Crítica | O Predador traz de volta o melhor e o pior dos anos 1980

Por Felipe Demartini | 13 de Setembro de 2018 às 10h11
20th Century Fox

Os anos 1980 foram o ápice da produção de filmes de ação, com o lançamento de vários clássicos do gênero e a revelação de atores que, até hoje, capturam o imaginário popular. Foi, também, uma época em que grandes alienígenas tomaram conta do cinema, com lançamentos como E.T.: O Extra-Terreste, Inimigo Meu e Alien: O Oitavo Passageiro alegrando ou aterrorizando plateias. A Guerra do Vietnã tinha acabado apenas dez anos antes e suas cicatrizes ainda eram recentes.

De um amálgama desses três sentimentos, nasceu a franquia Predador, que, podemos dizer, foi capaz de unir todas as tribos. A opressão da floresta e os soldados violentos estavam lá, com músculos à mostra e muita habilidade no tiroteio (afinal, tínhamos Arnold Schwarzenneger e Carl Weathers protagonizando). Do outro lado, um alienígena poderoso, igualmente habilidoso e com tanto desejo de sangue quanto os heróis.

Não é à toa que, até hoje, o monstro é parte integrante da cultura pop, mesmo que sua produção cinematográfica tenha degringolado após a sequência, lançada em 1991. O novo filme, que chega nesta quinta-feira (13) aos cinemas, vem para tentar trazer de volta os tempos áureos de ação e violência, ao mesmo tempo em que demonstra, desde o título, sua intenção de recomeçar as coisas. O Predador não é exatamente um reboot, mas uma tentativa de abrir a porta para uma nova geração de fãs e filmes.

Tanto que, apesar de o combate ser o mote principal (estamos falando de um filme de ação, afinal de contas), há mais em termos de enredo. Temos um mundo que convive com as visitas constantes de Predadores. Como no clichê da ficção científica, temos um governo que realiza pesquisas nos alienígenas enquanto tenta encobrir os rastros de qualquer aparição deles, apesar de, no primeiro momento, solicitar ajuda externa e repentina de uma especialista civil, Casey Bracket, interpretada por Olivia Munn.

Esse pedido vem após a queda de mais uma nave Predadora, que interrompe uma operação liderada por Quinn McKenna (Boyd Holbrook, que parece ficar cada vez mais insosso na medida em que se consolida como o novo rosto do cinema de ação). Ele é um militar veterano e desacreditado que sabe estar em contato com algo que o transformará em um arquivo a ser queimado. Após ver sua equipe ser dilacerada e acreditar ter matado o alienígena, ele rouba o bracelete e o capacete do monstro, enviando-os a um local seguro como forma de provar o que viu e, também, garantir sua sobrevivência.

Na primeira da lista de más ideias de O Predador, os artefatos acabam indo parar na casa da família de Quinn, caindo nas mãos do filho Rory (Jacob Tremblay). Ele é superdotado e possui espectro de autismo, características que o ajudam a desvendar um pouco da língua alienígena falada pelo Predador e entender como funcionam seus sistemas de armamentos.

Rory McKenna (Jacob Tremblay) é uma das engrenagens da história de O Predador (Imagem: Divulgação/Fox)

Tudo dá errado e o alienígena, supostamente ferido e capturado pelo governo, escapa, querendo recuperar suas coisas. Isso faz do garoto um alvo e é aí que essas três histórias se unem, com Quinn se aliando a um grupo de veteranos com stress pós-traumático e que também servem como alívio cômico. É interessante ver Thomas Jane, o antigo Justiceiro, no papel de um soldado com passado traumático e Síndrome de Tourette — os roteiristas também parecem ter gostado, dando a ele bons momentos e um desenvolvimento maior entre os coadjuvantes.

Se os parágrafos acima te fazem ter a impressão de que O Predador tem um enredo elaborado, entretanto, pode tirar o cavalinho da chuva. O filme tem, sim, um enredo e uma razão de ser, mas ela serve apenas como plano de fundo para a correria, o tiroteio e a sanguinolência. Não que isso seja ruim, mas soa esquisito quando se percebe que todos os personagens são delineados e apresentados na primeira meia hora, com todo o restante do longa sendo um grande combate em que muita coisa, simplesmente, acontece.

A primeira vez em que percebemos isso é quando a cientista, aparentemente vulnerável e sem entender muito bem o que está acontecendo, pega uma arma e sai correndo, mesmo sabendo com o tipo de criatura que está lidando e possuindo uma, aparente, falta de treinamento. Ela até atira e sabe usar metralhadoras e granadas, mas não tão bem assim, afinal de contas, ela é uma pesquisadora e não uma militar. Mas, no mundo absurdo de O Predador, qualquer pessoa sabe utilizar um rifle de assalto.

