Mulher-Maravilha é a essência daquilo que é ser um herói [Crítica]

Por Redação

Ao contrário da Marvel, com seus personagens mais humanos e tão falhos quanto qualquer um de nós, a DC Comics sempre teve seus heróis como seres quase divinos. E não apenas pelas referências óbvias que o Superman sempre teve com Jesus Cristo, mas por tudo aquilo que eles representavam. Mesmo sendo superpoderosos, o que sempre chamou a atenção em suas histórias era como esses personagens conseguiam ser melhores do que todos nós. Em meio a um mundo cada vez mais degenerado, eles carregavam uma inocência que nos inspirava a ser sempre melhores. Eram heróis que transmitiam esperança.

Apesar de toda essa bagagem, a Warner parece não ter entendido a essência de seus medalhões e o peso que esses ícones carregam. De Homem de Aço a Batman vs Superman: A Origem da Justiça, vimos heróis que se degeneraram tanto quanto a realidade e que se perderam no cinismo de nossa humanidade. Por isso, esses filmes foram tão criticados pelos fãs. E a salvação, quem diria, precisou vir também de uma figura divina.

Mulher-Maravilha chega aos cinemas com um misto de desconfiança e incerteza. Afinal, ele tenta botar ordem dentro do estúdio ao mesmo tempo em que carrega a responsabilidade de ser o primeiro grande filme de herói estrelado por uma personagem feminina. E, apesar de toda a má vontade de muitos fãs, a estreia de Diana Prince é exatamente a esperança que a DC precisava na construção de seu universo cinematográfico.

Inocência em tempos escuros

A trama é bastante simples, como os trailers já introduziam. Conhecemos Diana, uma amazona que treinou para ser uma guerreira na lendária ilha de Temiscira sem nunca ter contato com o mundo dos homens. Até que um dia, o avião do soldado Steve Trevor cai na região e ela acaba sendo levada para os horrores da Primeira Guerra Mundial.

E é em torno dessa relação que o principal trunfo do longa se desenvolve. Se o universo construído até aqui era sombrio e amargurado, Mulher-Maravilha é o exato oposto. O filme traz uma inocência e uma ingenuidade que nos lembra muito o clima do Superman dos anos 1970, com Christopher Reeves. Por viver em um paraíso, Diana é ingênua diante de todas as incongruências de nosso mundo e é essa inocência que encanta e conquista o espectador.

Era essa inocência que faltava à DC e a seus heróis nos cinemas. Ao contrário de um Superman que diz com todas as letras que não é possível ter esperança neste mundo, a ingenuidade de Diana faz com que ela consiga enxergar o que há de melhor na humanidade mesmo em um de seus momentos mais sombrios. E, mais do que isso, ela faz com que as pessoas ao seu redor queiram sem melhores exatamente pela inspiração que ela emana. Ela é a única que pode realmente ser chamada de herói dentro desse universo.

Não por acaso, a sequência em que ela sai da trincheira para encarar o exército alemão na Terra de Ninguém — uma das cenas mais icônicas do trailer — se torna ainda mais impactante nas telonas. Ela é tão pesada e cheia de significado que é impossível não se arrepiar quando a deusa caminha em direção à tela carregando esse discurso consigo.

E o contraste entre Mulher-Maravilha e o mundo que a cerca é evidente não apenas nesse campo discursivo, mas também no visual. A direção de arte teve o cuidado de fazer com que a personagem se destacasse a todo o momento. Para recriar o campo de batalha da Grande Guerra, a diretora Patty Jenkins usou uma paleta de cores bastante escura e morta. E as cores vibrantes do uniforme de Diana destoam completamente desse cenário sem vida e mostram como ela é especial.

O curioso é que, intencional ou não, esse mesmo paralelo pode ser feito com o próprio universo cinematográfico da DC. Homem de Aço e Batman vs Superman utilizam a mesma tonalidade opaca da guerra, então Mulher-Maravilha continua sendo esse ponto de fuga, ou seja, essa esperança que emana entre dois personagens que simplesmente se perderam.

