Campanha reúne depoimentos de assédio e abuso em corridas do Uber no Brasil

Por Patrícia Gnipper | 31 de Agosto de 2017 às 09h22

A Uber vem se envolvendo em uma série de escândalos recentemente, incluindo denúncias de assédio e bullying em seus escritórios nos Estados Unidos, além de relatos de estupro cometido por motoristas em vários países do mundo. O mais famoso deles aconteceu na Índia, sendo que um ex-executivo da companhia chegou a ser demitido por ter obtido, de maneira ilegal, os registros médicos da vítima. Aqui no Brasil, relatos de que a qualidade do serviço vem caindo pouco a pouco pipocam constantemente nas redes sociais, mas um caso de estupro dominou o noticiário nesta semana.

Clara Averbuck, escritora de 38 anos, publicou em seu Facebook que foi estuprada por um Uber em São Paulo, quando estava voltando para casa depois de ter bebido umas a mais. O caso percorreu os quatro cantos da internet, trazendo à tona o assunto do assédio e abuso sexual cometido por motoristas de serviços de transporte de passageiros contra mulheres. O resultado foi a criação da hashtag #MeuMotoristaAbusador, que já reúne diversos depoimentos do tipo nas redes sociais.

Casos vão de cantadas a ameaças

Apesar de o estupro cometido contra a escritora ter acontecido em uma corrida com o Uber, a hashtag já reúne depoimentos de diversas mulheres que sofreram violência sexual também em outras modalidades, como os táxis, pedindo ou não a corrida por meio de um aplicativo, como o 99.

Entre os relatos, que crescem a todo instante, estão denúncias que vão desde cantadas aparentemente inofensivas, como “você é muito bonita”, até investidas físicas, como passadas de mão nas pernas das passageiras, ou, até mesmo, o impedimento de abrir a porta enquanto não desse atenção para o abusador. Algumas mulheres contam que passam números falsos de telefone para o motorista liberar a abertura da porta; já outras, que não puderam evitar que o motorista as chamassem pelo WhatsApp (já que o Uber, por exemplo, dá acesso ao número de celular do passageiro para o motorista caso haja necessidade de contato), contam que receberam cantadas e até ameaças pelo mensageiro.

Confira alguns relatos preocupantes, que evidenciam não somente uma falta de treinamento dos motoristas por parte das empresas que os contratam, como também escancara a cultura do estupro, o machismo e a violência naturalizada contra a mulher:

LGBTs também enfrentam problemas

Além de mulheres cissexuais, o público LGBT também passa por situações no mínimo desconfortáveis com certa frequência ao andar por aí de táxi ou usando apps de transporte. No ano passado, ao realizar uma corrida com um táxi chamado por aplicativo, passei por uma situação complicada somente ao defender o lado de travestis que estavam trabalhando na rua. Quando passamos por uma rua do centro de São Paulo onde há "pontos" de travestis oferecendo programas, o motorista disse que "esses gays não se dão ao respeito e depois acham ruim que apanham".

Não concordando com seu ponto de vista, respondi que não eram gays, e sim travestis se expondo à violência provavelmente por não terem outras opções de trabalho. Então, ele começou a ficar nervoso, dizendo que trabalhava nas ruas há vinte anos, e que "eles gostam" de estar ali. Novamente, corrijo o "eles" por "elas", e pergunto se ele daria emprego a uma travesti. Prontamente, ele respondeu "eu não, nunca, onde já se viu?". Foi quando eu respondi somente um "então..." para que ele começasse a dirigir visivelmente nervoso, aumentando a velocidade do carro e me deixando com medo de algum tipo de represália. Nesse momento, pedi para ele encerrar a corrida, dizendo que tinha mudado de ideia e que desceria ali mesmo. Acabei finalizando meu trajeto a pé.

Conversamos com pessoas transexuais, que relataram problemas com corridas com o Uber que vão desde a insultos proferidos pelos colaboradores durante a conversa até a realização de trajetos de maneira diferente da indicada pelo GPS do aplicativo, a fim de fazer a corrida sair mais cara no fim das contas. Uma entrevistada lésbica, que pediu para não ser identificada, relatou o seguinte problema, também com o Uber:

Praticamente um cárcere privado de curta duração

É injusto, mas todo cuidado é pouco

Com o andamento da campanha, muitas mulheres têm compartilhado ideias e sugestões de como elas podem garantir, ao menos um pouco mais, sua segurança enquanto estão realizando corridas em carros da Uber ou táxis por aí.

