Feministas chinesas usam emojis para burlar censura local

Por Patrícia Gnipper | 03 de Abril de 2018 às 09h28

No mês de março, pouco depois do Dia Internacional da Mulher, as ativistas feministas do grupo Feminist Voices na China tiveram suas vozes caladas no Weibo (rede social local que substitui o Twitter). Com mais de 180 mil seguidores, o grupo, que era um dos mais importantes do movimento feminista chinês, foi removido da plataforma.

Para piorar, algumas horas depois o chat coletivo do grupo no WeChat (que faz as vezes do WhatsApp por lá) também foi encerrado abruptamente. Como justificativa oficial, as administradoras receberam a informação de que seus grupos violavam termos de uso, sem detalhes específicos, e fica, agora, a suspeita de que a intensa censura chinesa esteja, de fato, reprimindo essas ativistas no país.

A única imagem compartilhada no WeChat do Feminist Voices que pode, de alguma forma, justificar o banimento teria sido uma fotografia mostrando ativistas mascaradas promovendo um funeral simbólico do grupo no Weibo. Ainda assim, esse tipo de imagem não seria considerado, por elas, grave o suficiente para justificar tal ação.

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Para uma das fundadoras do grupo (que hoje vive nos Estados Unidos e usa o Twitter), a medida teria sido uma investida da censura chinesa para coibir a disseminação de ideais feministas no país, que vêm sendo difundidos especialmente nas áreas urbanas e campi de universidades – justamente graças ao alcance e poder das redes sociais. Para ela, o governo chinês pode estar enxergando o feminismo como uma ameaça a seu regime político.

Onde os emojis entram na história

Então, para continuar difundindo suas ideias, membros do grupo têm usado combinações de emojis para se comunicar. Exemplo: quando a hashtag #MeToo se popularizou globalmente, servindo para que mulheres fizessem denúncias de assédio sexual por parte de homens, especialmente em ambientes de trabalho, em vez de usar a tag com essas palavras (o que poderia render censura rapidamente), as feministas decidiram compartilhar seus relatos atrelados a dois emojis – um mostrando um pote de arroz, e outro com um coelho. "Arroz" e "coelho", em chinês, são pronunciados como "mi tu", de maneira similar à pronúncia de "me too" (o que significa "eu também", em português).

Os emojis que, combinados, significam "mi tu", em alusão à campanha #MeToo (Imagem: Wired)

Mas a ideia de começar a usar emojis para driblar a censura chinesa não começou com o #MeToo, ou o "mi tu". Já faz alguns anos que ativistas estão preferindo falar sobre determinados assuntos ao combinar emojis cujo significado ou pronúncia passem a mensagem desejada, sem que seja preciso digitar um "a" a respeito.

Outro exemplo do tipo, lembrado por Meg Jing Zeng, que faz pós-doutorado na Alemanha e, portanto, pode falar livremente a respeito, mostra uma ofensa direta ao governo chinês. Ativistas estavam usando nas redes sociais a combinação dos emojis que representam uma grama, lama e um cavalo. Traduzindo o nome desses ícones, a coisa fica como um "f** your mother" (ou "f** sua mãe"), com o "mãe", no caso, significando o Partido Comunista, tido como a "mãe" do povo chinês.

Para Zeng, "as pessoas estão sempre ficando melhores em burlar a censura, mas a tecnologia em prol da censura também se tornou mais sofisticada". Segundo Xiao Meili, ativista dos direitos para as mulheres na China, as investidas contra os discursos de seu movimento nas redes sociais vêm ficando mais intensas após o encerramento do Feminist Voices. "Sinto que o ambiente do Weibo se tornou muito extremo, é tudo ou preto ou branco".

Contudo, na visão de Leta Hong Fincher, autora do livro Betraying Big Brother: The Feminist Awakening in China (Traindo o Big Brother: O Despertar Feminista na China, em tradução livre), o movimento atual nas universidades parece ser grande demais para que o governo o contenha completamente. "Há uma resiliência extraordinária no movimento feminista", diz ela, que também acredita que "o governo chinês não pode eliminar movimentos em prol das mulheres nesta era de conectividade global".

Fonte: Wired

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