É hora dos grandes estúdios repensarem a forma como distribuem seus filmes?

Por Douglas Ciriaco | 21.01.2016 às 11:35
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No último dia 14 de janeiro, saiu a lista completa dos indicados ao Oscar 2016. A maior premiação do cinema ocidental acontece sempre no início do ano, o que leva muitas empresas de Hollywood a programarem as suas estreias para o final do ano anterior, aumentando o apelo da obra, tornando-a mais visível e tudo mais.

Em alguns casos, as distribuidoras responsáveis por lançar o filme em outras partes do mundo incrementam ainda mais a técnica, deixando para lançar um filme semanas ou até mesmo alguns dias antes da premiação. Contudo, quem acompanha fóruns de download, usa serviços como o Popcorn Time ou mesmo vasculha os serviços de torrent já sabe que os principais indicados à estatueta dourada já podem ser baixados gratuitamente na internet.

De acordo com o Torrent Freak, excluindo-se os curta-metragens e também os filmes estrangeiros, todos os demais 37 indicados ao Oscar já podem ser baixados da internet. Alguns deles já contam, inclusive, com releases em alta definição, com qualidade de Blu-ray, mas muitos também foram ripados a partir de DVDs ou DVD screeners, aquelas versões enviadas a críticos e votantes do Oscar antes do lançamento de um filme.

Prejuízo?

Falar sobre pirataria nos leva, invariavelmente, a levantar algumas questões práticas sobre o tema. Qual é, de fato, o prejuízo das distribuidoras quando alguém faz o download de uma cópia ilegal de um filme? Peter Sunde, um dos cofundadores do Pirate Bay, criou recentemente a Kopimashin, uma maquininha responsável por fazer 8 milhões de cópias de um arquivo de MP3 em um período de 24 horas.

Por mais bizarro que possa parecer, a ideia de Sunde é provar que o prejuízo alegado pelas empresas da indústria em processos contra o TPB é algo ilusório e longe da realidade, afinal fica difícil mensurar o quanto uma cópia ilegal danifica um patrimônio. Além disso, tratando especificamente do cinema, podemos analisar as maiores bilheterias da história.

star wars o despertar da força

Sétimo filme da saga Star Wars já é a terceira maior bilheteria da história. (Foto: Divulgação/Lucasfilm)

Das 10 maiores bilheterias de todos os tempos, nove filmes foram lançados nos últimos 7 anos. Se a lista é ampliada para os 20 filmes que mais venderam entradas, 16 deles chegaram às telonas de 2009 para cá, o que talvez nos permita avaliar que o crescente acesso às cópias ilegais não interfere tão diretamente no sucesso de um filme enquanto ele está no cinema.

Além disso, vale lembrar que muitos filmes se consolidam como ícones da cultura popular justamente graças ao compartilhamento ilegal. Pensando na questão do consumo, a fixação de uma marca por meio (também) da pirataria acaba gerando frutos e dinheiro para os seus detentores em produtos licenciados e também em lançamentos futuros. Para citar um exemplo, podemos imaginar quantas pessoas baixaram as trilogias de Star Wars antes de ir ver O Despertar da Força no cinema.

Internet: uma resposta

A internet é o centro de uma porção de negócios atualmente. A expansão das possibilidades da web e a evolução das velocidades de conexão permitiu a proliferação dos chamados serviços sob demanda, como Netflix, Spotify e YouTube no qual é o espectador que decide qual será a programação e quando ela será transmitida. Além disso, antes ainda da consolidação destes serviços estava o compartilhamento ilegal, tão atacado pela indústria.

Enfim, fica a pergunta: não estaria na hora de Hollywood repensar a forma como distribui seu conteúdo? Logicamente que a ideia de acabar com o espaço físico da sala de cinema passa longe de qualquer um que aprecie a sétima arte, mas talvez fosse possível trabalhar em uma forma de facilitar o acesso das pessoas aos filmes de maneira legalizada.

Mais do que vontade de prejudicar a indústria ou incorrer em algum crime, quem baixa uma obra da internet quer apenas assistir ao filme. Em suma, podemos sugerir que facilitar o acesso (tanto do ponto de vista técnico quanto do ponto de vista financeiro) seja uma das principais medidas para reduzir a pirataria. Exemplos disso é o que não faltam — e estão aí serviços como Netflix e Crackle, além dos serviços de vendas e aluguel digital ou ainda aqueles sob demanda oferecidos por canais de TV por assinatura.

Distribuição direta

A internet é maravilhosa quando o assunto é distribuir coisas, então por que não aproveitá-la para isso? O capitalista de risco e blogueiro Fred Wilson aponta que, mais do que impedir a pirataria (ou criar algo bizarro como uma "guerra à pirataria online"), o ideal é oferecer mecanismos que desencorajem tal ato.

Crackle

Serviços como o Crackle poderiam ser ainda mais úteis na distribuição de lançamentos. (Foto: Reprodução/Crackle)

Os serviços de streaming fazem um pouco isso, afinal você conta com uma vasta locadora pagando uma mensalidade fixa. Mas Wilson vai além e cita dois métodos bem básicos: a distribuição na base do “pague quanto quiser” e a venda individual e direta de conteúdo pelos próprios estúdios. O último método, convenhamos, pode ficar caro devido à grande infraestrutura necessária para armazenar uma grande quantidade de filmes de 2h30 em 1080p, por exemplo, mas uma parceria com empresas que já atuam neste setor poderia dar conta de tudo.

Vendendo publicidade

O Crackle é uma plataforma de distribuição digital da Sony na qual é possível conferir uma série de filmes produzidos pela empresa japonesa. Atualmente, ele também conta com programas de TV, conteúdos licenciados de outras companhias e extras de produção de filmes e séries. Você pode se cadastrar e assistir tudo de graça, consumindo também a publicidade presente no site.

Apesar do modelo ser bem-sucedido (o YouTube funciona de maneira semelhante e também conta com sistema de aluguel de filmes online), ele ainda não dá conta dos lançamentos mais recentes. Então, que tal se as companhias passassem a oferecer seus conteúdos de maneira mais direta, reunindo, por exemplo, um pacote com as principais novidades e cobrando um valor específico para isso?

E se uma parceria entre serviços de streaming, como Netflix e YouTube, resultasse na possibilidade de pagar um valor fechado para assistir aos indicados ao Oscar de melhor filme? As películas ficariam disponíveis durante um determinado período de tempo e você poderia conferi-las no PC, tablet, smartphone ou Smart TV.

Os tempos estão mudando

O compartilhamento é a base da internet. Apesar do ato de dividir seus produtos de entretenimento com outras pessoas ter surgido bem antes da web se tornar popular — você que é mais antigo deve se lembrar das fitas de VHS com filmes gravados da televisão ou mesmo das cópias de fitas cassetes feitas por seus amigos —, a rede mundial serviu de campo fértil para ampliar ainda mais esta prática.

Independentemente do modelo adotado, as grandes companhias do setor precisam entender que os tempos mudaram e continuam mudando. Democratizar o acesso aos bens culturais deveria ser o grande foco dos estúdios, ampliando o alcance e facilitando o acesso aos seus produtos a ponto de que as pessoas precisassem depender menos da pirataria para ver um filme. E, nesse sentido, a internet e a boa vontade podem ser as suas principais aliadas.