Jogar demais na internet faz mal?

Por Eduardo Guedes | 30 de Junho de 2017 às 12h40
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Recentemente recebemos no Instituto Delete no Rio de Janeiro a jovem M.P. de 21 anos que ficava mais de 10 horas por dia em jogos na internet. Ela chegou acompanhada de sua mãe e tinha o corpo franzino, aparentando 10 anos para menos, provável reflexo da falta de exercícios, alimentação desbalanceada e pouca exposição ao sol em uma idade que seria natural o desenvolvimento físico e transformação do corpo.

M.P. tinha o olhar bastante expressivo, estava calma e era muito bem articulada. Primeiro conversamos informalmente e, em seguida, aplicamos o questionário de avaliação da dependência, para então fecharmos o diagnóstico e orientações junto a psicólogos e psiquiatras do Instituto.

Normalmente, ela se alimentava ao lado do computador para evitar interrupções, dormia sempre muito tarde, tinha ardência nos olhos e dores nas articulações das mãos, provável consequência das excessivas horas conectadas. Sua pele também estava com algumas feridas, possível indício de elevado cortisol e adrenalina. O uso compulsivo da internet prejudicava as suas notas na faculdade e uma possível vaga de estágio que tanto almejava.

M.P. não se considerava dependente e nem se sentia sozinha, pois considerava que o jogo on-line era uma forma de conhecer outras pessoas e vencer a própria timidez. Ela tinha muitos amigos virtuais e até um namorado que nunca encontrou presencialmente. Entretanto reconhecia que usava demais a internet e entendia que poderia ter problemas no futuro, mas não no presente.

Afinal, jogar demais na internet vicia e faz mal? Essa era a dúvida de sua mãe que recorreu ao Instituto para obter orientações de como proceder.

Primeiro, precisamos relativizar o assunto. Jogar muito na internet não significa necessariamente dependência, mas pode representar um comportamento abusivo se o virtual atrapalhar o real. A dependência acontece quando há um nível de perda de controle e existem instrumentos adequados para medir isto, além obviamente a própria análise clínica.

Ambos os casos precisam de orientação de um especialista, mas geralmente a dependência está associada a um transtorno primário (ansiedade, pânico, depressão, TOC etc) e exige um tratamento mais direcionado. Utilizamos terapia cognitiva, técnicas de respiração e de ressignificação, além da intervenção com medicamentos nos casos mais graves.

A intenção não é proibir o uso de jogos, mas transformar o usuário compulsivo em um usuário consciente.

Como fazer isto?

É importante definir limites de horário nos dispositivos e ocupar esse novo tempo que passará desconectado por novas atividades na vida real, substituindo aos poucos o mecanismo de recompensa virtual por gratificações na vida real.

A psicologia positiva explica que a felicidade está apoiada em coisas que te proporcionem sentido, pertencimento e realização. Um jogo proporciona sentido (expectativa de pular de fases, ganhar prêmios), pertencimento (interação com outros gamers) e realização (satisfação ao ganhar recompensas e reconhecimento da comunidade).

Da mesma forma, o exemplo de cuidar de cachorros pode ser um poderoso aliado no combate a ansiedade ou depressão, pois também proporciona sentido (comprar ração, alimentar, dar banho), pertencimento (levar para passear ou ir ao veterinário e interagir com outras pessoas) e realização (afeto e carinho que os pets distribuem).

Mas M.P. não queria diminuir o tempo que dedicava aos jogos, pois ela sentia prazer naquilo que fazia e tinha dificuldade de encontrar sentido em outras atividades. Ao mesmo tempo, considerava que a internet ajudava a "vencer" a sua timidez e permitia socializar com muitas pessoas. A mesma internet que ajuda na socialização virtual, quando usada de forma abusiva, também aumenta a timidez e o desprezo pelas relações na vida real.

A internet funciona como um escudo, pois permite uma exposição controlada onde você define quem você é, com quem, quando e como falar. O terreno da nossa idealização é sempre mais fértil e prazeroso do que a vida real, pois possibilita que a nossa imaginação construa uma realidade fantasiosa que gostaríamos de viver. Porém sem o contato na vida real, jamais será possível enxergar a altura, ouvir o tom da voz ou identificar traços de personalidade que apenas o convívio real será capaz de revelar. Assim como também usualmente acontece com o típico exemplo da frustração ao assistir um filme cujo livro você já leu.

É necessário estar atento a alguns padrões de comportamento associados a compulsão de jogos on-line. Em geral comportamentos abusivos (álcool, games, internet etc) podem esconder uma tentativa de se esquivar da realidade muitas vezes associada com o hábito da procrastinação.

O problema é que nosso cérebro é programado para construir hábitos, sejam bons ou ruins. Explico: quando passamos a fazer uma atividade, no modo piloto automático, economizamos a energia que eventualmente gastaríamos nesta ação.

Por isso, precisamos reprogramar estes hábitos através da identificação e substituição dos gatilhos e recompensas que criaram este padrão de comportamento. Exemplificando: ao acordar, M.P. liga o computador e fala com os seus amigos virtuais. O gatilho é acordar e a recompensa é a socialização, pertencimento. Ele pode substituir o ato de ligar o computador por dar uma volta no quarteirão com o cachorro ou ir a padaria com o seu pai, que permitiria a socialização com pessoas no mundo real.

Abaixo, compartilho algumas dicas preciosas que podem ajudar a lidar no dia a dia com esta questão:

  1. Evite jogar muito tarde ou antes de dormir. Comece a desconectar 2 horas antes de dormir. O corpo precisa desacelerar e a internet gera um efeito estimulante. Procure atividades que relaxem antes de ir para cama como ouvir uma musica mais calma, ler um livro, conversar com alguém ou mesmo ver televisão.
  2. Observe os seus hábitos durante um dia e tente descobrir quais são os gatilhos e recompensas que despertam a vontade de jogar (antes de dormir, depois do colégio etc). Aos poucos, você pode substituir estes momentos por novas atividades que também despertem a sensação de satisfação que você tem ao jogar
  3. Priorize atividades na vida real como ir ao cinema, encontrar os amigos ou passear com a família.
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