É esse o nível de suspensão de descrença necessário quando outros pesquisadores aprendem a lutar de repente ou quando personagens se teleportam de um lado para o outro, de repente. Se seu ceticismo te acompanhar ao longo do filme, com certeza ele morrerá no momento em que o protagonista pedir para dois membros de sua equipe encontrarem “um helicóptero e explosivos” no meio de uma zona aparentemente rural. Simples assim.

Aumentando as apostas o tempo todo

O Predador logo se mostra uma ameaça bem menor do que os personagens (e o público) esperavam (Imagem: Divulgação/Fox)

Tais liberdades de roteiro são necessárias para que funcione um longa cujos desafios estão sempre em uma crescente. Afinal de contas, temos três filmes do Predador no passado (cinco, se contarmos os embates contra o Alien); conhecemos suas fraquezas e já o vimos ser derrotado antes. Entretanto, sabíamos pouco sobre uma suposta richa entre diferentes raças do extraterrestre e, acima de tudo, sobre os desígnios finais de seu povo. No novo longa, ficamos sabendo que eles estão nessa por muito mais do que uma caçada.

São informações que soam jogadas para quem não tem muitas lembranças da franquia, mas que dão corpo à trama e justificam o roteiro. Além disso, servem também para dar sentido à ameaça maior do longa, uma nova raça de Predador que é capaz de matar a versão “tradicional”, digamos assim, sem problemas. E ela ainda vem acompanhada de dois cachorros predadores, pois um bicho de 2,5 m de altura, capaz de ficar invisível, com dreads e presas à mostra já não é ameaçador o bastante.

Quando os doguinhos entram, e protagonizam alguns dos momentos mais imbecis do longa, porém, o espectador já está entregue. E é aqui que o longa efetivamente assume com vontade seus ares oitentistas, entregando o tipo de ação absurda e incrivelmente divertida dos filmes da época. Poderíamos dizer que O Predador é um bom filme da Sessão da Tarde, não fosse a quantidade de gente decapitada, desmembrada, explodida ou arrebentada.

Time de combatentes de O Predador tenta emular o esquadrão de soldados do original, de 1987 (Imagem: Divulgação/Fox)

Esse abraço na galhofa é dado sem medo de ser feliz, com a confiança de que, até ali, o longa já cumpriu seu papel de entregar enredo, motivação e ambientação. É hora, então, de seguir com tudo para um final e mostrar que somente muito fogo pesado é capaz de conter essa nova versão do Predador.

É uma pena que, na hora derradeira, esse abraço não veio acompanhado de um beijinho. Sem spoilers do final aqui, é claro, mas você vai me entender quando assistir à cena que encerra o longa e o suspense feito em torno da aparição de “algo” que poderia ser um monte de coisa humana ou alienígena, mas acaba não sendo tão digno do hype gerado assim. Seria um momento para aplaudir de pé o retorno dos anos 1980, mas acaba sendo, no máximo, ok.

Em um mercado cinematográfico dominado por franquias, O Predador deseja ser mais uma e entrega um resultado bastante aceitável. É cinema pipocão em sua essência quase pura, com elementos aqui e ali que devem trazer sorrisos aos fãs do passado, mas um olhar claro para o futuro. O aumento nas apostas e o ensejo dado aos alienígenas servem para mais do que justificar esse filme: eles também representam um investimento na continuidade de marca.

E se existe um longa capaz de reviver essa saga, este pode muito bem o ser. Logicamente, quem procura um enredo intrincado e personagens profundos sairá frustrado, mas será que esse tipo de público efetivamente estaria assistindo a um filme do Predador? E se a ideia era reviver a ação visceral e tresloucada do passado, podemos dizer, então, que o longa é bem-sucedido?

O Predador tem muito cheiro de passado, mas tenta levar franquia para uma nova direção (Imagem: Divulgação/Fox)

São muitas perguntas a serem respondidas de acordo com o envolvimento de cada um com a franquia. Os mais fanáticos podem acabar divididos entre aqueles que esperavam mais e os que terão exatamente o que os encantou no passado, tudo depende da abordagem. E nesse jogo de expectativas, o longa acaba num meio-termo, daqueles que o faz até ser difícil de ser avaliado. O Predador é bom, mas não é ótimo; é absurdo, mas não vai até o fim; é divertido, mas também deixa aquela sensação de “médio”.

Tirando todas essas relativizações, no final, o que temos é mais um blockbuster daqueles, com um bom elenco, apesar do ator principal ruim; motivações leves, mas que estão lá e podem render bons frutos; e, acima de tudo, o retorno de uma das criaturas mais violentas e consagradas do cinema. E como disse um amigo, “sempre vale a pena ver o Predador em movimento”.

O filme é dirigido por Shane Black (Homem de Ferro 3, Beijos e Tiros; e roteirista do primeiro Predador). Também estão no elenco Sterling K. Brown, Yvonne Strahovski, Keegan-Michael Key, Trevante Rhodes, Alfie Allen e Augusto Aguilera. A estreia está marcada para esta quinta-feira, 13 de setembro, no Brasil.

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