Lute como uma garota

Deixando essa parte mais poética de lado e indo a parte prática: Mulher-Maravilha é um excelente filme de ação. Esqueça aquela birra imbecil que muita gente teve com o fato de termos uma protagonista feminina, pois a personagem consegue entregar cenas de luta muito mais empolgantes do que seus companheiros da Liga da Justiça e até mesmo que boa parte dos filmes da Marvel.

A adaptação acerta ao apostar não apenas na força da personagem, mas também em sua habilidade. Assim, ver os saltos e piruetas que ela faz durante as lutas é algo que impressiona, pois é bem diferente daquilo que estamos acostumados a ver dentro desse estilo de filme. É claro que há alguns problemas no caminho, como o excesso de efeitos digitais — alguns deles um pouco mal feitos e artificiais — e de slow motion, mas nada que estrague o excelente trabalho feito por aqui.

Adicione a excelente trilha sonora que já vimos em Batman vs Superman e você tem a combinação perfeita para sair empolgado da sala de cinema.

Calcanhar de Aquiles

Porém, se o filme acerta no tom, comete alguns deslizes na parte mais técnica, sobretudo na hora das atuações. Como já sabíamos, Gal Gadot é uma excelente Mulher-Maravilha, mas ainda deixa muito a desejar como Diana. A atriz é bastante limitada e as cenas que exigem um pouco mais de suas habilidades dramáticas acabam perdendo muito do impacto necessário. Em alguns momentos, a interpretação alcança um nível de novela das oito.

Mas também não podemos ser injustos com a moça. Ela consegue convencer como uma amazona e transmitir a força necessária, além da já comentada inocência. Ela consegue carregar essa dualidade muito bem, suportando o filme muito bem. As cenas em que ela está “à paisana” em meio à sociedade londrina são excelentes.

Por outro lado, outros personagens acabam não tendo a mesma desenvoltura. Os vilões são caricatos e possuem alguns momentos dignos das mais vergonhosas comédias-pastelão. O destaque aqui fica para a Doutora Veneno, que foi inserida na história apenas para fazer referência aos quadrinhos e que ganhou uma versão cinematográfica terrível. Além de mal explorada, a atriz que faz a personagem simplesmente não consegue transmitir nada em sua fala morta. É o tipo de vilão que poderia ser substituído por um cone que não faria diferença.

Do lado dos mocinhos, a coisa não é muito diferente. Há um ou outro diálogo ali que justifica a existência desse elenco de apoio — principalmente com Sameer —, mas outros acabam sendo descartáveis. O personagem de Ewen Bremner é simplesmente sofrível.

Esperança e inspiração

No mundo dos quadrinhos, costumamos dizer que a DC possui os chamados heróis de legado. Seus personagens são muito mais do que quem veste o manto. Dentro das próprias histórias, esses heróis inspiram pessoas que vão seguir os seus passos. E Mulher-Maravilha é exatamente isso nos cinemas.

Estamos em um momento tão conturbado do mundo que um filme leve e esperançoso assim era exatamente o que precisávamos. O super-herói nunca foi aquele personagem que tinha força e poderes, mas sim aquele que, apesar de todas essas habilidades, ainda conseguia ser mais humano do que nós. E é isso que o filme nos mostra: uma heroína que cresceu em um lugar isolado e que, mesmo conhecendo o que há de pior em nosso mundo, ainda acredita em nossa humanidade.

Em determinado ponto da trama, Hipólita diz que que não merecemos alguém como a Mulher-Maravilha. E ela está certa, mas a verdade é que nós precisamos exatamente olhar para esses modelos para sermos pessoas melhores. É isso o que representa ser um herói.

Já na parte cinematográfica, a mensagem é a mesma. A DC precisava de um filme assim, que revelasse o real significa de ser um símbolo e que enchesse nossos corações de esperança para Liga da Justiça. E o melhor é ver isso acontecer pelas mãos de uma personagem tão poderosa quanto Mulher-Maravilha.

Depois de anos com filmes voltado apenas para o público masculino, é ótimo vermos algo tão forte e impactante chegando às telonas por uma protagonista feminina. Assim como a pequena Diana imitava as amazonas dando socos e chutes no ar, que uma nova geração de meninas se inspirem no símbolo da personagem daqui para frente.