Wagner Moura confirma participação em Game of Thrones?

Por Douglas Ciriaco | 18.07.2016 às 15:50 - atualizado em 18.07.2016 às 19:02
photo_camera Foto: Divulgação

Se você clicou no link para ler este artigo antes de compartilhá-lo por aí apenas porque o título parecia interessante, saiba que você faz parte de uma minoria. A internet e as redes sociais transformaram a forma como nos comunicamos, tornando tudo mais ágil e direto, reduzindo a quantidade de intermediários e todo aquele papo que nós já conhecemos. Ao mesmo tempo, porém, a web se tornou um grande palco no qual as pessoas estão mais dispostas a compartilhar um texto do que lê-lo de fato.

Uma pesquisa realizada em parceria entre cientistas da computação da Universidade da Columbia, nos Estados Unidos, e do Instituto Nacional Francês, da França, veio dar números a uma prática da qual os mais atentos já desconfiavam: 59% das pessoas costumam compartilhar links nas redes sociais sem abri-los. Ou seja: seis em cada 10 pessoas passam adiante uma informação que sequer leram.

Eu escrevo na internet desde 2008 e se tem algo que eu de fato aprendi sobre o público que frequenta (especialmente os que comentam) textos na web é de que a maioria de nós é composta por exímios leitores de chamadas. Alguns mais ousados vão até a gravata do texto, outros procuram intertítulos e tópicos, mas a impressão é de que pouca gente de fato se dá ao trabalho de ler todo um artigo.

Por si só isso não é um absurdo. Talvez eu e meus colegas que escrevem na web não tenham uma retórica assim tão sedutora para convencer o leitor a chegar ao final do texto (ou sequer para fazê-lo começar a ler). Mas a coisa se torna um tanto absurda quando temos um costume tão difundido de pessoas fornecendo para outras pessoas informações que elas não sabem direito do que se trata.

Compartilhar

Você lê antes de compartilhar? (Foto: 123rf)

Prática cada vez mais comum

Uma vez, em uma pegadinha de Primeiro de Abril, o site NPR postou no Facebook um link com a seguinte chamada: “Por que os Estados Unidos não leem mais?”. O resultado imediato foi uma enxurrada de comentários na rede social negando a pergunta, dando mil exemplos de que a afirmação sugerida por ela não era uma realidade. A grande ironia é que, ao clicar no link, os leitores se deparariam com o aviso de que aquilo se tratava de uma brincadeira. “Parabéns, leitores genuínos, e feliz Primeiro de Abril”, dizia o texto já em sua primeira linha.

Isso ajuda a ilustrar que não é tão difícil encontrar links de reflexões do tipo feitas há alguns anos. Ano passado, o The Science Post fez algo parecido: debaixo de do título “Estudo: 70% dos usuários do Facebook apenas leem a chamada de notícias sobre ciência antes de comentar”, os editores escreveram um parágrafo “de verdade” e depois preencheram o restante da nova com aqueles textos automáticos Lorem Ipsum. Vários comentadores sacaram a ironia da postagem, mas o texto já passa de 52 mil compartilhamentos e nos leva a questionar quantos deles apenas não reproduziam exatamente o comportamento identificado no “estudo”.

Para finalizar a lista de exemplos, um caso emblemático do começo de 2014, quando o sucesso do site Upworthy gerou um debate público no Twitter sobre a relação entre número de compartilhamento e número de leitores. O site é famoso por montar títulos sensacionalistas com chamadas bem curiosas, que basicamente contam “tudo o que você precisa saber” sobre uma informação (o restante se torna um detalhe irrelevante).

Na época, Tony Haile, o presidente de uma empresa especializada em medir o tráfico de páginas em tempo real, causou um certo choque ao afirmar ter descoberto que “não há, de maneira efetiva, qualquer correlação entre compartilhamentos nas redes sociais e pessoas lendo de fato”. Apesar da afirmação se referir basicamente aos links compartilhados via Twitter, a expectativa é de que o mesmo aconteça também em outras redes sociais, como o Facebook.

