou uma divisão específica para o universo dos vestíveis. É a Salesforce Wear, que fornece uma plataforma de desenvolvimento para que os diferentes negócios construam suas aplicações de forma customizada, promovendo um relacionamento mais agradável com os seus clientes e resolvendo questões particulares de suas rotinas.

lindsey irvine

Para entender mais sobre essa nova realidade e debater o futuro dos wearables no mundo corporativo, conversamos com Linsey Irvine, diretora de Iniciativas Estratégicas da Salesforce. Na entrevista, a executiva comenta algumas aplicações interessantes dos vestíveis nas rotinas das empresas, e avisa: mexa-se agora ou você pode estar fadado ao fracasso.

A Salesforce foi uma das primeiras empresas a investir em soluções para wearables dentro das corporações, certo? Como surgiu essa visão dentro da companhia?

Sim, é verdade. Quando conversávamos com os clientes e executivos, um assunto sempre vinha à mesa: nós sabemos que nossos clientes estão mais conectados do que nunca, existem 4,5 bilhões de perfis em redes sociais, 5 bilhões de pessoas desenvolvendo suas vidas e negócios a partir de um telefone, e agora há toda uma nova categoria de produtos e coisas conectadas. As projeções são de que teremos 75 bilhões de produtos conectados nos próximos anos, e esses clientes costumam se perguntar - e também perguntar para nós - o que fazer com isso, o que isso significa para o negócio deles, como podem tirar vantagem dessas inovações e tecnologias para realmente melhorar o engajamento. Em um estudo da Salesforce com 500 executivos de companhias de todos os tamanhos, perguntamos se eles achavam que a categoria de wearables era só "modismo" ou se era uma prioridade dentro dos negócios. Também perguntamos se caso eles estivessem testando esses novos gadgets, se estavam vendo resultados reais para os seus negócios e se eles pensavam em acelerar a adoção de wearables. 79% disseram que essa era uma prioridade dentro de suas estratégias e 86% disseram que iriam aumentar os investimentos na área nos próximos anos.

Tudo tem a ver com dinheiro, certo? Se a tecnologia traz resultados e ajuda a vender mais, ela ganha respeito dentro da empresa...

Sim. Aí decidimos nos envolver com o tema porque há um grande barulho em torno do hardware e dos devices, mas o gap estava em outro lugar. O que faz os smartphones serem inteligentes? São os apps, certo? Da mesma forma, os wearables sem apps são só devices, não são inteligentes. E não existia nenhuma aplicação escalável em cloud para facilitar o desenvolvimento de apps para uma gama mais ampla de devices. Foi então que lançamos o Salesforce Wear há pouco mais de um ano (junho de 2014) para resolver esse problema e acelerar a adoção de dispositivos vestíveis dentro das empresas. Com isso, derrubamos as barreiras para o ecossistema, para nossos clientes e desenvolvedores e hoje é possível desenvolver apps para uma grande variedade de devices: smartwatches, smartglasses, óculos de realidade virtual... Agora imagine conectar esses devices à plataforma do cliente e rodar apps que melhoram serviços, que direcionam campanhas de marketing, que permitem melhores vendas. Nós criamos a base e entregamos para o ecossistema. Não somos os donos das grandes ideias, são os desenvolvedores que as terão. Já existem 20 apps para o Apple Watch desenvolvidos por nossos parceiros. A mensagem é: quebre as barreiras ou seja atropelado pelo mercado. Não pense "Será que eu preciso desse device?", mas sim "Que problemas preciso resolver? Essa plataforma pode me ajudar a resolver esse problema?".

E qual é o desafio de desenvolver para devices tão diferentes? Eles têm tamanhos variados de telas, formatos diferentes de telas. Como adaptar o app de uma maneira fácil e automatizada para tantos devices que não oferecem uma padronização?

