Por que demorou tanto para os filmes da Marvel ficarem bons? Nós explicamos

Por Claudio Yuge | 06 de Outubro de 2019 às 12h10
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Quem assiste aos filmes do Marvel Studios atualmente talvez não saiba ou não se lembre como o início dessa jornada foi difícil. Antes de 2008, quando saiu o primeiro Homem de Ferro, a Casa das Ideias já havia falhado miseravelmente nos anos 70, 80 e 90, com péssimas versões de Capitão América, Demolidor, Thor, Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, entre outros — apenas a cultuada série do Hulk fez relativo sucesso.

Com X-Men, em 2000, foi dada uma nova largada para as adaptações, pois os efeitos especiais e os criadores já compreendiam melhor como traduzir para o cinema o que aqueles personagens faziam e significavam nas revistas — afinal, diferente da geração anterior, eram cineastas e produtores que cresceram lendo histórias em quadrinhos.

Assim, os filmes passaram a encaixar mais em gêneros: X-Men virou ficção científica com Bryan Singer; Homem-Aranha se tornou comédia de ação com Sam Raimi; e Hulk foi encaixado como drama em duas oportunidades: com Ang Lee (2003) e com Louis Leterrier (2008).

Vamos falar a partir desse segundo, para mostrar como o Marvel Studios precisou errar, aprender com isso e também criar novos caminhos.

O Incrível Hulk (2008)

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Mesmo saindo no mesmo ano que o tão bem-sucedido Homem de Ferro, ainda não havia um planejamento concreto de Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês). O próprio CEO Kevin Feige admitiu que a possibilidade de um universo compartilhado saiu de uma brincadeira nas cenas-pós créditos do longa de Stark.

Então, embora já houvesse uma semente plantada, o filme do Hulk ainda tentava se encaixar em algum gênero existente. Hoje sabemos que o mix de comédia com ficção científica faz parte do DNA do MCU porque foi o Homem de Ferro que definiu esse novo “gênero super-herói”. Mas o longa de Letterier sofreu porque não conseguiu encontrar uma voz própria — nem para si, menos ainda para o Gigante Esmeralda.

Para completar, Edward Norton se sentiu maior do que Bruce Banner/Hulk e quis aparecer mais do que deveria. Foi com Mark Ruffalo que tivemos uma Banner mais cruel do que seu alter-ego. E foi com ele que também vimos mais das várias facetas do Verdão.

Thor (2011) & Thor Dark World (2013)

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Aqui, em dois momentos distintos, temos o verdadeiro início do MCU. Foi com Thor que toda a equipe de produção começou a pensar em uma identidade visual que não “brigasse” com o tom mais cru e pé-no-chão de Capitão América e com a ficção científica e aventura do Homem de Ferro. Era preciso encontrar esse épico de fantasia medieval sem deixar de lado a sci-fi e o mundo “real” terrestre.

Some a isso a dificuldade inicial de Chris Hemsworth em assumir o manto do Deus do Trovão. Ele demorou a compreender o personagem à sua maneira — diferente de Tom Hiddleston, que, de cara, foi emprestando mais carisma a Loki, que, vejam só, deu tão certo que ele ganhou projeção e se tornou até mesmo um anti-herói.

Foi em Thor: Ragnarok que Hemsworth encontrou a melhor versão do personagem e a manteve mais dinâmica, assim como todos os Hulk de Ruffalo ou o Capitão América de Evans.

Homem de Ferro 2 (2010) e 3 (2013) 

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

O segundo Homem de Ferro foi o terceiro filme do Marvel Studios. Nele, você enxerga como a produção ainda estava ligada aos gêneros de longas das décadas passadas. A estrutura narrativa tinha a mesma fórmula que deu errado em anos anteriores, com uma história que não é generosa com todos os personagens — algo bem diferente do que vemos atualmente, pois a Casa das Ideias aprendeu a valorizar suas propriedades intelectuais no cinema.

No terceiro já havia uma certa conexão com as outras histórias — o primeiro Vingadores tinha sido lançado há pouco tempo. Mas o Marvel Studios teve bastante dificuldade em negociar os pagamentos de Robert Downey Jr., que passou a pedir cada vez mais, pois ele sabia de sua importância.

Assim, Feige basicamente “isolou” o Homem de Ferro 3 do MCU, pois teve que ceder parte da produção e até o controle criativo da história, como parte do contrato com Downey Jr. O resultado foi um fracasso e o ator decidiu deixar a trama toda mesmo na mão do Marvel Studios — que ali aprendeu também a não mais negociar termos fundamentais do roteiro.

Vingadores: A Era de Ultron (2015)

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Aqui falamos em um estágio diferente, em que o MCU já estava em pleno andamento e com a Saga do Infinito engatilhada. Feige aprendeu que, para contar o que vimos em Guerra Infinita e Ultimato, não poderia ceder mais nada para as equipes de produção que viriam na sequência. Foi por isso, por exemplo, que Edgar Wright deixou Homem-Formiga.

Joss Whedon, embora tenha tido um bom relacionamento com Feige em Vingadores, reclamou muito da intervenção do CEO do Marvel Studios, que impôs algumas cenas. Essas sequências faziam sentido para a Saga do Infinito, mas não tinham pé nem cabeça no roteiro original. Isso irritou bastante o diretor, o que é visível no resultado final.

Capitã Marvel (2019)

(Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

A adaptação de Carol Danvers fez bastante sucesso, mas, ainda assim, não deixou de apresentar algumas limitações técnicas, principalmente na narrativa. Grande parte da história da própria personagem não foi contada, em prol do que precisávamos saber sobre o MCU, para manter o público ligado na Saga do Infinito e no que virá depois.

Além disso, Brie Larson precisou viver duas diferentes caracterizações da heroína que havia acabado de assumir, em um pequeno espaço de tempo e com pessoas que já estavam “no bonde” há muitos anos. Esse estranhamento e falta de ritmo são visíveis, tanto no próprio filme da Capitã quanto em sua participação em Vingadores: Ultimato.

Ou seja, uma agenda mais bem organizada e produções sem tanta “pressa” poderiam ter ajudado Brie a se dar melhor na pele de Danvers — o que deve acontecer na continuação.

Como dá para notar, Feige e sua equipe no Marvel Studios continuam aprendendo, afinal, eles criaram um novo gênero, que vem se tornando referências para os concorrentes e até mesmo está gerando subgêneros — veja bem, Doctor Strange and the Multiverse of Madness promete ser um “filme de herói de terror”.

Errar faz parte do aprendizado e enquanto eles fizerem isso para lançar filmes cada vez melhores, estaremos aqui assistindo, claro.

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