Por que as pessoas usam o celular e redes sociais de forma excessiva?

Por Eduardo Guedes | 18 de Agosto de 2015 às 12h34

Não faz muito tempo, para falar com alguém precisaríamos ligar para o telefone fixo da pessoa. Conhecíamos as vozes dos pais, irmãos, filhos, marido ou esposa. Tínhamos uma certa disciplina e normas de etiqueta social, pois telefonar muito tarde para a casa de alguém significaria possivelmente acordar a sua família inteira. Tínhamos também um certo planejamento, pois marcar um encontro no final de semana exigia pontualidade no horário e local previamente acordado.

O mundo evolui. E evoluiu rápido. Felizmente. O telefone fixo que antes era patrimônio declarado no imposto de renda deixou de ser a estrela da casa. Cada membro da família ganhou o seu telefone particular. Na verdade, mais do que isso, receberam poderosos computadores de bolso que funcionam como tocadores de músicas, despertador, e-mail, GPS, mensagens instantâneas, câmera fotográfica, gravador entre milhares de outras funções.

Sem dúvida, não podemos negar os benefícios que o avanço das tecnologias de informação e comunicação (TICs) produziram e produzem. Desde as tecnologias mais antigas, como a pintura rupestre, o proposito original sempre foi otimizar o tempo, encurtar distancias ou nutrir as relações humanas. Através do Waze você consegue escolher as melhores rotas, fugir do transito e otimizar o seu tempo; com o WhatsApp você compartilha momentos com fotos e emoticons enviados para a sua esposa e filhos; e através das redes sociais se comunica com pessoas distantes com quem não falaria normalmente no dia a dia.

O curioso é que estas mesmas tecnologias que aproximam pessoas distantes, se mal utilizadas, também distanciam pessoas próximas, prejudicam o tempo e servem como gatilho de problemas relacionais. Na verdade, o problema não é a tecnologia em si ou o tempo que você dedica, mas sim o uso abusivo e a forma com que se relaciona com a tecnologia. A esposa que briga com o marido pela mensagem que foi lida, mas não foi respondida naquele mesmo instante; a família que mal conversa entre si durante os almoços de domingo pois cada um prefere ficar mergulhado no mundo particular de seus dispositivos e apps; e as horas de sono perdidas em navegações intermináveis madrugada adentro no mural do Facebook.

O mundo das tecnologias é mesmo muito convidativo, benéfico e transformador, mas pode se tornar um universo raso, de muitas interações e pouca profundidade e também palco de fuga ou idealizações.

Assim como aconteceu com a chegada do jornal, o rádio e a televisão, a internet está atualmente transformando o hábito da sociedade. Em paralelo a vida real há uma sociedade virtual, movida por meio das novas tecnologias. Em função disso, as pessoas também estão vivendo vidas paralelas: uma real e uma virtual. Através da internet, elas adicionam novos amigos, namoram, compram, trabalham, ganham dinheiro, pesquisam, estudam, escrevem mensagens no lugar de bilhetes ou cartas. O problema é que muitos agem como se tivessem de fato duas personalidades, o que na verdade é uma ilusão. A vida virtual é uma extensão da vida real e não um substituto ou alternativa.

O mecanismo do prazer vivenciado através de redes sociais estimula uma determinada área do cérebro conhecida como córtex cerebral e ativa um sistema de recompensa equivalente a se alimentar, dormir, praticar sexo, ganhar dinheiro etc. O uso abusivo destas tecnologias ativa o mesmo sistema neurobiológico estimulado no consumo de álcool e drogas, liberando no corpo substancias como dopamina que geram uma sensação de prazer. Entretanto, na prática, o usuário abusivo começa a lentamente substituir as relações na vida real pelo mundo virtual e passa a ter um comportamento repetitivo em busca das mesmas sensações de prazer vivenciadas anteriormente.

Em outras palavras: falar de si mesmo gera prazer. Nas conversas normais uma pessoa usa em torno de 30% do tempo para falar de si próprio. Nas redes sociais este indicador sobe para 90%, com possibilidade de um feedback instantâneo, pois muitas pessoas curtem ou comentam a foto ou mensagem publicada. Entretanto, pesquisas indicam que mais da metade dos usuários ativos de redes sociais se consideram mais infelizes do que os seus amigos virtuais, pois substituem as relações na vida real pelo mundo virtual e vivem uma história editada que não conseguem sustentar no dia a dia. No Facebook e Instagram, não existe crise financeira nem problemas conjugais, todos tem dinheiro, o emprego dos sonhos, o casamento perfeito, viagens maravilhosas etc.

Vivemos realmente tempos barulhentos. Nossa cultura ensina que é preciso produzir sempre mais como indicador de sucesso ou felicidade. Dentro deste contexto, precisamos postar, compartilhar numa tentativa de gritar ao mundo o desejo de pertencimento e alimentar a satisfação do próprio ego. Nos casos mais graves, as redes sociais passam a ser um palco sombrio de fuga ou idealização em uma peça de teatro inventada, mas que sempre terá plateia cheia.

