MasterChef Junior traz debate sobre abuso sexual na infância para o Twitter

Por Durval Ramos | 23.10.2015 às 12:14 - atualizado em 23.10.2015 às 12:57

O que tinha tudo para ser apenas um programa estrelado por crianças acabou ganhando contornos bastante polêmicos graças a interações de mau gosto nas redes sociais. Logo na estreia de MasterChef Junior, em que crianças disputam o título de melhor cozinheiro aos moldes do popular reality show, vários comentários sobre uma das participantes reacenderam o debate sobre pedofilia e o abuso que muitas meninas sofrem quando ainda são apenas crianças. E o resultado foi bem chocante.

Tudo começou quando vários usuários do Twitter comentavam a participação de uma das garotas, de apenas 12 anos, no programa. E, em meio à torcida e às tradicionais piadas, algumas pessoas começaram a discutir sobre sua beleza. Só que as mensagens não pararam por aí e logo começaram a surgir citações com conotação sexual de muitos adultos, seja com insinuações ou mesmo de maneira bem mais direta e agressiva.

Em entrevista ao site iG, o pai da menina contou que já imaginava que iria acontecer algum tipo de assédio ou coisa parecida, mas a realidade trouxe uma proporção bem maior e mais impactante do que ele esperava. Segundo ele, ninguém acreditava que iriam surgir tarados nas redes sociais desejando uma criança de apenas 12 anos e muito menos que eles iriam interagir diretamente com o perfil criado para a garota. O mais assustador, porém, foi que algumas dessas menções pediam para que mandassem fotos nuas.

MasterChef Polemica

Não demorou para que o absurdo logo explodisse no Twitter e também no Facebook. Pessoas indignadas com esse tipo de comportamento começaram a denunciar os usuários que estavam claramente abusando da participante, mesmo que no ambiente virtual. Mensagens bastante explícitas sobre "é ou não pedofilia", "já aguenta" e outros comentários de mau gosto começaram a ser divulgadas ao lado de textos de repúdio a esse tipo de comportamento.

A revolta e a repercussão disso tudo foi tão grande que até mesmo grandes empresas se posicionaram. A Band, emissora responsável pelo MasterChef Junior, emitiu uma nota de repúdio a todo esse material e disse que o intuito do programa é destacar as habilidades das crianças na cozinha e que não há nenhum tipo de provocação a esse tipo de estímulo. Além disso, em nota ao site Exame, o Twitter afirmou que baniu todas as contas envolvidas no escândalo.

A voz dos oprimidos

Só que a história não para por aí. Em meio à discussão sobre o assunto e às mensagens revoltadas, muita gente surgiu para defender os comentários pedófilos, afirmando que eram apenas brincadeiras e piadas típicas da rede social e que não deveriam ser levados a sério. Porém, abuso sexual é um caso muito sério e se torna ainda mais grave quando falamos de crianças. E foi aí que a internet se uniu para mostrar o quanto isso é grave e, pior, comum.

Na rede de microblogs, centenas de mulheres se reuniram em torno da hashtag #PrimeiroAssedio para escancarar como esse tipo de postura é comum, antigo e absurdamente nocivo. O assunto chegou aos trending topics nesta quinta-feira (23) e chocou todo mundo com os relatos apresentados por elas.

Todas as mensagens contavam como essas mulheres sofreram algum tipo de abuso quando ainda eram apenas meninas. Seja de um colega na escola que passou a mão onde não devia ou daquele vizinho que comentou sobre o quanto elas "cresceram", os relatos são bastante chocantes, ainda mais quando você se depara com desabafos que falam sobre aquele tio que as acariciavam de um jeito estranho ou mesmo completos desconhecidos que as abordavam com um interesse claramente sexual.

E, como se não bastasse, muitas das mensagens ainda explicitavam outro ponto crítico nesse tipo de situação: a culpabilização da vítima. Na grande maioria dessas histórias, as garotas contavam para o pai ou a mãe o que aconteceu e eles sempre brigavam com a criança, afirmando que a culpa era da roupa usada ou do jeito como ela chamava a atenção dos outros, ou apenas riam e viam graça na "brincadeira".

