Amor em tempo de crush e emoticons

Por Eduardo Guedes | 12 de Agosto de 2017 às 10h05

Ricardo está deitado em sua cama em pleno dia 12, enquanto procura seu novo amor deslizando os dedos na tela de seu smartphone. Na terceira página, encontra a foto de Marcela que aparece sorrindo no meio de uma paisagem na praia. Ricardo analisa as fotos e clica em enviar um crush. Mais abaixo, ele visualiza a foto da Janaina que está a menos de 500 metros de distância, segundo o aplicativo. Janaina tem 32 anos, é arquiteta e adora viajar. Tem uma tatuagem, um cachorro e um sobrinho, e gosta de ouvir Pink Floyd. "Essa é meu número", pensou Ricardo que logo em seguida enviou um crush para Janaina. Marcela, seu primeiro crush, corresponde à mensagem e então abre-se uma janela para os 2 conversarem. Ricardo começa a escrever para Marcela enquanto Janaina não corresponde. Depois de 3 minutos de conversa, Ricardo recebe um crush de outra menina e começa a digitar para ela ao mesmo tempo.

Crush é um termo da língua inglesa que significa “esmagamento” ou “colisão”, na tradução literal para o português. No entanto, também é normalmente utilizada no sentido figurado, se referindo a um sentimento de paixão ou paquera por alguém. O termo é usado nas redes sociais: A Renata é meu ex-crush no Happen...ela é demais...

Se você ainda não sabe do que se trata, atualmente existem alguns aplicativos como Tinder ou Happen que se dedicam a facilitar o processo de marcar encontros entre potenciais casais.

Ate ai, nada demais, se considerarmos a evolução da História e sociedade: sempre existiram amigos “cupidos” dispostos a abrir sua rede de contatos para unir novos casais, ou agências de matrimônios para pesquisar potenciais parceiros, ou ainda os casamentos arranjados que alguns pais promoviam acreditando que sabiam escolher qual o melhor partido para suas filhas. Também vale mencionar toda a preparação para uma festa, de penteados de cabelo até a escolha da roupa, do decote a maquiagem. Sem falar no jogo da sedução, que as pessoas conscientes ou inconscientemente utilizam para atrair a atenção do seu flerte.

Enfim: desejar um amor, e usar mecanismos para atrair o parceira(o) ideal, são comportamentos muito antigos. Afinal, o que mudou?

Tinder, Happen e outros afins permitiram eliminar a barreira de abordar uma pessoa ou iniciar uma conversa com alguém até então desconhecido. Os próprios emoticons permitem aos mais tímidos escrever uma sensação sem precisar pensar ou digitar a mensagem. Um coração, uma carinha sorrindo são suficientes para demonstrar afeto virtualmente. Através do aplicativo, você tem o controle da situação, pois não precisa sair de casa para atrair novas oportunidades, e estatisticamente aumentaria as suas chances de encontrar o homem ou a mulher dos seus sonhos. Muitos casais que começaram virtualmente hoje estão casados na vida real e dividem o mesmo espaço físico, além das próprias telas de smartphone.

Atualmente, a maneira para estabelecermos relacionamentos de alguma forma utiliza internet e redes sociais, seja com o propósito de conhecer ou ainda de se comunicar. Logo, se por um lado, os aplicativos permitem resolver algumas questões, precisamos parar para pensar nos efeitos colaterais das novas tecnologias, não com o propósito de evitá-las (já que é inevitável), mas sim com a intenção de estabelecer um relacionamento saudável com estas novas mídias.

Primeiro, é necessário contextualizar quão verdadeira e coerente é a sua identidade virtual. No meio digital, as pessoas escolhem as melhores fotos, os melhores ângulos e atividades que nem sempre correspondem a sua rotina ou preferências da vida real.

A primeira impressão, isso não deveria ser um problema, pois preferimos compartilhar os melhores momentos. Entretanto, não conseguimos sustentar isso na vida real e podendo gerar angústia, tristeza, ansiedade e frustração.

Em geral, no meio virtual, as pessoas reproduzem uma versão melhorada ou recriada de si mesmo, já que a persona digital pode superar limitações da sua persona real. Por isso, é comum vermos as pessoas mais decididas, questionadoras, atiradas e assertivas, pois a internet funciona como um escudo que permite se proteger socialmente.

Também não conseguimos capturar elementos essenciais como o tom da voz, o jeito de andar, cheiro, humor e traços da personalidade (timidez, extrovertido etc) que somente um encontro na vida real poderia proporcionar com todos os sentidos.

Ao mesmo tempo, o relacionamento virtual tem um componente maior de idealização, pois já nasce com o conhecimento completo da sua ficha de hábitos e preferências, como música e filme preferidos, viagens realizadas, esportes que pratica etc, e quem nem sempre retrata a realidade do cotidiano. Se por um lado, isso significa encurtar o caminho para atrair parceiros potenciais, por outro lado, perde-se o prazer da descoberta e, principalmente, a legitimidade de conhecer verdadeiramente o outro. Conhecemos uma pessoa a partir da sua essência, da sua forma de se relacionar com os outros, da sua maneira de pensar, das suas escolhas. Duas pessoas que já viajaram a Índia não são necessariamente zen ou praticantes de yoga.

Por fim, vale mencionarmos que relacionamentos sustentáveis e duradouros precisam de profundidade, tempo e dedicação. Aplicativos como o Tinder ou Happen reduzem a elegibilidade do parceiro (a) a fotografias previamente escolhidas (e possivelmente editadas), estimulando a idealização da alma gêmea e relacionamentos líquidos e superficiais. Basta um novo clique e você encontra um (a) novo(a) parceiro(a).

O amor jamais poderá ser catalogado nem no analógico ou no digital, pois existem fatores subjetivos muito maiores do que qualquer algoritmo matemático poderia criar. Não existe um problema em utilizar estes aplicativos, mas deve haver a consciência das suas limitações e a certeza de que o virtual não substitui o real, especialmente em se tratando de afetividade.

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