Projeto Gemini: Toda a tecnologia usada pelo filme para rodar a 60 FPS no cinema

Por Felipe Demartini | 07 de Outubro de 2019 às 09h20

Para os gamers, a expressão “60 FPS” (ou 60 quadros por segundo) é lugar-comum. É ela que indica um patamar ideal de performance gráfica na contagem de quadros por segundo exibida em um jogo. É a garantia de fluidez nas imagens e precisão nos combates, uma característica necessária, principalmente, para os games disputados em e-sports, em que monitores de alta fidelidade e periféricos de qualidade completam um conjunto focado na performance. E, agora, essa ideia está sendo aplicada ao cinema.

Projeto Gemini, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (10), é um feito maior do que apenas seus trailers e sinopse indicam. A presença do astro Will Smith enfrentando ele mesmo, só que mais jovem, é apenas a cereja de um bolo que o diretor Ang Lee pretende entregar aos espectadores no que vem chamando de uma “inovadora experiência cinematográfica”. Para isso, ele usará a tecnologia batizada de 3D+, que mistura o já conhecido efeito tridimensional com uma técnica de filmagem com altíssima contagem de quadros.

Não é como se Lee fosse um novato quando o assunto são as ideias inovadoras. Quem assistiu O Tigre e o Dragão, As Aventuras de Pi ou até Hulk, com seu roteiro questionável, mas acompanhado de invencionices técnicas, sabe muito bem disso. Em Projeto Gemini, entretanto, ele se coloca na vanguarda de uma tecnologia que promete mudar as coisas, principalmente quando o assunto são os filmes de ação, com cenas épicas de combate ou porradaria franca entre dois protagonistas igualmente habilidosos, separados apenas pela idade.

A ideia, de acordo com Ben Gervais, supervisor de tecnologia da produção, é transportar o público para dentro da ação de uma forma que só pode acontecer na tela de cinema. É justamente por isso que, mais do que um filme, a Paramount Pictures - estúdio responsável pelo longa - vem tratando Projeto Gemini como uma experiência e enaltecendo o caráter técnico que acompanha a presença não apenas de Smith, mas também de outros astros como Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen e Benedict Wong, que estão presentes no filme.

Mudando conceitos

Muita gente torce o nariz quando se fala em cinema 3D. O formato, que ganhou notoriedade com Avatar, de James Cameron, mas depois voltou a ser mais do mesmo, tomou conta das salas de todo o mundo. O problema é que o filme de Cameron foi todo idealizado com o 3D em mente, diferente do que vemos na maioria das vezes, com os filmes apenas sendo "convertidos" e ficando muito aquém do esperado.

Essa ideia acompanha também uma necessidade da indústria, que, diante de uma queda do público, viu no 3D uma alternativa para manter os lucros com ingressos mais caros e a promessa de uma experiência diferenciada, mas que, como apontam os críticos, não adiciona nada de verdade. Os filmes convertidos para o 3D tomaram os cinemas, mas o resultado, normalmente, são salas despreparadas e escuras, com películas que se tornam ainda mais difíceis de se assistir com os óculos, além de um cansaço mental sempre presente.

Projeto Gemini deseja passar longe dessa concepção, mas, mais do que isso, pode chegar para a mudar a ideia de que o 3D é uma tecnologia ruim e caça-niqueis. E o segredo está, justamente, na filmagem feita com uma maior contagem de quadros por segundo (HFR, ou High Frame Rate na sigla em inglês) e na altíssima resolução das câmeras usadas por Lee, que produziu o longa em 4K e o filmou a 120 FPS.

Ang Lee filmou Projeto Gemini a 120 FPS e com resolução 4K, garantindo maior nitidez e detalhes de imagem (Imagem: Divulgação/Paramount)

Nos cinemas, isso vai resultar em um filme rodando a 60 FPS, o primeiro da história a chegar às telas com essa contagem. Quem assistiu à versão de O Hobbit com 48 quadros por segundo deve saber mais ou menos o que esperar, mas agora estamos nos aproximando do triplo do padrão costumeiro das telas, além da promessa da Paramount de exibir uma revolução.

O menor cansaço ocular se dá, justamente, pela maior contagem de quadros por segundo, enquanto o resultado visual se torna impressionante pela quantidade de detalhes. A 60 quadros, é possível notar mais detalhes do cenário e até mesmo as pequenas partículas que se espalham durante as explosões que acontecerão ao longo de boa parte do filme.

De acordo com Bill Westenhofer, supervisor de efeitos especiais de Projeto Gemini, a tecnologia traz para a visão do espectador elementos que, na projeção tradicional, seriam apenas borrões na tela. É claro, isso também exigiu um cuidado aprimorado de todos os setores da produção com o que aparece na tela, mas também fez com que Lee mudasse sua forma de trabalhar.

Desafios adicionais

Em Projeto Gemini, a maior ameaça para o agente Henry Brogan é ele mesmo, só que em uma versão mais jovem (Imagem: Divulgação/Paramount)

Filmando a 120 quadros por segundo, o diretor não apenas tem de prestar mais atenção no que está acontecendo no filme e em todos os elementos dispostos na imagem, mas também pensar em novas maneiras de apresentar as cenas. É por isso que, como os trailers já demonstram claramente, teremos grandes closes, combates filmados bem de perto e muito jogo de câmera para transportar quem assiste para dentro das cenas de ação.

Ao trabalhar em Projeto Gemini, Lee decidiu se impor barreiras adicionais, que tornam todo esse trabalho detalhista ainda mais complexo. Não, o Will Smith jovem que você vê na tela não passou pelo processo de rejuvenescimento que se tornou frequente em Hollywood e pôde ser visto, por exemplo, aplicado a atores como Michael Douglas e Robert Downey Jr. em longas recentes do Marvel Studios.

Pelo contrário, o que veremos nas telas é uma recriação em computação gráfica do ator nos tempos em que ele ainda era lembrado como o astro de séries clássicas como Um Maluco no Pedaço e blockbusters como Independence Day. É um personagem digital, pura e simplesmente, mas os produtores garantem que a tecnologia, aqui, é tão arrojada quanto o próprio 3D+ e os espectadores não saberão a diferença entre o Smith digital e o real.

Will Smith não foi rejuvenescido digitalmente; sua versão mais jovem em Projeto Gemini foi totalmente criada em CGI, com base na interpretação do ator (Imagem: Divulgação/Paramount)

Claro, o próprio ator participou da criação de ambos os personagens, emprestando sua atuação à sua versão mais jovem e gravando todas as cenas usando o já conhecido aparato de captura de movimentos. Depois, entretanto, era trabalho dos especialistas em efeitos visuais e dos computadores criarem um personagem digital que soasse verossímil e, principalmente, detalhado o bastante para não destoar em um mundo gravado a 120 quadros por segundo.

Assim como a ideia da alta contagem de quadros significando performance, esse também é um processo bem conhecido pelos fãs dos games, usado para dar vida aos personagens realistas dos principais títulos do mercado. Também não é novidade no cinema, claro, mas dá para dizer que essa tecnologia jamais apareceu com esse nível de fidelidade e, principalmente, colocada diante do público dessa forma.

Tudo para garantir que a história de Henry Brogan, um assassino de elite que se vê na mira de um outro agente que conhece todas as suas habilidades e prevê seus movimentos por ser, na verdade, ele mesmo, brilhe nas telas. O combate de Smith contra Smith é o principal mote de Projeto Gemini, que estreia no Brasil em 10 de outubro de 2019.

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