Um paciente do Instituto Delete substituiu o vício do cigarro pela dependência das redes sociais. Ao constatar que estava com enfisema pulmonar em grau intermediário recebeu a orientação do médico de parar de fumar imediatamente e assim começou um tratamento bem-sucedido para largar o vício. Entretanto, descobriu um novo prazer ao navegar em jogos de redes sociais, como a Farmville, gatilhando de outra forma seu transtorno de ansiedade. Passou a dedicar muitas horas do dia em colheitas intermináveis e aos poucos ia se tornando um respeitado fazendeiro virtual. Entretanto, para sustentar esse status, era necessário cumprir algumas tarefas virtuais ao longo do dia. A dependência se tornou tão grande que passou a negligenciar a vida real, como levar o cachorro para passear ou mesmo cuidar da própria casa. Quando a conexão de internet da sua casa caia de madrugada, ele ia até a lan house para manter a sua fazenda virtual e realizar as colheitas que o jogo demandava. O paciente teve alta após realizar sessões de tratamento no Instituto Delete com terapia cognitiva-comportamental que incluía mudanças nos padrões de pensamento e técnicas de respiração, além do uso de medicamentos para transtorno de ansiedade.

Vale destacar ainda prejuízos no campo físico como alteração no padrão do sono, tendinite nas mãos e desvios na coluna em função do excesso de digitação e postura inadequada ao utilizar os dispositivos eletrônicos.

Precisamos silenciar um pouco e usar o virtual em prol do real. Usar sim a tecnologia, mas resgatar o seu propósito original de nutrir as relações humanas, encurtar distâncias e otimizar o tempo. É preciso trabalhar em dois eixos: no tratamento e na prevenção.

O primeiro eixo (tratamento) envolve capacitação de médicos e psicólogos por todo o Brasil (já que se trata de um tema novo e pouco divulgado), divulgação de transtornos relacionados ao uso abusivo das tecnologias (já que muitas pessoas não procuram ajuda pois desconhecem o problema) e por fim, a ampliação de programas e centros de tratamento pelo Brasil. O segundo eixo (prevenção) é mais lento, porém mais eficiente a longo prazo. O conhecimento e educação são as ferramentas mais importantes neste processo.

Esse papel é essencialmente de 4 entidades: família e educadores no nível do indivíduo; governo e instituições privadas no nível da sociedade através de campanhas de responsabilidade social. Embora ainda seja insipiente no Brasil, já é uma tendência no mundo e começamos a ver no Brasil algumas iniciativas isoladas em prol da conscientização. Acredito que, num futuro próximo, as próprias empresas de tecnologia, fabricantes de aparelhos ou operadoras de telefonia financiarão programas de conscientização com campanhas de uso digital consciente e descarte eletrônico consciente, financiados através de projetos com lei de incentivo fiscal. Assim como a Petrobras financia o projeto Tamar ou a própria Vale financia projetos de reflorestamento, é preciso educar a sociedade, criando regras de etiqueta social das tecnologias e devolvendo ao planeta de alguma forma os prejuízos causados pelo uso abusivo das tecnologias.

Além de tratamento e pesquisa científica, o Instituto Delete também desenvolveu palestras e programas de conscientização e capacitação onde detalhamos algumas regras de etiqueta no mundo virtual. Selecionamos abaixo algumas dicas preciosas:

  1. Ao dormir, deixe o celular desligado, no silencioso ou longe de seu alcance. O sonambulismo digital pode ser um sintoma de uso abusivo da tecnologia.
  2. Silencie o celular durante as refeições. Respeite as pessoas que estão do seu lado, valorize o momento presente e privilegie as relações ao vivo.
  3. Evite usar o celular em lugares públicos e apertados como no elevador ou transportes coletivos. A sua conversa é individual e não precisa ser compartilhada com outras pessoas. Contribua para construir ambientes mais harmoniosos e reduzir a poluição sonora.
  4. Celular na direção pode causar acidente e até a morte. O risco de mandar mensagens pelo celular no volante equivale a dirigir após tomar 4 copos de cerveja.
  5. Faça uma limpeza nos seus contatos de redes sociais. O número de amigos virtuais ou curtidas em sua página não é indicador de sucesso ou popularidade.
  6. Revise as políticas de privacidade. Garanta que suas postagens sejam divulgadas apenas para pessoas seu círculo pessoal. Evite que detalhes da sua família ou vida pessoal sejam acessadas por qualquer pessoa.
  7. Crie horários específicos para navegar no Facebook e defina limites de tempo. Garanta um maior controle sobre a tecnologia antes que ela domine você. Use a disciplina a seu favor.
  8. Desabilite as notificações de recebimento de mensagens no WhatsApp. O recebimento de mensagens desvia o foco nas coisas que você está realizando e diminui a capacidade de concentração e atenção, prejudicando trabalho, relacionamentos ou estudo.
  9. Se a mensagem não for para o grupo, envie diretamente para a pessoa. Evite exposição desnecessária e problemas de comunicação com falsas interpretações.
  10. Atenção para a postura e movimentos repetitivos ao usar mídias digitais. Estudos indicam que o uso excessivo das mídias digitais como celular ou tablet tem causado obesidade, hérnia de disco, problemas na coluna e lesão por esforço repetitivo.
  11. Garanta a higienização com frequência do seu aparelho celular que passa por diferentes lugares e pelas mãos e bocas de diferentes pessoas. Cientistas alertam os riscos da falta de limpeza do aparelho celular, que tem cerca de 10 vezes mais bactérias do que a sola de um sapato ou o dobro de bactérias de um banheiro.

Clique aqui e veja se você é um dependente digital. No site do Instituto Delete, você também encontra dicas sobre uso consciente das tecnologias.

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