Upworthy

Upworthy assume a postura de 'notícias para compartilhamento'. (Foto: Reprodução/Upworthy)

Enfim, indo além da impressão deixada por três casos famosos (e pela experiência de quase uma década convivendo com caixas de comentários), dá para dizer que a coisa fica um pouco mais séria quando pesquisas científicas entram na jogada. Isso faz com o tema perca um tanto daquela aura de “impressão de um escritor (quase) sem leitores”.

Opiniões formadas pelo desconhecido

“As pessoas estão mais propensas a compartilhar um artigo sem lê-lo”, afirma o coautor do estudo citado no início deste texto Arnaud Legout. “Esta é a forma moderna típica de consumo de informação. As pessoas formam uma opinião baseada em um sumário, ou em um sumário de sumários, sem realizar o esforço de ir mais a fundo”, continua o cientista.

"Os nossos resultados mostraram que o compartilhamento e leitura de conteúdo não tem muita correlação", prossegue o pesquisador. "Curtidas e compartilhamentos não são uma medida significativa de popularidade de um conteúdo. Isto significa que os padrões da indústria para popularidade precisam ser repensados", sugere Legout.

Esta reflexão já deveria nos colocar um enorme ponto de exclamação na cabeça, nos fazer acender o sinal amarelo. Em tempos de informações compartilhadas de forma massiva, a ausência de filtro e as práticas do “nem li, mas compartilhei” reforçam algo que supostamente a internet deveria ajudar a combater: a desinformação.

Imagine um cenário em que várias pessoas compartilham informações “suspeitas”, sem verificação da fonte, sem sequer abrir os links para conferir se aquilo faz algum sentido. E vale lembrar que o compartilhamento se dá não somente nas redes sociais, mas também fora delas: quantas pessoas levam para o “mundo real” informações adquiridas em chamadas de links da internet que elas sequer abriram.

Stormtrooper e Chewbacca

Não importa qual o seu lado em um debate: não baseie a sua opinião em links que você sequer abriu. (Foto: Martin Frey/Flickr)

Um grande volume de gente fazendo isso pode criar impressões generalizadas bem equivocadas sobre temas sensíveis. Recentemente, dois casos são emblemáticos na vida política brasileira, como a dos artistas que captaram dinheiro via Lei Rouanet e também sobre quem seria o verdadeiro dono de uma conhecida empresa do ramo da pecuária.

Caçador de compartilhamentos

Junto com as redes sociais, emergiu na internet um tipo de link chamado de “clickbait”, ou “isca de cliques”, em tradução literal. Se você ainda não tinha ouvido falar disso, é fácil de explicar: links que abusam do sensacionalismo apenas para ganhar o seu clique. Normalmente, eles sugerem alguma coisa que não são de fato ou então tentam esconder o cerne da coisa para obrigar você a clicar ali para saber o que é a tal informação preciosa. Como sites da internet vivem de audiência, a razão disso é óbvia.

De uns anos para cá, os títulos caça-cliques evoluíram de forma bizarra para chamadas caça-compartilhamentos. Se avaliarmos a estrutura daquilo que vem se tornando a internet nos dias de hoje, isso tudo faz algum sentido — e o Facebook é o grande fiel da balança. Apesar das informações reduzidas contidas nos títulos (as que nós compartilhamos sem abrir) satisfazerem nosso ego, algo como “vejam como eu estou certo”, elas também podem servir como medida de audêincia.

Cada vez mais, a rede social de Mark Zuckerberg reúne em si vários recursos. Este microcosmo da internet que é o Facebook oferece em um só lugar vários serviços que até então estavam espalhados por toda a rede (blog, vlog, álbum de fotos, bloco de notas, mensageiro instantâneo, jogos online e por aí vai), então não é difícil imaginar um futuro distópico da internet no qual esta medida tenebrosa que são os “pageviews” seja substituída por algo ainda pior: número de curtidas e de compartilhamentos.

Caminhamos para isso? É provável que sim. O sucesso do modelo de negócios do Facebook vai dificultar o surgimento de novas alternativas e, mais do que isso, vai inviabilizar um “retorno às origens” da web 2.0, com o conteúdo estando mais fora do que dentro da rede social. Então, diante de uma atmosfera com ares pré-apocalípticos, o mais coerente a se dizer é também o mais óbvio: leia antes de compartilhar.