Porém, como a hashtag deixou mais do que claro, esse tipo de coisa não é algo tão simples assim. Basta ver o quanto cada um desses episódios marcou as envolvidas a ponto de ser lembrado como uma experiência traumática muitos anos depois. Mais do que isso, esse pensamento de "é assim mesmo" ou "aconteceu porque você pediu" é algo que vai se perpetuar e chegar também à fase adulta, quando os mesmos argumentos passam a ser usados para "justificar" — com muitas aspas, por favor — um estupro. E, em alguns casos, a mulher vai realmente acreditar nisso.

Engajamento em outros meios

Além disso, a polêmica envolvendo os comentários de pedofilia e a própria hashtag #PrimeiroAssédio serviu também para que outros meios e vozes fossem ouvidas sobre o assunto. A Unicef, por exemplo, entrou na campanha e ajudou a divulgar os relatos que as mulheres faziam no Twitter. Mais do que isso, ela ressaltou que não apenas o primeiro, mas todos os outros assédios são ofensivos e que, quando isso acontecer, as envolvidas devem denunciar.

MasterChef Polemic

Outras vozes também se juntaram ao coro. No Facebook, outras histórias surgiram — algumas ainda mais impactantes. O blog As Mina na História, por exemplo, voltou a debater essa cultura do estupro ao resgatar vários casos de garotas que, assim como a menina do reality show, despertaram o interesse de homens mais velhos. Só que, nesses episódios, a interação não se limitou apenas a comentários em redes sociais. Em todos eles, as garotas foram vítimas de abuso sexual e mortas.

Alguns artistas também escancararam esse tipo de comportamento existente na sociedade a partir de desenhos. O mais impactante deles é da desenhista Báia Agridulce, que ilustra bem como muitas dessas mulheres se sentem diante desse tipo de coisa, mesmo na internet.

A cultura do estupro

Só que não estaríamos falando de internet se não houvesse um pessoal disposto a causar polêmica. Mesmo diante de toda a repercussão e o impacto do caso, alguns usuários usaram o Twitter para fazer piada da campanha sobre o primeiro assédio. Segundo muitas dessas mensagens, ou as mulheres estavam inventando as histórias para chamar a atenção ou, mais uma vez, só foram assediadas porque estavam "pedindo por isso".

Polêmica MasterChef

Outro movimento bastante assustador em meio a essa resposta ao #PrimeiroAssédio foi o de algumas pessoas que duvidavam da veracidade dos relatos porque as garotas eram "feias demais para isso". Isso remete à outra polêmica um pouco mais antiga, quando o humorista Rafinha Bastos fez uma piada exatamente sobre isso, em 2011, afirmando que o estupro contra mulheres feias não é um crime, mas uma "oportunidade" e que o estuprador não deveria ser preso, mas "receber um abraço".

Na época, as críticas a Bastos foram imensas, mas o anonimato da internet garante aos demais um pouco mais de "segurança" para que esse tipo de opinião distorcida seja propagado. Tanto que uma página surgiu apenas para defender quem "elogiava" a participante do MasterChef.

Em um texto sobre a "demonização da sexualidade", o blog Foco Cristão reforça a cultura do estupro de diferentes maneiras, a começar por considerar a garota como "uma mulher adulta de 12 anos". Segundo a postagem, ela foi "alvo de elogios e brincadeiras por zoeiros" e toda a polêmica nascida disso feita por "moralistas odiadores de sexo" e ignorantes.

MasterChef Polemic

O discurso do site apela para um viés meramente biológico, afirmando que uma "mulher" de 12 anos já pode ter filhos e, por isso, é "natural" que os homens se sintam atraídos. Porém, isso ignora completamente o viés psicológico da questão, no qual as meninas ainda não estão preparadas para entender e muito menos para receber esse tipo de tratamento agressivo.

Prova disso está no Twitter. Basta parar alguns minutos para ler os vários relatos do #PrimeiroAssédio para entender o quanto esses comentários marcam negativamente as mulheres e elas vão levar isso para o resto da vida. É algo traumático e qualquer pessoa com o mínimo de empatia é capaz de perceber isso a partir das histórias compartilhadas.

Como o desenho de Agridulce escancara, uma mulher não precisa ter medo de porcos ou monstros. Para elas, o homem já é assustador o suficiente.

Via: R7, Brasil Post, Exame, iG, Vitor Teixeira (Facebook), Revista Fórum, Carta Capital, Foco Cristão, As Mina na História, Agridulce (Facebook)