Crítica | Vidro: "Qual a água que nos lavará?"

Por Sihan Felix | 21 de Janeiro de 2019 às 09h14
Disney / Buena Vista

As obras de M. Night Shyamalan têm algumas assinaturas que fazem dele um autor único. A mais evidente envolve os finais dos seus filmes: reviravoltas que podem deixar pelo menos parte do público atordoado. É um carimbo que ele perpetua desde o início da carreira. Seus dois primeiros filmes, Praying with Anger (1992) e Olhos Abertos (1998), ambos comédias (e o segundo sendo bem família – Quem diria?), já prenunciavam a chancela shyamalaniana.

Mas foi seu terceiro trabalho que revelou um diretor a ser acompanhado, com ideias no lugar, com a emoção e a razão em equilíbrio. O Sexto Sentido (1999) definiu, por si só, o que é um filme de Shyamalan. Mas o diretor também foi negativamente criticado (ainda o é), especialmente por aqueles que veem sua obra perder o valor total quando se sabe do seu fim. A filmografia do indiano naturalizado americano parece que redefiniu a força de um spoiler, afinal, saber como termina qualquer filme escrito e dirigido por ele antes de assisti-lo pode, de fato, estragar a experiência.

Por outro lado, enquanto O Sexto Sentido padece desse caso e talvez possua um dos spoilers mais trágicos da história do cinema, Corpo Fechado, lançado no ano seguinte (2000), além de ter tal assinatura (em um grau menor sem dúvida), tem uma construção climática tão madura que é possível acompanhar David Dunn (Bruce Willis) no mesmo ritmo de sua respiração. É como estar ali, identificando-se com um humano poderoso, mas falho, cheio de dúvidas e medos. É quase como se Hitchcock resolvesse realizar um filme sobre um super-herói, tamanha a fluidez entre planos abertos, médios e, especialmente, planos detalhes. Esses últimos, por sinal, para serem mais hitchcockianos só mesmo pelas mãos do próprio.

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Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers!

A boa artificialidade estética

Em Vidro, a impressão inicial é a de que, esteticamente, o diretor quis entrelaçar a aparência mais fria e clássica de Corpo Fechado com o calor encardido de sua inesperada sequência, Fragmentado (2016). Dessa fusão, surge o filme talvez mais agradavelmente artificial de sua carreira. O verde musgo e o azul sério e entristecido da combinação de Batman com Superman de Shyamalan mistura-se com o amarelo enferrujado da sua versão de um serial killer e dá luz a um roxo que parece se justificar apenas na personalidade de Elijah Price (Samuel L. Jackson).

(Imagem: Disney / Buena Vista)

Assim, toda a criação de tensão de metade do filme, por mais que Elijah apareça se movendo até então somente por meio de contrações faciais, tem um ar de estranheza. Utilizando essa construção, o diretor cria toda uma inquietude sobre o poder da inteligência de Elijah – Sr. Vidro –, muitas vezes visto em closes bem fechados, claustrofóbicos, como se aquela história estivesse toda ali, na cabeça daquele homem (exatamente como está).

(Imagem: Disney / Buena Vista)

A artificialidade estética, igualmente, promove uma separação muito interessante entre os três sobre-humanos e aquilo que se conhece como mundo real. O roteiro é de muita inteligência nesse sentido, pois busca essa separação através do íntimo – algo habitual na filmografia de Shyamalan. Dessa maneira, são três pessoas comuns que fazem o contraponto mais válido do filme: Joseph Dunn (Spencer Treat Clark, que volta ao seu papel quase duas décadas depois), Casey Cooke (Anya Taylor-Joy) e a Sra. Price (Charlayne Woodard). Ao mesmo tempo em que o trio é uma espécie de apoio vindo de um mundo de maioria cética e que rechaça o diferente (sendo Casey uma espécie de substituta da Dra. Dr. Karen Fletcher – Betty Buckley –, a terapeuta de Fragmentado), serve também de conexão entre o universo nebuloso dos superpoderes e a dimensão cínica que serve bem como metáfora para a realidade extrafilme de uma vida em meio a pós-verdades.

O circo midiático de fatos

Se, nesse caso, Vidro é um estudo fascinante sobre o quanto os fatos objetivos têm menos influência do que emoções e crenças pessoais, essa faceta é ilustrada especialmente na figura da Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson). A atuação de Paulson, aliás, só engrandece e constrói camadas em torno de sua personagem: A fragilidade da sua gesticulação e as suas expressões faciais contrastam com seu olhar firme e com sua voz que nunca se revela insegura. É um trabalho tão consistente que existe a possibilidade de boa parte do público acreditar que Shyamalan estaria desconstruindo toda a mitologia dos dois filmes anteriores e desastradamente procurando um final pé-no-chão, onde não existiriam super-heróis em meio a gente sem superpoderes.

(Imagem: Disney / Buena Vista)

Felizmente, esse viés não se confirma. E ele (Shyamalan), que também é o roteirista do filme, brinca com isso. Se, a um momento, ele inclui na fala da Dra. Staple a pergunta “Você acreditou (que não é um super-humano)?” – questionamento que ela faz a David –, ele parece perguntar também como metalinguagem, como se estivesse se dirigindo aos espectadores e questionando se haviam acreditado naquela solução.

E não apenas. Vai além: Ao transformar o final, graças à mente do Sr. Vidro, em um circo midiático de fatos, o diretor faz política, entregando nas mãos do povo o poder do conhecimento, de saber da existência daquilo que um pequeno grupo procurava esconder.

“Deus está morto!”

Esse final, com seu clímax de mais de meia-hora de duração, cheio de plot twists completamente shyamalanianos, é das sequências mais incríveis (a mais épica com certeza – visto que o diretor dificilmente investe em uma mise-en-scène grandiosa) que o indiano já construiu.

Se a fé é um elemento recorrente em sua filmografia – os citados Praying with Anger, Olhos Abertos e O Sexto Sentido demonstram bem a sua discussão sobre o tema, assim como Sinais –, outra fala da Dra. Staple carrega (ou esclarece) o filme com mais significados: “Não podem existir deuses entre nós.” É quase como “Deus está morto.”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que, ao não se tratar exatamente de um ser supremo, pode se tratar da desvalorização de todos os valores supremos – valores que refletem, no final das contas, o que é ser um humano ou, mais sintético e mais abrangente ao mesmo tempo, o que é ser.

"Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!" – Friedrich Nietzsche

(Imagem: Disney / Buena Vista)

Por mais que Vidro possua alguns diálogos expositivos – mais do que Fragmentado e se opondo completamente a Corpo Fechado –, como a desnecessária fala da Dra. Staple explicando as ações do Sr. Vidro ao final, é, sem dúvida alguma, um filme que fecha com honra uma trilogia que, agora, fica entre as mais envolventes já realizadas. Com honra e seguro de si, porque o faz de forma irreversível.

*Crítica dedicada a Ares Saturno, colega e primeiro leitor declarado que tive no Canaltech. In Memoriam.

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