Eu diria que o desafio maior ocorria antes mesmo de nós desenvolvermos a plataforma. Se uma empresa queria desenvolver um app para um wearable, ela precisava percorrer todo o processo: segurança, workflow, UI... Ao fazer para um segundo dispositivo, precisaria começar tudo de novo, do zero. Essa não é uma realidade escalável. Por isso investimos numa plataforma que, com ela, você cria o app uma vez e depois adapta para outros formatos. Assim, você só se foca no final do processo: qual é o melhor insight para aquele momento, qual a informação mais adequada para aquele dispositivo etc.

Antes as pessoas gerenciavam seus negócios a partir de um desktop. Depois, passaram a gerenciar a partir de um smartphone e agora, a ideia é que elas possam fazer isso pelo relógio?

Sim, mas você não fará no relógio tudo o que faz no smartphone. O desafio e a oportunidade é saber expor a informação correta para que a ação adequada seja tomada instantaneamente, economizando 5 minutos que sejam do tempo do seu cliente. Temos o exemplo de uma empresa que está elevando o identificador de chamadas a um outro nível. Imagine um representante de vendas que recebe ligações o tempo todo. Alguém está te ligando e a informação completa é exibida no seu pulso, desde o quão importante aquela pessoa é para você, se ela é um executivo sênior, se é mais junior, se tem questões em aberto com ela, se tem contratos a serem fechados... Quando o vendedor atende, já sabe as oportunidades, o que precisa discutir, e isso acaba representando mais vendas. Um segundo exemplo é o seguinte: quantas vezes já aconteceu de você marcar a visita de um técnico da sua fornecedora de TV a cabo e ter que ficar aguardando horas e horas até ele aparecer? Ao colocar um smartwatch com GPS no pulso dele, será possível que você acompanhe exatamente onde esse técnico está, e se ele vai chegar na sua casa daqui 5 minutos ou daqui 2 horas. E se ele não conseguir resolver o seu problema, pode simplesmente abrir um novo chamado diretamente pelo relógio, que está conectado ao sistema da empresa, e até mesmo agendar uma visita futura com o setor responsável. Tudo em tempo real, sem dificuldades.

Mas aí esbarramos na questão da privacidade, já que o funcionário será monitorado o tempo todo...

Isso traz benefícios para vários setores, inclusive para o funcionário. Se ele for um cara que se exercita muito, pode optar por compartilhar suas atividades físicas com o seu plano de saúde e ganhar um desconto, por exemplo. É claro que a coleta dessas informações precisa passar por um "opt-in", mas se a aplicação é válida para os dois lados, é certeza que ela vai decolar.

google glass

Uso de wearables em campo já é realidade para alguns setores

Ok, estamos falando de casos de sucesso e que ainda são pontuais. Mas, no geral, a adoção está caminhando a passos largos?

Até mesmo setores aparentemente conservadores, como Óleo&Gás, já estão de olho nessa tendência. Imagine os smartglasses em uma indústria onde o funcionário identifica o problema em um encanamento, por exemplo. O processo hoje seria interromper aquela linha de produção, agendar o conserto com o setor responsável (que pode estar em outra cidade ou país) e, enquanto isso, a empresa perde milhões por estar parada até que algo seja feito. Com os smartglasses, o trabalhador local pode capturar uma imagem, enviar para o especialista e ser instruído a distância. O problema, que seria resolvido em uma semana, passa a ser resolvido em uma hora. Isso significa efetividade e menor perda.

E como você vê o uso de wearables nos negócios dentro dos próximos 5 anos?

Tudo vai depender dos casos dos clientes. A criatividade é o limite, na verdade. Você pode imaginar uma rede hoteleira oferecendo esses devices para que os hóspedes se enxerguem em qualquer parte do mundo. Uma companhia aérea que usa os óculos de realidade virtual para que o atendente já te recepcione no check-in pelo nome, com o bilhete em mãos. Se é um cliente VIP, a empresa pode avisar que o voo está atrasado e dar um voucher de desconto no restaurante favorito dele. Tudo depende da criatividade dos desenvolvedores. Precisamos que os clientes digam quais são os problemas, e precisamos de parceiros no ecossistema para criar essas soluções.

* O jornalista viajou a convite da Salesforce

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