Como a forma que você navega na internet mostra sua maneira de pensar

Por Redação | 12.02.2015 às 09:39

Imagine a cena: você senta diante do computador para fazer uma pesquisa para um trabalho acadêmico sobre espécies marinhas. Logo, encontra diversas imagens do mar e então, de repente, essa água toda te faz lembrar a forte chuva que caiu ontem no final da tarde. "Será que o nível de água da represa subiu?".

Em um segundo você deixa o artigo de lado e começa uma busca rápida sobre a atual situação da crise hídrica no Twitter, mas, no topo da sua timeline, aparece um link para a lista dos filmes da DC Comics que serão lançados até 2020 – que você ainda não teve tempo de ler por inteiro. Então você para e dá uma olhadinha nos títulos, se depara com "Batman V Superman: Dawn of Justice" e lembra que o Aquaman já está com presença confirmada no longa. “Putz, o trabalho...”. Logo você lembra o objetivo inicial e retoma as pesquisas.

Este é um exemplo de como ficamos dispersos enquanto navegamos pela web, mas também revela algo importante: a forma como pensamos – no caso do exemplo acima, uma maneira geek de pensar. Atualmente, existe uma infinidade de ferramentas que nos permitem compartilhar diversas coisas que encontramos na Internet. Do Evernote ao WhatsApp, os recursos disponíveis para guardar ou passar adiante os resultados de nossas pesquisas são muito eficientes. Porém, eles não nos ajudam a lembrar como nós os encontramos e quais os “links mentais” que fizemos para chegar onde queríamos.

Metacognition

Em 1945, Vannevar Bush, um dos precursores da World Wide Web, apontou como essas "vias de acesso" são importantes.

Em seu ensaio intitulado "As We May Think", Bush praticamente previu a Internet ao descrever um dispositivo capaz de auxiliar a memória humana, providenciando os meios para organizar informações associadamente. O "Memex" seria capaz de exibir documentos e imagens em uma tela e permitir a criação de hyperlinks entre eles.

O que realmente intrigava Bush era a oportunidade de compartilhar sua "trilha" – os passos que você deu para ir de um documento a outro. Para ele, isso seria diferente de compartilhar apenas o resultado de uma pesquisa. Isso porque, ao dividir com os demais o processo que o levou até tal resultado, o indivíduo também estaria compartilhando detalhes invisíveis de como sua mente trabalha. "Há uma nova profissão de Trail Blazers, aqueles que encontram prazer na tarefa de estabelecer trilhas úteis através da enorme massa de registros comuns", escreveu Bush em "As We May Think".

O jornalista Clive Thompson, da revista Wired, fez um comparativo entre a ideia original de Bush e uma ferramenta experimental baseada nela. Trata-se de uma extensão para o Google Chrome criada pela startup neozelandesa Twingl e intitulada "Trailblazer".

O recurso cria mapas em forma de teias de aranha para rastrear toda a sua atividade online, permitindo que o usuário reveja, revisite e compartilhe esses caminhos – muito além do que um histórico padrão de navegador, que apresenta informações mais horizontais.

Trailblazer

Imagem: Reprodução (Trailblazer)

Em sua página, a equipe de criação do Trailblazer expressa bem a proposta de sua ferramenta – que ainda está em fase de testes – ao dizer que eles estão criando um mundo onde possamos dizer: "eu vou te enviar tudo o que sei sobre isso", da forma mais verdadeira possível.

Isso é o que os psicólogos chamam de metacognição, a capacidade de saber como nós pensamos. Como, por exemplo, ter uma habilidade e saber explicar como ela é realizada. O Trailblazer é capaz de fazer uma espécie de raio X da nossa própria atividade mental, diferente das citações acadêmicas, que nunca conseguem capturar a natureza associativa de como fizemos tal pesquisa.

Aplicação na educação

Para que isso aconteça no dia a dia acadêmico, é necessário encontrar uma forma dos alunos explicitarem as modalidades de seus pensamentos, dessa forma será possível compartilhá-las com os demais. O mesmo acontece com os educadores, que podem mostrar aos alunos como conseguem fazer associações e chegar aos resultados almejados.

Na verdade, o Trailblazer nasceu para ser utilizado no setor da educação, criando mapas dos sites que os alunos entraram durante uma busca específica. A ideia é manter a pesquisa organizada, em vez de deixar os alunos perdidos em um mar de abas abertas no navegador.

Os professores também têm acesso a esse mapa para definir se determinado aluno está realmente se empenhando na pesquisa, ou está focado somente na Wikipedia, por exemplo. Dessa forma fica mais fácil saber quais orientações dar, de acordo com o raciocínio seguido individualmente por cada um.

Essas "trilhas mentais" são como farelos de pão deixados ao longo da estrada, pois elas podem nos levar de volta ao nosso estado mental de quando começamos a desenvolver determinada atividade.