Div.Tech: Como as criptomoedas estão mudando o cotidiano de populações da África

Por Ares Saturno | 15 de Janeiro de 2018 às 17h17
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Como estreia das matérias do div.Tech, que abordará, em publicações quinzenais, a diversidade e como as pessoas diversas se relacionam com a tecnologia, faremos aqui uma análise de como o modelo de economia descentralizada das criptomoedas está mudando o cotidiano da população de Uganda, no leste da África.

Colonizada a partir de 1800 pelos britânicos e independente desde 1962, a Uganda teve uma história recheada de opressões e conflitos sangrentos. Com o General Yoweri Kaguta Museveni como presidente desde 1986, a população de mais de 34 milhões de habitantes é considerada um dos povos mais pobres do mundo, apesar do lento crescimento econômico que o país registra nos últimos anos. Tal dificuldade econômica se dá devido às guerras prolongadas, corrupção no governo e ausência de reformas econômicas.

O que mais fere a autonomia econômica do povo ugandense é a severa falta de empregos no país. Mesmo indivíduos com formação acadêmica avançada encontram dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e recorre às atuações informais, o famoso bico. E esse desemprego tem papel fundamental na relação que as pessoas de Uganda estão desenvolvendo com as criptomoedas.

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Uma forma de lucro e de mobilidade financeira

Peace Akware, uma mulher de 33 anos que faz parte da classe-média de Campala, capital de Uganda, é uma das pessoas afetadas pelas altas taxas de desemprego no país. Ela encontrou nas transações de Bitcoins uma oportunidade de obter renda suficiente para o seu sustento e vê oportunidade de juntar lucro o suficiente para comprar um carro e um terreno em sua cidade. "Eu checo meus bitcoins diariamente e em toda oportunidade que eu encontro", diz ela. Peace definitivamente não é o perfil de investidora que costumamos imaginar. Vivendo em uma pequena quitinete alugada na periferia da capital, ela tentou ganhar a vida vendendo roupas usadas, o que não gerava renda suficiente para os gastos básicos de sobrevivência. Mas assim como muitos ugandenses, a negociação de criptomoedas se tornou uma alternativa viável de sustento para ela.

De vendedora de roupas usadas a investidora

Quem investe em criptomoedas em Uganda está longe do estereótipo caricatural do jovem adulto que quer enriquecer rapidamente sem se esforçar muito. Em regiões como de Lagos, Nairobi e Joanesburgo, não é raro ver pessoas comuns fazendo transferências de quantias entre países usando as moedas digitais.

Empresas como a BitPesa oferecem taxas muito menos onerosas (e abusivas!) que as taxas cobradas pelas instituições controladas pelos governos ofertam à população. Elizabeth Rossiello, CEO da companhia, conta sobre o contexto que faz com que a população africana busque romper os relacionamentos com os bancos mainstream: “Eu fui a Nairobi em dezembro, pois tinha três compromissos bancários a resolver. Em todas as três operações nos três diferentes bancos quenianos foram canceladas por motivos diversos, ou atrasaram ou necessitavam de informações adicionais. Demorei duas semanas e meia para resolver as transações. E sou uma especialista nessa área”. 

Um novo perfil de investidores

Nem só de investidoras como Akware é formado o novo perfil africano de entusiastas do Blockchain. David Yen, diretor de parcerias estratégicas globais da BitPesa, atende ao perfil diverso de investidores do leste da África, principalmente no que diz respeito a clientes de grande porte. De origem pobre, o taiwanês se juntou à plataforma mundial de intercâmbios AIESEC com muito entusiasmo e quase nenhum dinheiro no bolso. Acabou viajando pelas Filipinas, Índia, Japão, alguns países da Europa, até chegar no Quênia, onde hoje ele desenvolve seu conhecimento em Estratégias Organizacionais e Gerência de Equipes junto à BitPesa. Na empresa, suas atribuições são entender os movimentos do Blockchain para desenvolver mecanismos que previnam perdas de dinheiro de grandes clientes, como é o caso da exportadora de carros japoneses usados Be Foward.

David Yen representa a identidade diversa dos investidores africanos entusiastas do Blockchain


Antes de utilizar os serviços da BitPesa, a companhia japonesa tinha muitas dificuldades de enviar quantias de dinheiro para seus parceiros do Quênia e de Uganda, devido às taxas abusivas cobradas pelas instituições financeiras. Através das soluções apresentadas, as necessidades da Be Foward e de seus parceiros africanos foram atendidas: "A vantagem em usar os serviços de transferência da BitPesa é que as taxas são muito menores comparadas aos outros serviços disponíveis. Após alguns procedimentos simples, em poucos minutos é possível transferir dinheiro das nossas contas para as contas de nossos clientes", segundo relato que consta no blog da empresa.

Como lidar com a novidade?

Com o novo sistema monetário, surgiu a necessidade de se aprender como o Blockchain opera e entender como obter lucro através da nova ferramenta. Foi pensando nessa nova demanda que o até então comerciante Martin Serugga começou a dar cursos semanais sobre investimentos em criptomoedas. Hoje ele atende mais de 50 pessoas interessadas em aprender a investir por semana.

O tweet de Serugga acima reproduzido diz que  “As trocas comerciais são o motor que transfere a riqueza no mercado financeiro”. Em seu site, ele afirma que a alavancagem das criptomoedas podem trabalhar em favor dos investidores ou contra eles. O que vai garantir que você esteja no lado certo dessa inequação é o conhecimento, segundo o pensamento de Serugga. Por esse motivo, ele atua como consultor independente, fornecendo informações sobre o sistema monetário digital e investimentos no mercado de criptomoedas ao povo de Campala e regiões próximas.

Um dos problemas enfrentados por Serugga é que cresce o número de investidores ugandenses que procuram exchanges de outras nações para transferências e também para consultorias. Ele alerta a população sobre a importância de se informar com alguém que tenha conhecimento sobre a realidade da economia local, além de fornecer também educação financeira mais básica, incentivando as pessoas a não investir seus recursos, muitas vezes já escassos, em transações de risco ou não investir dinheiro que vá fazer falta à subsistência.

O sucesso das aulas sobre investimentos em criptomoedas trouxe não apenas uma forma de sustento para Serugga, mas também uma profissão. A adesão do povo ao método de ensino do ex-comerciante só é possível devido ao desemprego no país: "Se você não tem empregos em fábricas e não tem empregos no mundo corporativos para atender aos milhares de jovens que saem das universidades, esta é uma alternativa", conclui ele.

Com informações da BBC

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