Selfies podem ser ferramenta de mudança social, segundo a autora Alicia Eler

Por Ares Saturno | 05 de Março de 2018 às 13h35

Em 2013, a palavra Selfie foi escolhida como palavra do ano pelo Dicionário de Oxford, uma vez que os autorretratos passaram a fazer parte do cotidiano na internet. O fenômeno das selfies dividiu opiniões, sendo uma forma de obsessão com a autoimagem para alguns. Mas o outro lado da moeda mostra que essas fotos têm uma importância social que nem todos enxergam à primeira vista.

Ainda em 2013, quando as selfies estavam bombando, o blog Jezebel publicou um artigo defendendo o ponto de vista que as polêmicas fotos poderiam ser uma espécie de pedido de ajuda por parte de mulheres em perigo. Em resposta a esse texto, a escritora Alicia Eler desenvolveu o artigo As Políticas Feministas das #Selfies, explicando a importância das autofotos no processo de empoderamento feminino, em especial entre as mulheres negras. A crítica social feita por Eler foi chamada de "Semiótica da Selfie" pela revista Wired e deu origem ao livro The Selfie Generation, ainda não lançado no Brasil.

Para Alicia Eler, a selfie é uma forma de combater a invisibilização de grupos minoritários. (Foto: Alicia Eler / BBC)

Visibilidade e poder político andam lado a lado

Não é nenhum segredo que os espaços virtuais de convivência social tiveram um grande impacto na forma como as pessoas consomem conteúdos artísticos, opiniões e informações. Muitos anos atrás, a principal forma de receber informações e se relacionar com o mundo era baseada exclusivamente em áudio, por meio do rádio. As imagens vieram com as revistas e jornais e então, décadas mais tarde, com a televisão.

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Com o conteúdo produzido por empresas de mídia, cabia aos editoriais escolherem quem seria representado e quem ficaria de fora. Criou-se um padrão onde grupos minoritários raramente eram retratados, numa segregação cultural onde a diversidade era praticamente invisível.

Com as redes sociais, quem define o que será visto é o público, por meio de seus likes, inscrições e compartilhamentos. E como pessoas de todos os tipos acessam à rede, nada mais natural que os conteúdos que retratam determinadas realidades recebam a devida atenção por parte de pessoas que se identificam com o que está sendo mostrado na tela. E isso inclui as selfies.

A autoexposição na era da vigilância

Em sua análise, Eler cita os protestos de Standing Rock, ocorridos nos EUA, quando uma reserva indígena foi ameaçada pela empresa Energy Transfer, que desejava desapropriar a terra para a construção de um oleoduto. Ativistas se dirigiram ao local para protestar contra a desapropriação e foram severamente reprimidos pela força policial através de grampeamento de seus telefones. A situação estava cada vez mais tensa quando foi divulgado pelas redes sociais que a polícia estaria controlando a presença de manifestantes no local por meio de check-ins feitos no Facebook. Em solidariedade, mais de um milhão de pessoas ao redor do mundo realizou o check-in em Standing Rock, com intuito de dificultar as coisas para a coerção policial.

Já no Brasil, as manifestações populares que antecederam a retirada de Dilma Rousseff da presidência foram marcadas por selfies que mostravam não apenas os rostos dos manifestantes nas multidões que tomaram as ruas, mas também atestavam a indignação política e insatisfação de todo um povo que desejava maior controle popular frente às ações tomadas por seus governantes.

Manifestante tira selfie durante passeata. (Foto: Reuters)

Segundo Eler, fenômenos como esse acompanham a cultura das selfies e são uma forma de atestar que "eu estou aqui, eu estou vivo e não tenho medo".

Fonte: BBC

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