Entre as dicas, estão:

  • Nunca entrar em um carro cuja placa seja diferente da informada pelo aplicativo. Já aconteceu comigo de chegar um carro com uma placa diferente, e, quando questionei, antes de entrar no carro, recebi a resposta “é que estou usando o carro de um amigo, o meu quebrou”. Pode até ser verdade, mas preferi cancelar a corrida, pagar a multa e pedir que a Uber reavaliasse a cobrança pelo fato de o carro que chegou à minha casa ser diferente do informado pelo app.
  • Ao entrar no carro, esperar o motorista confirmar o seu nome antes de fechar a porta, pedindo, também, para ele iniciar a corrida no app ainda com a porta aberta. Isso evita que você entre em um carro que esteja se passando por Uber, e também impede que o motorista decida levá-la a outro destino, sem registrar o início da corrida no aplicativo.
  • Vale tirar um print da tela do aplicativo, mostrando os dados do motorista do momento, e enviá-lo para uma pessoa de confiança enquanto estiver realizando a corrida. Assim, caso aconteça qualquer problema, um amigo, amiga ou parente poderá acionar a Uber ou as autoridades caso você não consiga fazê-lo.
  • No Uber, compartilhe o seu trajeto com algum de seus contatos. Dessa forma, a pessoa poderá acompanhar, em tempo real, onde você está durante a viagem.
  • Se souber o caminho para onde estiver indo, sempre prefira indicá-lo ao motorista, em vez de simplesmente deixá-lo usar o GPS. Isso mostra que você sabe onde está e como fazer para chegar ao seu destino, e evita que motoristas mal-intencionados façam um trajeto diferente por acreditar que você não conhece o caminho. Já caso não saiba fornecer as coordenadas, vale abrir em seu smartphone o Google Maps, ou qualquer aplicativo do tipo, e verificar o trajeto sugerido antes de iniciar a corrida. Sempre deixando claro ao motorista que você sabe exatamente onde está e para onde deseja ir.

Motoristas mulheres também sofrem

A violência de gênero é tão presente em nossa sociedade que até mesmo motoristas mulheres que escolhem trabalhar com o transporte de passageiros passam por situações de assédio e abuso. Falando especificamente do Uber, apesar de a maioria de seus colaboradores serem do gênero masculino, um número crescente de mulheres vem se tornando motoristas do aplicativo, e já existem alguns relatos publicados em grupos no Facebook em que elas denunciam terem sido vítimas de assédio por parte de passageiros homens.

Como esses grupos são fechados ou secretos na rede social, não podemos publicar os relatos nesta matéria, mas tivemos acesso a alguns desses conteúdos, e, entre os divulgados, boa parte das motoristas que já se viram frente a um assediador contam que eles pedem seus números de telefone. A resposta costuma ser padrão, dizendo que elas não são autorizadas pela empresa a fornecer seus números particulares. Ainda assim, vários passageiros deixam seus cartões de visita com elas, na esperança de obter algum tipo de contato.

Outros relatos denunciaram tentativas de contato físico forçado, sendo que pelo menos uma motorista, que não pode ser identificada, precisou chamar a polícia para retirar o passageiro de seu carro. Além de assédio, há também relatos de passageiros que usam drogas dentro do veículo.

Apesar de tudo, a Uber não está de braços cruzados

A Uber tem centros de atendimento para seus motoristas e passageiros, que são responsáveis por analisar casos envolvendo cobranças indevidas, acidentes, assaltos, brigas e assédios. Quando um motorista abre um chamado relatando algum problema, essas centrais entram em ação para solucionar a situação o mais rápido possível, com atendimento que funciona 24h.

Mas, voltando aos relatos de assédio sofrido por motoristas mulheres do aplicativo, a empresa tem como procedimento padrão tomar as medidas necessárias com relação ao passageiro que cometeu o ato, sendo que ele pode ser banido permanentemente da plataforma. Por isso é extremamente importante que a motorista faça a denúncia para a empresa tomar as medidas cabíveis e penalizar o passageiro infrator, da mesma forma que passageiras que passaram por maus bocados com motoristas do serviço devem denunciá-los.

A Uber costuma afastar os motoristas que agem de maneira que vá contra suas políticas (e neste link podemos conferir o Guia de Conduta para motoristas e usuários), mas somente as vítimas podem registrar uma ocorrência com as autoridades e abrir um B.O, se assim desejarem. A companhia também fornece o suporte necessário à motorista que foi assediada, incentivando a abertura de um boletim de ocorrência nas delegacias especializadas.

Em nota oficial, a companhia esclareceu que “acreditamos na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra a mulher”, e acredita que “as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e, além disso, têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro”. A companhia ainda fez questão de dizer que “a missão da Uber é justamente esta: oferecer, ao simples toque de um botão, uma opção de mobilidade acessível e eficiente para seus usuários, sejam eles homens ou mulheres, ao mesmo tempo em que oferece uma oportunidade de geração de renda para milhares de pessoas”.

Parceria com a revista CLAUDIA e apoio da ONU Mulheres

Em março de 2017, a Uber firmou uma parceria com a revista CLAUDIA, contando com o apoio da ONU Mulheres, para lançar uma campanha de prevenção ao assédio para ajudar motoristas parceiros a compreender o lado das passageiras mulheres, ajudando-os a lidar melhor com as situações do cotidiano. Como parte da campanha, a companhia produziu uma cartilha digital e um vídeo, que foram enviados a todos os motoristas, com informações e cuidados que devem ser tomados para coibir situações de assédio.

A cartilha foi transformada em uma edição impressa, e milhares de exemplares estão sendo distribuídos nos mais de 70 centros de atendimento da Uber no Brasil. Além disso, centenas de motoristas participaram de sessões informativas presenciais em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife sobre o tema, aprendendo um pouco mais sobre machismo, feminismo e o espaço que a mulher ocupa na sociedade.